quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

O machismo que você prefere fingir que não vê

Arte por Porra Tatyana – Instagram: @porratatyana/

De acordo com dados apresentados em matéria da Revista Fórum, do dia 22 de novembro, houve aumento em 13% nos casos de feminicídio no Brasil em relação a 2018. No Rio de Janeiro, o aumento desse tipo de crime foi de 300%, em estudo apresentado pelo Instituto Igarapé. Já em São Paulo, os casos seguem em alta e cresceram 27% em nove meses de 2019. Um dado ainda alarmante: segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida.

Gostaríamos de relembrar um caso:

Em 2011, Nick Oliveri (ex baixista Queens of the Stone Age) foi detido por violência doméstica. Ele manteve a namorada refém por horas após uma briga entre o casal. A S.W.A.T. (polícia especializada dos Estados Unidos) precisou ser acionada e intervir para quem uma tragédia maior não acontecesse. Nick acabou se entregando, foi preso e na residência ainda encontraram um rifle carregado. Foi solto após pagar uma fiança de US$ 100 mil (cerca de R$ 150 mil).

Nick Oliveri, músico experiente e que possui passagens por bandas importantes, como Kyuss e The Dwarves, passou pelo Brasil recentemente com o Mondo Generator.

“E o que é que eu tenho a ver com isso?”

Se você está se perguntando exatamente o que colocamos acima, ou “qual a relação entre esses casos e o giro que o Nick deu pelo Brasil?”. Bom, vamos explicar.

No dia 15 de novembro, a fotógrafa e videomaker Thaís Mallon publicou em sua rede social um texto chamando atenção para o caso e ainda trazendo a reflexão sobre o que poderia ou não ser considerado um caso de machismo.

Não é de hoje que alguns músicos vêm sendo denunciados por comportamentos violentos contra suas companheiras, fãs, namoradas. E quando isso acontece, muitas pessoas saem em defesa desses homens utilizando como justificativa que foi um caso isolado. Para piorar, ainda podem dizer que se trata de um problema do casal, que a mulher está em busca de seus minutos de fama ou que existe, seja lá como for, uma culpa compartilhada entre o cara e a “suposta” vítima. Para completar, encerra-se com a frase: “não podemos confundir a pessoa com a sua obra”.

O problema é que, ao relativizar essas denúncias procurando amenizar ou resolver a situação com essas justificativas, fica cada vez mais difícil interromper esse processo impetuoso que é o de naturalizar a violência contra as mulheres. E quando esses casos são julgados sem uma análise profunda da relação de poder existente entre os gêneros, fazendo ainda recortes de classe e raça, torna-se quase impossível que os homens envolvidos nesses episódios se disponham a rever seus privilégios e iniciar uma real mudança nesse quadro.

Arte por Porra Tatyana – O lobo em pele de cordeiro – Instagram: @porratatyana/

É importante que os homens reflitam sobre as atitudes e tenham uma mudança de comportamento real – não só da boca pra fora. Avaliar atitudes, rever ideias e formas de tratamento não irá ferir o seu ego e muito menos torná-lo menos “másculo”.

Os homens precisam entender ainda que não basta apenas se conscientizar dos problemas, mas alertar os “amiguinhos” das suas atitudes também. Quantas vezes você presenciou um amigo dizendo alguma bobagem machista e ficou quieto só para não arranjar briga ou evitar estresse com um “brother”? É como aquela frase do Martin Luther king: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. É exatamente isso. É preciso compreender que não dá para aceitar que se perpetue mais essas atitudes escrotas para ficar sossegado no seu lugar de conforto.

São diversos os exemplos, em todos os gêneros da música, de agressões ou violências também verbais, reforçando modos machistas ou tornando pejorativa a luta das mulheres por mais igualdade.

Por fim (que não será o fim), muita coisa precisa ser dita, mas as ações falam mais do que palavras. Faça uma autoavaliação sobre as suas atitudes, se questione se você é alguém com uma postura que agrega ou só finge ser desconstruído. Abaixo o texto da Thaís Mallon, publicado originalmente no Facebook e foi transcrito nesta matéria com autorização da mesma. Para acessar a publicação original, acesse: https://bit.ly/33n5g5j

Sobre o Nick Oliveri e machismo, por Thaís Mallon

Nick Oliveri tocou na cidade. Uma amiga num grupo nos relembrou de quando ele fez a namorada de refém com um rifle carregado e foi necessária a intervenção da S.W.A.T. e duas horas de negociação pra mina conseguir sair. Eu tenho certeza que na cabeça dele, aquele comportamento não teve nada a ver com machismo, e sim com as questões particulares do casal.

Esse é o perigo de você individualizar e relativizar as questões. Você ignora que por trás de toda relação entre homem e mulher (ainda mais no campo afetivo/sexual) existe uma estrutura complexa onipresente que pauta como a gente é vista e tratada em tudo. Nesse caso do Oliveri, a violência da situação é muito nítida, então fica mais fácil reconhecer – ou mais difícil ignorar – o aspecto machista da situação. Já em muitos casos de violência simbólica, é mais difícil conseguir deixar explícito esse aspecto.

Mesmo assim, por ser onipresente, é inevitável, está em todos os setores das relações humanas e é passível de acontecer a qualquer momento se não há no homem a compreensão da importância de se colocar no lugar da parceira sempre, pensar em como é toda a vivência pra ela. É sobre sair do seu lugar de privilégio e olhar por outra ótica, já que muitas vezes a experiência é completamente diferente pros dois. É sobre desconforto. Se tá bom só pro homem, parece estranho, né? É necessário ouvir, acolher e principalmente refletir antes de individualizar. Por isso é essencial olhar as situações pelo macro, analisar de maneira genérica, como se fosse um teste mesmo, pra ver se a situação não pode ser enquadrada como machismo.

Estamos o tempo todo tentando provar o óbvio pra vocês. Pedindo empatia e recebendo egoísmo, ou seja, nada mais estereótipo masculino que isso, né? Egoísmo e orgulho, que prefere brigar a parar e pensar em como aquela mulher está se sentindo diante das situações. Isso causa na gente uma estafa mental enorme porque, além da gente já estar lidando com um monte de situação machista, tentando superar pra que aquilo gere a menor quantidade de trauma possível, a gente ainda precisa provar que aquilo está acontecendo.

Quando vocês relativizam uma situação, o que vocês estão dizendo – às vezes de um jeito menos playboy mas o recado continua o mesmo – é: “mimimi vcs vêem machismo em tudo”. E se você não vê machismo em tudo, você tá errado.

Fontes:

Ex-baixista do Queens of the Stone Age pode pegar até 15 anos de prisão
https://rollingstone.uol.com.br/noticia/ex-baixista-do-queens-of-the-stone-age-pode-pegar-ate-15-anos-de-prisao/

Pesquisa mostra que casos de feminicídio no Brasil registraram alta de 13% em 2019
https://revistaforum.com.br/brasil/pesquisa-mostra-que-casos-de-feminicidio-no-brasil-registraram-alta-de-13-em-2019/

RJ tem aumento de mais de 300% de casos de feminicídio em dois anos, aponta instituto
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/11/25/rj-tem-aumento-de-mais-de-300percent-de-casos-de-feminicidio-em-dois-anos-aponta-instituto.ghtml

Casos de feminicídio seguem em alta em SP e aumentam 27% em 9 meses de 2019; maioria ocorre à noite
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/11/13/casos-de-feminicidio-seguem-em-alta-em-sp-e-aumentam-27percent-em-9-meses-de-2019-maioria-ocorre-a-noite.ghtml

Victor Chaves ironiza agressão à mulher e brigas com o irmão
https://emais.estadao.com.br/noticias/gente,victor-chaves-ironiza-agressao-a-mulher-e-brigas-com-o-irmao,70002718011

Na web, Gusttavo Lima é acusado de machismo por comentário em show
https://www.metropoles.com/celebridades/na-web-gusttavo-lima-e-acusado-de-machismo-por-comentario-em-show

Gustavo Bertoni, da Scalene, é acusado de traição e assédio no Twitter
https://www.metropoles.com/entretenimento/musica/gustavo-bertoni-da-scalene-e-acusado-de-traicao-e-assedio-no-twitter

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Sobre o autor

Redação Nada Pop

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