quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Nada Pop

É da periferia que surgem iniciativas que reinventam a lógica de acesso e produção cultural

Sétima edição Sinta a Liga – Foto: Joelma Antunes

Para a maioria das pessoas a música é uma forma de expressar sentimentos. E ao longo do tempo, artistas de diversos gêneros e vertentes utilizaram suas produções como instrumento de protesto, transformando música e expressões artísticas em manifestos com a intenção de alertar os ouvintes e expectadores sobre questões políticas, apontando desigualdades sociais e diversas opressões.

Num contexto onde o acesso à produção cultural se limita aos grandes centros, e a garantia deste direito é privilégio de grupos específicos, surgem nas periferias movimentações, individuais ou em formato de coletivos, interessadas em reinventar a lógica de acesso e produção cultural, dando luz à cultura local, promovendo intercambio entre artistas de diversas regiões e cidades, possibilitando a troca de experiências através de festivais, encontros, venda de materiais e publicações independentes. Baseadas principalmente em vínculos afetivos e vontade de modificar uma realidade que geralmente é marcada por desigualdades e violências.

Foi assim que surgiu, no Distrito Federal, o Festival Sinta a Liga. Idealizado pela Tuttis, produtora cultural, materna e vocalista da banda punk Penúria Zero que desde 2010 produz eventos na pegada Faça Você mesma. Bati um papo com ela e o que rolou desde as primeiras movimentações ainda em sua cidade natal até os dias de hoje você acompanha a seguir.

A forma que achei de protestar foi através da música, como é até hoje

 

Meninas na roda, sétima edição do festival Sinta a Liga. Foto: Joelma Antunes

Tudo começou em Luziânia/GO nove anos atrás, quando ela organizou um evento em protesto à morte de um amigo vítima de homofobia aos 17 anos. “A forma que achei de protestar foi através da música, como é até hoje. Depois que me mudei pro DF comecei a fazer meus projetos aqui e mais independentes, tirando do bolso, pedindo apoios, meu companheiro Sopas está em todas, e o Henrique de Braz que também é apoiador da causa e tem me ajudado de uma forma assim muito foda mesmo…”, conta.

Um dia eu ganhei um livro do zine oficial aqui de Brasília chamado ‘mulheres do rock’… eu de cara me apaixonei e fiquei naquela: por que não resgatar essas bandas com minas, o público feminino em um lugar onde elas podem se sentir acolhidas?

Banda Eskröta na sétima ediçao do Festival Sinta a Liga. Foto: Sopão

Mesmo que o cenário seja aparentemente amistoso, ser mulher nesses ambientes que ainda são dominados por homens e sua brotheragem é um ato de resistência. E ainda que a convivência seja pacífica com ressalvas, a necessidade de olhar pro lado e ver mais das suas, se sentir acolhida, e não ter que vestir armaduras apenas para estar ali, inevitavelmente gera um comichão de que podemos fazer mais, e ressignificar a ocupação dos espaços, certo? Foi assim que, em 2012, nasceu a primeira edição do Sinta a Liga. “Eu já fazia outro festival na cidade que eu morava em Luziânia chamado Rock pela Paz, mas eu sentia necessidade de incluir mulheres nos shows. Sendo que a grande maioria do público era de homens. Um dia eu ganhei um livro do zine oficial aqui de Brasília chamado mulheres do rock… eu de cara me apaixonei e fiquei naquela: por que não resgatar essas bandas com minas, o público feminino em um lugar onde elas podem se sentir acolhidas?”, lembra. Promover esses espaços seguros funciona como um catalisador de forças que estavam ocultas. Chegar nos lugares e ver meninas no palco, circulando livres, em posição de liderança, faz com que outras reconheçam nelas mesmas capacidades e vontades que foram silenciadas ou pouco estimuladas ao longo de suas vidas. “Depois de participar mais ativamente com a banda percebi que na maioria dos festivais não tinha banda com mina, ou se tinha era pra abrir os shows. O público feminino era pouco também, acho que devido não se sentirem bem no ambiente. Depois que começamos a fazer os eventos assim como o Bruxaria eu venho vendo uma quantidade maior de mulheres nos shows, bandas novas com minas crescendo. É gratificante quando alguma mina me para pra conversar sobre o festival”

Da mesma forma que ocupar os espaços a fim de diminuir as desigualdades de gênero na cena roquenrrou, descentralizar a cultura hegemônica das grandes cidades e trazer o debate político-musical para as periferias e outras regiões fora do eixo Rio-São Paulo, faz da Oxenti Rec., um selo distro focado em bandas punk e hardcore que teve início em Maceió/AL, uma referência do que um menino periférico pode fazer quando a vontade de enfrentar o sistema é mais forte do que as dificuldades impostas pelo cotidiano.

Banda Charlotte Matou um Cara, Oxenti apresenta. Motim/RJ – Foto: Arquivo pessoal

Sempre foi muito presente na minha vida esse choque de opostos. Eu lembro que na época Maceió era uma capital dos extremos. Você tinha muito ou você tinha nada. A desigualdade era muito grande

Foi em 2000 quando Klebson Silva (Klebinho) saiu do interior de Alagoas e se mudou para a capital. Morando na região periférica da cidade, se deparou com os extremos da desigualdade social logo de cara. “Sempre foi muito presente na minha vida esse choque de opostos. Eu lembro que na época Maceió era uma capital dos extremos. Você tinha muito ou você tinha nada. A desigualdade era muito grande. E foi uma coisa que eu convivi a vida toda. E entrando no ensino médio, quando a gente começa a construir nossa personalidade, comecei a conviver com a galera da minha região que ouvia muito reggae. Era a música da galera da quebrada, da periferia. Até hoje eu acho que ainda é muito forte por lá. E o Rap, que abordava mais coisas do cotidiano. E na escola eu comecei a conhecer o pessoal, muita gente ouvia isso. Mas o que mais me interessava era essa parte combativa das letras. E foi quando eu comecei a ouvir rock, aos 14/15 anos.”

E se o poder público não se debruça para fornecer o mínimo garantido pela Constituição, a saída é a autogestão, a organização coletiva, numa tentativa de fazer girar a roda produtiva, fomentar a troca, questionando e mudando o fazer artístico. O sentimento de pertencimento ao reconhecer o território como fonte de fortalecimento das nossas raízes e a utilização desse espaço como instrumento transformador, tornam-se ambiente fértil para o surgimento de micro resistências dentro da cena, porque o sentimento geral é de impaciência com as opressões estruturais a que somos condicionados e de urgência para fazer com que essa inquietação chegue no maior número de pessoas. E isso é o que motiva o nascimento dessas iniciativas. “Eu comecei a fazer teatro na escola. Era uma escola pública e tinha um cara que puxava umas aulas de teatro, como eu estava desocupado comecei a frequentar as aulas. Dentro do teatro que eu comecei a desenvolver muito mais da minha estrutura e construção politica, porque foi dentro dos ensaios que eu comecei a questionar mais e comecei a entender mais das coisas sobre por que eu sempre morei na periferia, por que que as coisas na periferia era bem diferentes dos bairros praianos, e isso sempre atrelado com esses roles do hardcore. Chegava num show de hardcore e tinham as banquinhas com material independente e tinham zines grátis. Eu pegava e levava pra casa, lia e as coisas foram se completando. As pessoas que estavam no palco tocando, falando todas as coisas que me tocavam eram as mesmas que no instante seguinte estavam ali no público, assistindo as outras bandas. Foi nesse momento que eu comecei a mergulhar mesmo no punk”

Dentro do teatro que eu comecei a desenvolver muito mais da minha estrutura e construção politica, porque foi dentro dos ensaios que eu comecei a questionar mais e comecei a entender mais das coisas sobre por que eu sempre morei na periferia, por que que as coisas na periferia eram bem diferentes dos bairros praianos

Mas foi em 2005 que a Oxenti tomou forma. Quando o Klebinho se mudou pro Rio, conheceu o Gustavo e começou a juntar uns trocados para participar do festival verdurada em São Paulo. “A gente ia muito pra SP pro verdurada. Na época a gente se organizou, alugou uma van e fomos. Voltando pro Rio, a gente percebeu que juntando a grana que a gente gastou pra viajar pra SP, poderíamos investir e trazer as bandas de outros Estados pra curtir com os amigos pelo Rio e movimentar a cena.” Atualmente o selo distribui material confeccionado de forma manual, possui uma lojinha virtual que funciona como um braço dos produtos disponíveis nas banquinhas, e conta com mais de 20 lançamentos.

Banquinha Oxenti. Foto: Arquivo pessoal

O Festival Sinta a Liga e a Oxenti Recs irão participar do circuito de comemorações do aniversário de 6 anos do site Nada Pop. Segue abaixo programação dos eventos:

VIII FESTIVAL SINTA A LIGA

Evento: https://www.facebook.com/events/2433680570081056/
Data: 15 de Novembro
Horário: a partir de 20h
Show com as bandas: Klitores Kaos (PA) / Bertha Lutz (BH) / Xavosa (DF) / XXIII (DF) / Mantendo a Identidade (DF)
Local: E-studio Rock Pub
Endereço: AE 4 C 28 SETOR DE OFICINAS – Brazlândia

Entrada R$ 10

OXENTI RECORDS APRESENTA

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Sobre o autor

Lety Trash

Lety é editora do Nada Pop, além de guitarrista na Trash No Star, fundadora e produtora na Efusiva Records e MOTIM, um centro de cultura feminista no Rio de Janeiro.