segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Nada Pop

[40 anos de Cólera] A última entrevista do Redson – Uma luz vermelha no final do túnel

Redson Pozzi, falecido em 27 de setembro de 2011 e um dos personagens centrais na história do punk na América Latina – Foto: divulgação

Por Caio Uehbe, do Rota 54

O ano de 2011 foi um período muito marcante em minha vida. Foi o ano que terminei a minha primeira graduação em Geografia, pela Universidade de São Paulo (USP), e foi justamente o ano que um grande amigo nos deixou, o Redson. Essa entrevista foi realizada no dia 14 de setembro para o meu trabalho de conclusão de curso intitulado A Apropriação pelo Movimento Punk Paulistano dos anos 70/ 80 do ‘Circuito Inferior da Economia Urbana’”.

Mal sabia que aquele seria meu último encontro com o Redson, que veio a falecer no dia 27 do mesmo mês, 13 dias depois dessa conversa. Essa, provavelmente, foi a última entrevista realizada por ele. Ainda parece um grande pesadelo a lembrança daquela data, prestes a dormir e recebendo uma mensagem do Clemente (Inocentes) me avisando do falecimento do Redson.

Por isso, falar sobre isso não é uma tarefa fácil porque simplesmente faltam adjetivos para descrevê-lo, mas posso dizer que tive o privilégio de conviver por dez anos da minha vida com a sua amizade e grande parte do que sou hoje como músico, compositor e ser humano se deve a essa convivência.

O “filho vermelho” é luz, uma luz vermelha no fim do túnel nessa escuridão em que vive o nosso país e grande parte do mundo! Nos dias atuais ousar fazer punk rock e continuar movimentando a cena é uma clara marcar de que “esse grito não foi em vão!”. Redson vive em cada gig, em cada show, cada garagem e em cada disco punk gravado e produzido até hoje no Brasil!

Tornar pública essa entrevista é para mim uma obrigação, para que as novas gerações tenham contato e saibam quem foi essa pessoa fantástica. Mantê-la guardada sempre foi algo muito incômodo e agradeço ao NADA POP pela oportunidade de publicá-la justamente no ano em que ele completaria 40 anos à frente do Cólera!

“Punk Rock é vida – É autonomia
O expressar sincero – É autonomia
Quero entender, Você e Eu
Eu não quero as regras – Quero autonomia
Não cultivo as guerras
Quero a liberdade pra tentar
Faça você mesmo, faça pra entender
Crie um mundo novo
Era, Era, Era de criar o novo
Era, Era, Era de estar e ser autônomo
Assumir os erros – É autonomia
Repensar os meios
Quero ser e me expressar também
Eu agora penso, abro a minha mente
Quero a liberdade pra tentar.”

(Música “ERA”, Redson Pozzi, Grupo Cólera, Disco “Caos Mental Geral” de 1998)

Como surge sua identificação na época para se tornar punk, para se inserir no movimento? De onde vieram as primeiras ideias do que era isso?

REDSON – Bem, no início que eu comecei a curtir rock eu tinha 11 anos, isso foi em 1973, e nessa fase, nessa época, não existia punk rock. Isso em 73 aqui no Brasil. Primeiro que no Brasil tudo chegava dois ou três anos com atraso. Então se saía um disco de uma banda lá fora ia só chegar depois dos três anos aqui no Brasil, ou se fosse lançado. Enfim, a gente não tinha acesso as coisas alternativas internacionais e em parte também a gente não tinha acesso as coisas oficiais, porque era um Brasil isolado pela ditadura, a gente não tinha acesso as informações. Então eu tive a sorte de ir despertando pro rock para começar a ir atrás. Eu acho que o roqueiro tem essa coisa de busca, de vasculhamento, ‘guerreiro que vasculha’, ele vai atrás, vai nas lojas e pergunta, ele escuta alguns desaforos em lojas que não sabem nem o que é rock. Mas ele garimpa até achar os discos da banda que ele quer, e acha. Eu achei os discos do KISS e comecei a curtir rock, então eu comecei já a ser um praticante do ‘faça você mesmo’, com 12 para 13 anos, porque eu queria montar uma banda e eu acabei montando uma série de instrumentos caseiros, de uma forma bem caseira, que mais para frente eu vou te contar. Então eu já pratiquei o ‘faça você mesmo’.

No decorrer dos anos 70 eu convivi com o mundo do rock trazendo meu violãozinho até a estação São Bento, já que eu morava no Capão Redondo, e fui tocando as músicas que eu sabia no meio de uma galera roqueira quase todo sábado e domingo.

A banda punk inglesa “Sex Pistols” – Foto: divulgação

Foi no final dos anos 70, em 78 que eu conheci o punk rock. Eu tocava numa banda, que era a minha quarta tentativa de banda, e a gente tinha um baterista que trouxe o disco dos (Sex) Pistols, que era o ‘Nevermind The Bollocks’, e eu ouvi esse disco e achei péssimo, achei horrível! (risos) achei detestável o disco dos (Sex) Pistols, ‘Nevermind The Bollocks’. Porque eu estava ouvindo country rock, eu estava folk, estava ouvindo outras sonoridades. Eu não ouvia aquele tipo de som. Só depois eu percebi que a proposta do álbum dos (Sex) Pistols deu certinho comigo, chocou e aquele choque que provocou em mim também despertou curiosidade. Mas eu só fui ser curioso a (Sex) Pistols alguns anos depois. Me fez ficar curioso ao que era punk e fui ver outras bandas. Aí eu conheci The Clash, que me deu um ‘up’, que me deu uma motivação de fazer punk rock com mensagem, com postura política, e fui conhecer outras bandas ótimas que são bandas de referência até hoje como Stranglers, UK Subs, Stiff Little Fingers, enfim, um universo de bandas 77. Aí eu entrei no punk rock montando o Cólera.

UK Subs – Foto: divulgação

O Cólera foi uma banda que surgiu em outubro de 79. Eu, meu irmão que é o baterista, o Pierre, e o Helinho na guitarra. Eu na época era vocal e baixista, porque eu escutava Stranglers e adorava aqueles timbres de baixo que uma banda fazia já nos anos 70 na Inglaterra, parecia meio futurista, tinha uma certa distorção o baixo, o baixo era aberto, as bandas geralmente usavam baixos menos agudos, baixos mais graves, e o The Stranglers era agudo e distorcido e as bandas e os músicos com quem eu tocava aqui no Brasil, ninguém fazia o baixo bem perto daquilo. Então para que o baixo na minha banda, saísse como eu queria, eu fui ser o baixista da banda. O Helinho na guitarra, nós como trio, fizemos repertório de 11 músicas, e de outubro até dezembro, nós preparamos o show que foi apresentado dia 12 de dezembro, na escola CETAL, do bairro do limão, escola hoje que se chama ETAL. A gente fez o primeiro show do Cólera, foi 12 de dezembro de 1979, junto com bandas que também eram punks, que já vinham existindo como o Condutores de Cadáveres, tinha o NAI, que era Nós Acorrentados no Inferno (risos). Aí a gente fez o nosso primeiro show e estávamos dentro do mundo punk.

Stiff Little Fingers – Foto: divulgação

A sua identificação então a princípio era só musical?

REDSON – A identificação foi musical, mas acho que o fato de a gente fazer o nosso primeiro show no meio já dos punks, e o show dar certo. A gente tocou dez músicas, aliás tocamos 11 músicas, no final do show não tinham mais músicas, a banda tinha dois meses e só tinha 11 músicas, não tinha cover, não tinha nada. E a gente ainda tinha ensaiado essa banda durante esses dois meses só com violões e a bateria sendo usada numa poltrona, porque era um apartamento, era uma kitnet, não dava para ensaiar a banda. Então a gente ensaiava com a bateria sendo a poltrona e dois violões. Só faltando cinco dias para o show nós ensaiamos num equipamento de verdade, que era o equipamento do Condutores (de Cadáveres), hoje conhecido como Inocentes, e a gente ensaiou num equipamento de verdade pela primeira vez juntos e fizemos esse show e foi um sucesso. Quando acabou a décima primeira música a galera ficou pedindo bis. Aí não tem mais música. Muito intenso, muito bacana o clima a vibe, e aí eu lembrei de uma música que eu tinha que se chamava ‘Desatear’, e chamei o guitarrista e falei: ‘faz só mi’, fizemos uma música na hora no improviso, em mi, com três partes distintas, tudo em mi, que se chama ‘Desatear’, que está até no nosso disco ‘Primeiros Sintomas’ de 2006 pela Devil Discos.

Redson Pozzi, com o “Cólera”, em show no Sesc Pompeia – Foto: Tata Canabrava

Como você enxergava o Mundo na época? O Brasil passava por transformações políticas, era o começo da anistia, você vivendo no Capão Redondo, periferia de São Paulo. Qual a visão que um jovem naquele período tinha do mundo a sua volta?

REDSON – É interessante porque a gente vivia num padrão juventude assim, ou você era o dito ‘cidadão trabalhador’, você tinha emprego, vivia direitinho com a família, se vestia direitinho, ou você era o marginal. Seja reggaeiro, seja roqueiro, o que for. O roqueiro era o marginal e hoje existe uma postura de aceitação de uma visão ampla para a diversidade da moda, da música, dos costumes que na época não. Se você não fosse, se você não agisse como aquele cidadão padrão você era visto com olhos de pessoa perigosa. Então no início eu já me vendo roqueiro, eu já vendo que curtia rock já me sentia parte desse jogo social pronto. Eu já via que aquilo não era exatamente o que eu queria fazer, que eu tinha outros jogos mais interessantes a jogar. Eu fui atrás de grupos sociais com quem jogar essa vivência, ou seja, fazer música, protestar, e fazer uma coisa que a gente fizesse em grupo, que fosse divertida.

Livro “Viagem ao centro da Terra”, de Júlio Verne – Foto: reprodução

A minha visão de mundo, digamos já era bem esclarecida. Eu tive uma vantagem de cedo ler Júlio Verne, de cedo ler Lobsang Rampa. De ler a história de Lobsang Rampa e saber como ele foi banido dos Estados Unidos, mesmo tentando provar uma coisa lógica que era um campo de eletricidade que hoje todo mundo conhece como áurea humana. Então todo o processo de aprendizado que eu tive graças a eu ser autodidata, facilitou eu aprender isso nos livros.

Meu pai formado em advocacia, muito estudioso, tinha uma grande quantidade de livros bons, inclusive a Barsa (enciclopédia), e ele tinha o costume de pesquisar. Então eu acostumei a sempre ler os livros e pesquisar aqueles tópicos que me interessavam e dessa forma eu li toda a coleção de Júlio Verne, ‘Viagem ao Centro da Terra’ quatro vezes, comprei o disco do Rick Wakeman junto com um livrinho especial que vem com as tablaturas das músicas de ‘Viagem ao Centro da Terra’ que é a trilha sonora do filme, com 14 anos eu comprei, tenho até hoje esse material. Então eu já tive aquela coisa que pouco da garotada brasileira tem que é uma paixão pela arte, uma paixão pelo esporte, uma paixão por algo que tem realmente um valor intenso de se abraçar, que é algo de intensidade, você não é só mais um palito de dentro da caixa de fósforo.

Então aí o processo de visão de mundo. Já um pouquinho mais aberta eu tinha problema com a galera com quem eu convivia porque as pessoas não tinham essa visão, tinham medo, porque na época da ditadura você não podia falar as coisas que você sabia. Você não podia falar para as pessoas, ‘vamos se juntar para lutar contra o Estado’, porque dava até medo de que alguém das pessoas ali pudesse ser espião. Era um estado de vigília permanente, você tinha que estar sempre esperto com o mundo ao seu redor.

Livro “A Terceira Visão”, de Lobsang Rampa. Foto: divulgação

Eu já entendendo melhor o processo do mundo com 14, 15 anos, morando no Capão Redondo e indo para o centro todo fim de semana, com 15 anos eu fui morar no centro da cidade. Fui morar na rua General Osório, bem do lado da ‘rua das putas’, que era na época a Santa Ifigênia, hoje é bem menos, as putas têm lugares diferentes hoje, mas na época era o centro da prostituição em São Paulo, era basicamente o antigo a ‘Boca do Luxo’ que ainda é o centro de prostituição, e também a Santa Ifigênia. Eu morava do lado, no quinto andar de um prédio, junto com minha mãe, e comecei a trabalhar no centro de office boy, comecei a andar pela cidade de office boy e a conhecer, porque quando você vive o mundo atrás da tela do computador no seu escritório, de casa para o trabalho ou do trabalho para casa, você não tem noção do que é sua cidade do que é o mundo. Mas quando você começa a cada dia ir para um lugar diferente, conviver com situações, eu comecei a ver como São Paulo era uma cidade gigantesca, isso em 78, 79, e comecei a gostar de andar em São Paulo.

Eu lembro que quando inaugurou o metrô e depois de um tempo que eu recebi o meu primeiro salário, eu comprei um bilhete e comprei muita pipoca, muita coisa assim, muito refrigerante e entrei no metrô e fiquei indo e voltando sem sair do metrô durante um tempão comendo pipoca e olhando como aquilo era fascinante. Eu sabia que aquilo solucionaria o problema da cidade, ‘que louco velho, a gente ao invés de ir por cima ia por baixo’, tá ligado? Eu fiquei apaixonado pelo metrô. Fascinantemente na história da minha vida mais para frente eu fui descobrir que uma das pessoas que trabalhou no projeto do metrô de São Paulo na Mafersa, é o meu amigo Marcos, de Barueri, com quem depois eu montei uma banda, mas que eu já conhecia do punk rock das antigas.

“O punk não é algo que soa como um grupo formado de pessoas que agem todas do mesmo jeito e pensam do mesmo jeito. Na minha forma de pensar ele é um campo fértil, aonde qualquer ideia que seja criatividade, que seja inovação consistente, já que é contra o rock que estava ficando murcho, o punk é o viagra do rock’n’roll, ela dá um up” – Redson Pozzi

Você sentia que havia dentro do movimento essa busca por algo mais, ou a maioria era mais for fun, que haviam entrado por embalo?

REDSON – Eu acho engraçado porque o punk para cada pessoa soa uma postura. O punk não é algo que soa como um grupo formado de pessoas que agem todas do mesmo jeito e pensam do mesmo jeito. Na minha forma de pensar, ele é um campo fértil, onde qualquer ideia que seja criatividade, que seja inovação consistente, já que é contra o rock que estava ficando murcho, o punk é o viagra do rock’n’roll, ela dá um up. Aí ele é inventivo, ele não é uma coisa que vai copiar. O punk não traz de volta o Elvis Presley, ele tem a sua própria característica.

Então por ser uma explosão cultural, social, uma explosão humana tão intensa e que se espalhou com tanta objetividade e obviedade pelo mundo, para mim é digamos assim, aqueles guerreirinhos que vem de épocas em épocas, ou seja, as pessoas vêm com suas missões na vida e com seus formatos. Então quando vem tudo junto no mesmo lugar surgem os movimentos. Quando vêm os artistas todos dispostos a ir para Paris, para o interior da França, expor os seus quadros na época de mais difícil sobrevivência, ninguém disse para eles “vocês tem que sair das suas casas”, foi um sentimento, um impulso natural e o movimento punk nessa época era desse impulso natural. Então era feito de roqueiros, era feito de pessoas no geral vindas do rock’n’roll. Eram os roqueiros que eram mais politizados, que eram mais ativos e principalmente era feito por pessoas que eram amantes daquela nova pegada de som. Também acho que faz alguma diferença, porque depois com a saída de certas temáticas em foco, como o anarquismo e outras coisas, ou o anti isso, o anti aquilo, criou-se uma certa restrição e o punk passou a obedecer algumas regras restritas de uma fase modista. Que foi essa fase que todo mundo tinha que seguir um padrão. Eu me libertei, felizmente, dessa fase, logo que ela começou. Quando eu vi que ela ia para esse lado, que todo mundo usava preto e branco e a postura era mono, uma mono postura, eu comecei a usar roupa vermelha, camiseta vermelha e dos avessos.

Banda punk 999, formada na Inglaterra em 1976. A partir do período de 1976-1985, a formação de 999 consistia em Nick Cash, Guy Days, Jon Watson e Pablo LaBrittain. Foto: divulgação

Vocês praticamente criaram o punk no Brasil, ele surgiu do nada, mas também ao mesmo tempo surgia nos Estados Unidos e na Inglaterra algo semelhante. Lógico que cada um com suas características. As informações chegavam de lá para vocês simultaneamente, para inspirar, ou vocês faziam e depois falavam, “pô, os caras fazem igual a gente!”?

REDSON – Vamos ser honestos. Realmente o punk brasileiro é fantástico e hoje muito respeitado lá fora por essa autenticidade, por a gente ser um punk local mesmo. Houve bandas na época que, é uma coisa natural que tenha, faziam muito parecidos, copiavam muito certas bandas estrangeiras. Até porque a banda é a vontade das pessoas ali, o cara monta a banda porque ele quer parecer o The Drones, porque ele quer parecer o 999, ele se veste, ele se pinta. Tem uns que querem ser os Ramones e que compram até as guitarras iguais a dos Ramones. Mas o que eu acho que é incrível, o que eu falei anteriormente, eu exemplifico como o seguinte: os vulcões estão aí. Aí o primeiro vulcão entrou em erupção na Inglaterra e já em seguida o segundo nos Estados Unidos. Naturalmente os outros também foram entrando em erupção, mas são cada um em sua área. Então o punk brasileiro é igual nesse sentido do punk finlandês, tem o mesmo sentido do punk Califórnia.

Então o que eu acho que é louco. O que o punk trouxe, ele trouxe um campo fértil em que qualquer cultura brota. Então o que favorece que você faz um punk local, não tem que ser uma cópia da referência inglesa. Nós seguimos o básico, o arroz e feijão, mas a mistura é a gente quem faz. Nós vamos por aqui um pouquinho de punk vatapá, então vamos dar a nossa característica. Isso perpetuou-se até hoje, aonde as bandas cantam em português, mesmo, passamos por uma fase em que se cantava em inglês, mas existe essa expectativa do público de ver música ao vivo, música própria e mais do que isso, hoje todos os canais de cultura do governo que abrangem espaço para bandas musicais tentar ganharem alguma coisa exigem que seja autoral o trabalho. Então está mais do que consumado que nós somos um país de artista em que só falta a gente se enxergar.

Ramones – Foto: divulgação

Ainda sobre as características do punk aqui no Brasil, uma característica negativa dele foi à violência. O surgimento das gangues. Como você vê os motivos que levaram parte do movimento a ir para esse lado?

REDSON – Bom, eu vou te dar um bom exemplo. José da Silva é o reggaeiro. Ele não tem emprego, ele não tem perspectiva de vida. A família dele não tem também perspectiva de vida. Ele é um reggaeiro, entendeu?. Mas o caos chega a um ponto que começam a agredir a família dele verbalmente por eles serem muito pobres. É estarem pedindo para ele se tornar violento. E por quê? Porque o exemplo da cidade dele começa por aí. Então não é o punk que é violento. A cidade de São Paulo é uma cidade que tem um grau de violência incrível, absurdo, e a juventude mais revoltada é mais fácil de ser violenta do que a juventude mais comportada e passiva. Então a gente pode dizer que a violência no punk ela tem dois motivadores. Um deles é o fato de o cidadão ser paulistano e morar e viver nessa cidade em que as vezes a educação e exemplo que ele vê no dia-a-dia é que a violência é a única saída para ele resolver os seus problemas e a outra motivação é que existem algumas necessidades de deuses que os punks também não escaparam 100%. A necessidade de criar posturas anarquistas e focos exagerados, fazem as pessoas terem suas próprias teorias e filosofias prontas aonde elas não aceitam que sejam criticadas, muito menos que sejam contrariadas. Daí os grupos filosóficos, os grupos politizados exagerados, os que são, digamos assim, radicalizados, eles criam problema com qualquer outro grupo que passe pelo caminho, porque também está nesse mesmo grau que está soltando faísca e isso no início do punk era frequente.

“Então não é o punk que é violento. A cidade de São Paulo é uma cidade que tem um grau de violência incrível, absurdo, e a juventude mais revoltada é mais fácil de ser violenta do que a juventude mais comportada e passiva” – Redson Pozzi

O punk no início era formado pelo pessoal mais violento, que tinham suas gangues, e eles brigavam entre si. Pronto. Para eles ser punk era mostrar-se macho, mostrar-se guerreiro. Então era um “Warriors” (filme se gangues dos anos 80), tinha um clima de “Warriors” as noites punks de São Paulo. A gente sabia que dali podia vir gangue, de todo o canto. Mas também como eu falei tinha esse aspecto genial, de traduzir esse sentimento explosivo do “faça você mesmo” para a nossa sonoridade local. Então quando a gente vai para Europa fazer turnê nos últimos anos que a gente vai fazer quarenta shows, trinta shows em uma turnê, a gente ouve mais do que fala. Porque eles falam muito de como a gente conseguiu ter essa característica, ter essa identidade própria. Como a gente em uma época de ditadura, de pobreza, de recessão, sem recurso, sem importação, sem equipamento e sem dinheiro, montou bandas e gravou discos e fez turnês. Como a gente conseguiu manter essa chama viva durante todos esses anos até agora e os países da onde ela surgiu morreu. Então é óbvio que há um mérito dessa nossa atuação.

Arte do filme “The Warriors”, que foi lançado lançado em 1979. No Brasil, o filme ganhou o nome de “Os Selvagens da Noite”. A direção é assinada por Walter Hill. Foto: divulgação.

Na época do começo, final dos anos 70, começo dos 80, quais eram os locais que os punks costumavam frequentar da cidade, se encontrar?

REDSON – Até surgir a Galeria do Rock como um point, a São Bento já era um point de roqueiro, como eu falei no início, onde eu levava meu violãozinho em 75, 76, e os roqueiros sempre se reuniam na São Bento, sábado e domingo, sempre. Aí com o surgimento do punk e das gangues começou o confronto e a luta e disputa de território. Nessa luta e disputa de territórios os punks tomaram a São Bento e os roqueiros tiveram que ir embora para os seus bairros e ficou durante um bom tempo os punks frequentando a São Bento. Eu poderia dizer que uns dois anos, durante 79 e 80, até meio de 81. Porque depois de 81 para 82, eu e o Fabião (Olho Seco), e outras pessoas que eram mais afins de fazer música, de fazer protesto de uma forma cultural e organizada, começou a meter a boca na coisa da violência no show. Então começou a ter uma nova postura punk que foi essa postura que acho que se perpetuou fazendo disco e tudo mais. Que aparece no “Botinada” (documentário) como o que o pessoal chama de “o movimento” e tudo mais. Realmente essa época foi ótima. Foi a época em que se conectou muita gente afim de fazer alguma coisa e começou a acontecer muita coisa.

Região do Largo São Bento, em São Paulo – Foto: divulgação.

Seria uma segunda geração?

REDSON – Seria uma segunda fase de início do movimento. A primeira eu diria que foi de 77 até o fim de 79, meio de 80, onde era mais o ganguismo. Do meio de 80 até 81 começou a ter shows e o ganguismo continuou mais foi acabando. Foi parando, foi diminuindo. Aí de 81 até o fim de 82 foi a glória. No fim de 82 “O Começo do Fim do Mundo” (festival punk) caiu tudo por terra.

Foi o fim do mundo (risos), e você se recorda dos grupos assim que existiam na época? Eram bem divididos em bairros.

REDSON – Foi o fim do mundo. Sim, sim. Eu lembro bastante. Só que muitas gangues, e um percentual grande de gangues violentas. Só que também tinham umas gangues que não eram de tretas.

Que eram só de amigos…

REDSON – Tinha a Punkids da zona Leste, que inclusive era do Ari, que era do 365, era da Punkids. Tinha os Punk Podres, que era o Val do Cólera. Então essas turminhas, eles não eram de treta. Eles eram turminhas que curtiam o mesmo tipo de bandas. Turminhas de timbres que eu chamo no meu livro. Eles curtiam The Drones, aquela pegada de guitarras assim e sons assim. Aí você tinha as gangues como as da Carolina, a gangue SP Punk, tinha a gangue Funeral, aí tinha no ABC os Anjos.

O Começo do Fim do Mundo foi um grande festival punk brasileiro em São Paulo no ano de 1982. Foto: divulgação.

A Funeral é daquela época?

REDSON – A Funeral, se não é do início, é do meio do início.

É que ela tem até hoje.

REDSON – É, tem até hoje. Mas a Funeral também não é só treta. Mas acabou ficando, porque os caras têm uma gangue, tem uma treta pronta do passado, então ele não foge daquela situação de briga. Enfim, uma quantidade enorme. AÍ tinha umas duas, três gangues dos roqueiros. Era a gangue do Machado, que era muito violenta. O nome já diz né. Tinha os Metralhas e tinha mais uma que não estou lembrando agora, mas eu vou lembrar no decorrer da entrevista.

Enfim, era tudo baseado em gangue. Então quem não era de gangue quando aparecia a gangue caia fora. Nem queria saber de história. Então as localidades eram essas e os palcos de brigas eram geralmente os picos de sons. Não tinha também muito show. Começou a ter shows com os punks em 81. Graças ao Alemão Damaqui, que foi o cara que organizou os primeiros shows de punk em São Paulo. Mas até aí tinha som de fita e era uma época que a gente que tinha banda, quando a gente tocava, os caras ficavam gritando para parar o som da banda, porque eles queriam ouvir o som da fita para poder dançar. Porque eles não dançavam o som das bandas no início. Eles só dançavam o som que eles conheciam. Então eles queriam ouvir as fitas.

Vamos falar um pouquinho do Cólera, que foi uma das primeiras bandas que surgiram na época. Como surge a ideia de formar o Cólera? Quais as dificuldades para formar a banda na época?

REDSON – Certo. Uma coisa bizarra é que o Cólera não surgiu como banda punk. A gente falava isso desde o início, que a gente era uma banda de Rock Country. Aonde as músicas você tinha letras surrealistas e as levadas eram todas de country. Então para registrar essa ideia e não perder nós resgatamos vinte músicas do início da banda e fizemos um disco que é o “Primeiros Sintomas”, que mostra como é tudo country e quando a gente começa a tocar nos lugares o som soava como punk. Então a gente começou a ser punk mesmo. Começamos a falar que era punk, depois que eu ouvi o Clash, que já tinha um tempo de banda, que aí eu entendi e comecei a escrever letras realmente com propósito. Porque essas letras que o Cólera tem logo no início que são letras mais claras, que é “Quanto Vale a Liberdade?”, “Subúrbio Geral”, letras que são as letras da fase, digamos, cultural, filosófica, são similares e com uma pegada de letras que eu tinha na minha terceira banda de rock, que não saiu dos ensaios. Mas eu já escrevia letras que de certa forma já falavam de guerras, de pacifismo.

Não eram letras punks e nem tinham o mesmo estilo do punk. Não posso dizer que eu já fazia punk, mas eu já falava de certa forma de temas que me tocavam, o respeito humano, a sociedade injusta, essas coisas, e falavam muito de um mundo melhor. Então se você ver as mensagens do Cólera é a gente falando e questionando o ser humano e o mundo melhor. Daí essas letras vieram à tona e aí a gente começou a se dizer uma banda punk. Daí gravamos imediatamente o (disco) “Grito Suburbano” e a história se fez.

Álbum “Primeiros Sintomas”, do Cólera. O disco foi remasterizado por Arthur Joly, em 2016, da EAEO Records. Foto: reprodução.

Que é um disco punk…

REDSON – É o primeiro disco punk e eu fiz a produção técnica do Cólera e do Olho Seco. Então eu já estava envolvido ali, eu já estava no mundo que eu queria estar. Operando som, mexendo com música e fazendo a minha música e dando a minha mensagem. Então como era aquilo e o espaço era aquele, o punk foi meu campo fértil. Aí se vem uma galera que começa a impor ser isso ou ser aquilo politicamente, já soa uma não liberdade, já começa a por agrotóxico num campo fértil.

“Não eram letras punks e nem tinham o mesmo estilo do punk. Não posso dizer que eu já fazia punk, mas eu já falava de certa forma de temas que me tocavam, o respeito humano, a sociedade injusta, essas coisas, e falavam muito de um mundo melhor. Então se você ver as mensagens do Cólera é a gente falando e questionando o ser humano e o mundo melhor. Daí essas letras vieram à tona e aí a gente começou a se dizer uma banda punk” – Redson Pozzi

Então essa identificação com o punk vem mesmo é nos anos 80?

REDSON – É, e na verdade quando o Cólera surge em 79, mas no final dos anos 70 eu já estava montando um estúdio em casa e durante 81 e 82 eu lancei umas oito fitas K7 pelo meu selo, Estúdios Vermelhos, antes de fazer o “Grito Suburbano”. Para fazer o “Grito Suburbano”, o Fabião (Olho Seco) me chamou porque eu já tinha uma vivência de gravar em casa, entendeu? Já tinha lançado a demo do Ratos de Porão com o Cólera, lancei demo do Anarcólatras, enfim, já tinha uma vivência de estúdio.

Mesmo vocês não se dizendo punks, já tinha um intercâmbio com as bandas punks da época.

REDSON – É então, e eu levava eles em casa no meu mini estúdio para gravar as fitas deles, que ninguém tinha onde gravar.

Quais eram as bandas da época?

REDSON – Tinham bastante bandas legais. A convivência de início tinha os Ratos de Porão, o Psykóse, as bandas do “SUB” comigo né, o Fogo Cruzado, aí tinha o Resíduos. Vou tentar lembrar bandas que nunca foram citadas assim. Que raramente, mas vai ser difícil. Resíduos… Fetos…. e tinha as bandas conhecidas também, tinha o AI-5 que paralelo aos Restos de Nada são as duas primeiras bandas punks brasileiras, nem eles sabem quem surgiu primeiro. Mas eles sabem que foi ali, que se uma foi no início do mês a outra foi no meio, foi tudo muito em cima.

Eram bandas da mesma região, você sabe?

REDSON – Não, o AI-5 era do ABC e o Restos de Nada da zona Leste. O Restos de Nada, na verdade é assim, é do Ariel né, aí fizeram os Restos de Nada, a primeira banda da Carolina (Vila Carolina), daí depois fizeram o NAI, Nós Acorrentados no Inferno, que foi a banda com o Indião, o Helinho no baixo e o Calegari na guitarra,  que durou dois shows…

Aí foi todo mundo para o inferno e acabou (risos)…

REDSON – Ah não! O NAI durou foi um show, é verdade. O Condutores (de Cadáveres) que foi mais shows. Porque quando eles tiraram o Helinho do NAI que eu conheci ele e montei o Cólera. Foi na São Bento.

E o Clemente entrou no lugar dele da banda…

REDSON – Foi, exatamente! O Clemente zoa ele até hoje. É que quando a gente é moleque você ainda é o emocional, você guarda birrinha. Então os caras ficaram brigados um tempo. O Helinho é um moleque genial, mas ele tem problema de tempo, de andamento, eu acho que tiraram ele da banda por isso… E o Clemente era mais ativo dentro do movimento deles lá. Acho que na gangue da Carolina o Clemente era meio que um dos caras fortes. Então ele tinha uma certa frente para ficar no palco e enfrentar como guerreiro, digamos o palco eram as cruzadas, era tipo o Esparta. O Clemente tinha mais jeito, o Helinho era novinho, tinha só 15 anos.

No livro do Bivar, “O Que É Punk”, ele fala bem que a idade do pessoal ia dos 13 aos 20.

REDSON – A galera que frequentava ali a São Bento, a faixa etária variava de 14 até 19. Punk soava de certa forma meio como o emo. Coisa de molecadinha. Entendeu? Soava dessa forma. Roqueiro era mais antigo, o cara era mais velho, era roqueiro. Cara velho não podia ser punk, porque ele já vinha sendo roqueiro.

Tipo o Fabião?

REDSON – É, o Fabião era roqueiro. O Fabião conseguiu ser punk mas ele tinha assim, uma postura de roqueiro total. Mas era dos roqueiros que curtiam o que: T-Rex, Status Quo, essas bandas que já eram pré-punks, que já eram um protótipo de punks.

“Eu acho que sim. Às vezes a necessidade faz a atividade. Talvez se a gente não tivesse… mas tinha a coisa da vontade, a gente queria tanto e era tão difícil que aí então a gente encarou o desafio. ‘Nós vamos fazer o que for preciso para ter’. É um custe o que custar e aí a gente fez e deu certo e não era uma coisa declarada ou combinada, era um sentimento que estava no ar. Que não é só eu, não é uma coisa que foi eu que fiz ou só o Clemente, era um grupo enorme de adolescentes dando um jeito de comprar os seus instrumentos, dando um jeito de montar suas bandas e dando um jeito de fazer show” – Redson Pozzi

Cólera em ação – Foto: divulgação

Como você definiria o que é o “Faça Você Mesmo”? Que é essa máxima do punk.

REDSON – É, eu acho que isso é uma coisa impressionante de sobrevivência humana, acho que todo mundo tinha que ter. Senão deixasse viver no “faça você mesmo”, ser educado a tal. O “faça você mesmo” é quando você se vê numa situação de necessitado, de precisar. No caso, quando eu tinha 12 anos, eu queria muito montar uma banda, não tinha nem a mínima noção de onde arranjaria dinheiro, porque eu morava no Capão Redondo, uma zona rural na época, e eu não tinha como ter instrumento. Aí eu fui e fiz o meu próprio instrumento. Então é a mesma coisa de você ter uma banda, a sua banda é legal, você já ta aí com CD, e ninguém chama você para fazer show. Tudo bem, eu mesmo vou organizar meu próprio show e o “faça você mesmo” ele já vem muito de quem tem uma projeção, uma ideia forte de realização, que você acredita no seu taco.

Então você fala, ‘se eu fizer, eu sei que fica bom’, e às vezes você não dá para outro fazer pelo grau de importância e responsabilidade que você sabe que na sua mão funciona. Então é aquela coisa de você ter um, digamos assim, um navio e não dar na mão de qualquer capitão, você quer ser sempre o capitão. É o “faça você mesmo”, você mesmo pilota a sua vida.

Faça você mesmo porque se ficar esperando nada acontece.

REDSON – Ainda mais no Brasil, na arte, na cultura nos anos 80, vai esperar o que? Que o Geisel mandasse umas guitarras Fender com amplificadores para nós? Dizendo, ‘ah! Nós temos punks no Brasil!’

Você acha que foi a conjuntura que acabou ajudando para que vocês tivessem que ‘botar a mão na massa’? Uma conjuntura desfavorável.

REDSON – Eu acho que sim. Às vezes a necessidade faz a atividade. Talvez se a gente não tivesse… mas tinha a coisa da vontade, a gente queria tanto e era tão difícil que aí então a gente encarou o desafio. ‘Nós vamos fazer o que for preciso para ter’. É um custe o que custar e aí a gente fez e deu certo e não era uma coisa declarada ou combinada, era um sentimento que estava no ar. Que não é só eu, não é uma coisa que foi eu que fiz ou só o Clemente, era um grupo enorme de adolescentes dando um jeito de comprar os seus instrumentos, dando um jeito de montar suas bandas e dando um jeito de fazer show.

E quais eram as formas que você lembra que utilizavam na época para fazer o movimento ir adiante, fazer a roda girar?

REDSON – Ah! o fanzine foi a ferramenta mais forte assim descoberta. Não era nem tanto ficar falando no palco. Era o fanzine, todo mundo queria fanzine. Era o meio de comunicação que traduzia o que estava acontecendo e principalmente se você queria reportar os fatos do que estava acontecendo, você colocava no fanzine. Primeiro porque se colocar na roda dava treta, e no fanzine não dava.

No início o fanzine tinha uma neutralidade, por se permitir também dentro daquilo um instrumento de crítica daquilo. Não importa quem estava escrevendo, a gente não ia atrás. Agora se você falasse aquela crítica já era pessoal. Então o fanzine dava essa neutralidade e podia reportar tudo o que acontecia e facilitava você de saber o que estava acontecendo, como foram certos shows. O fanzine que eu fiz mesmo, falava de certos shows, narrava, ‘oh, o show foi assim, o show foi assado, tal banda tocou assim, tal banda tocou assado’. Além do que criticava as tretas na São Bento.

Era algo que a gente tinha um certo orgulho de fazer, e o tanto que se conseguia. Aí tinha treta na São Bento, quebrava e dava problema, quebra quebra de show, aí eu metia a boca, pegava meu fanzine e descia o cassete.

Fanzine SP Punk nº 2 (1982) – Fonte: blog Vontade & Luta (http://vontadeluta.blogspot.com/)

Então a principal forma era através dos fanzines e lógico através das musicas.

REDSON – É, a música é o instrumento mágico, ela une as pessoas, transporta as ideias e as sensações, mas digamos assim, até sair o “Grito Suburbano”, não, eu diria até um pouco antes, até o meio de 81, ninguém prestava atenção no que você estava dizendo. Primeiro que não dava porque o som era uma bosta, você não entendia nada mesmo, e segundo porque o foco total da galera estava nas bandas gringas. No que vinha de fora. Porque já era um costume a banda da gringa ser importante e a de dentro não ser, desde o rock, não só do punk, do rock já era assim.

E na época que você tinha banda, como você conseguiu os instrumentos para tocar? Devia ser uma baita dificuldade, se hoje em dia ainda que mais barato, é caro para conseguir, imagina naquela época.

REDSON – Era um absurdo. Eu lembro que com 14 anos para 15, eu mudei para cidade, para o centro, e comprei minha primeira guitarra no Mappin, em 24 prestações. Eu comprei uma Giannini no Mappin em 24 prestações! Aí para montar a minha quarta banda eu já estava com minha guitarra própria e quando eu montei o Cólera que eu conheci o Helinho ele estava com um baixo. Ele tinha um baixo que eu queria tocar, que era o baixo Giannini Strato e eu tinha a guitarra que ele queria tocar, que era a guitarra Giannini Strato. Então eu falei ‘pô, vamos montar uma banda, porque eu quero tocar o baixo, você tem o baixo, e você quer tocar guitarra e eu tenho guitarra’. Aí montamos a banda. Mas eu comprei essa guitarra e depois com muito custo eu comprei um pedal Sound, que era um pedal muito bom da época. Eu paguei dois anos a guitarra primeiro, depois eu consegui comprar o pedal e comprei uma caixinha Giannini que vendia na Casper Líbero, tinham umas três, quatro lojas que vendiam essas coisas mais barato. Caixinha bag Giannini de 40 watts.

De segunda mão?

REDSON – Não, nova. Mas eles tinham os preços melhores, e aí a gente se avisava. Muita gente comprou, eu lembro que muito roqueiro que tinha vontade de tocar na época comprou e eu na verdade comprei uma que foi nessa época, depois com o Cólera que eu fui montar o estúdio, eu juntei dinheiro e comprei mais duas, eu cheguei a ter três caixas bag Giannini, de tão barato que era.

Então eu comprei minha caixa Giannini lá e quando eu conheci o Helinho, uma semana eu comprei essa caixa Giannini. Eu ia ensaiar na casa dele, na Vila Carolina. Eu levava minhas coisas, passava o som com ele, aí não estava dando para ensaiar, porque não tinha batera, aí continuamos ensaiando no meu apartamento.

Sem batera…

REDSON – Sem batera. O Pierre foi ter batera, acho que no meio de 81. Não, no início de 81. Não, janeiro de 80, quando eu comprei uma Saema, que os caras tinham usado de canoa para brincar no mar. Eles entravam dentro do bumbo, do surdo e ficavam empurrando no mar. Aí a batera já estava zoada, a gente tinha visto no porão da casa de um amigo, largada. Então nós compramos pelo que nós podíamos pagar que era uma merreca assim. A gente comprou uma bateria Saema velha, toda zoada, torta da água. Aí a gente foi reformando ela, e o Pierre que gosta dessa coisa de mecânica foi fazendo formas de sustentar pedestais e começou a ter vários tom-tons e em pouco tempo a gente tinha uma bateria legal.

É que os outros instrumentos eram mais difíceis você fazer. Saía mais caro você fazer um do que acabar comprando.

REDSON – É, mais a gente achava recurso por sorte em lugares assim saca. Botijão de gás na frente do bumbo sabe essas coisas? A gente achava os recursos. A gente era bem criativo. O ensaio para dar certo a gente fazia qualquer coisa. Eu lembro que a gente só tinha um pedestal, aí o Kino entrou na banda e não tinha outro pedestal. A gente pegou o cabo de vassoura, fez uma armação embaixo, dava um jeito. Continuava no “faça você mesmo”.

Aliás, uma coisa do “faça você mesmo”, é que ela é muito típica brasileira. Se você vai para os Estados Unidos e você trabalha de consertador de toldo, ou você conserta qualquer coisa, não tem essas mãos-de-obra, entendeu? O toldo quebrou, joga fora e compra um novo. Então esse jeitinho brasileiro de dar um jeito nas coisas, é de certa forma já um costume de “faça você mesmo”. Por isso que aqui dá certo de norte a sul.

Com relação ao fanzine, como você fazia? Tinha que distribuir. Como você conseguia imprimir?

Vix Punk, o fanzine editado pelo Redson – Foto: reprodução

REDSON – A gente pagava xérox (cópia). Não tinha muita gente e a distribuição não era gratuita. Era vendido. Mas era vendido baratinho e todo mundo queria ter. Era a Playboy do punk, era imperdível. Então a gente fazia xerox e vendia, fazia mais, vendia. Eu lembro que o Vix Punk tinha 33 centímetros. Dava uma cara diferente entendeu, era um papel sulfite comprido, dava uma outra estética também. Já era uma pré Vougue né (risos) e dessa forma eu tirei o que, eu lembro que tirei umas 30 cópias na primeira tiragem e vendeu rapidinho assim. Aí na segunda fiz 50, eu devo ter vendido uma 300 cópias assim. É uma ótima tiragem para um fanzine de punk na época que se tinha mil punks em São Paulo era muito.

E você fazia sozinho? Você escrevia em máquina de escrever?

REDSON – Fazia sozinho. Xerocava sozinho, pegava meu dinheiro do bolso. É, eu trabalhava com meu pai na imobiliária, então ele tinha máquina de escrever e tinha uma máquina elétrica, aquelas de esferas da IBM. Então, alguns pedaços, por exemplo, alguns cabeçalhos eu fazia com a IBM, entendeu, que é para usar pouco. Eu pedia para usar a IBM no escritório, ‘posso escrever 5 palavras na IBM?’. No início meu tio que era sócio do meu pai não deixava eu escrever, ele escrevia, ‘fala o que você quer que eu escrevo’, com medo porque aquilo era caro para cacete. Aí, eu fazia no escritório tudo, fazia as montagens manuais, colava as fotos, enfim…

Recortava as revistas e colava?

REDSON – É, eu fiz a capa e encarte do “SUB” no escritório da mobiliária do meu pai. Fazia ali, porque eu trabalhava ali, ficava o dia inteiro, nas horas livres aproveitava os recursos que ele tinha.

Para ensaiar na época, onde vocês ensaiavam e como?

REDSON – Eu montei os ‘Estúdios Vermelhos’, que era no meu quarto. Na casa que eu morava no Capão Redondo. Meu quarto ficava nos fundos, um quartinho separado e ali eu dormia e ensaiava. Os “Estúdios Vermelhos” durou de janeiro de 80 até 1997.

E era com bateria, não com o sofá…

REDSON – Os “Estúdios Vermelhos” não, era nosso espaço de ensaio. Não, não. A bateria não era com o sofá (risos), isso foi só no início. Era bateria de verdade. Então tá certo, foi em janeiro de 80 que a gente comprou a bateria. Porque nos três primeiros meses, outubro, novembro e dezembro, era com o sofá. Aí quando a gente fez o show, já aparecia a bateria e aí a gente começou já em janeiro, e foi melhorando, eu lembro que nós tivemos um puta equipamento até 83, depois fomos roubados no show, que a gente levou o equipamento para dar certo um show em Santos e roubaram nosso equipamento. Tivemos que fazer tudo de novo e a gente começou a fazer isso manualmente. Eu peguei esquema de caixa acústica na Novic, para guitarra e para baixo, e para voz compramos a madeira compensado de quinze, cerramos, fizemos tudo a gente e cada mês eu pegava um salário, comprava um falante, ou comprava metade do falante.

E compensava mais do que comprar pronto?

REDSON – Compensava. Na época não tinha nem opção muito para comprar pronto. As caixas de guitarra e de voz, fiz tudo. Aí você tem aquela capa do Cólera e Ratos ao vivo no Lira, que até foi relançada e ali tem o equipamento dos “Estúdios Vermelhos”, feito por nós. Esse equipamento era poderoso, eu só me desfiz dele porque chegou o limite de cupim, não tinha mais aonde por, tá ligado?, e o meu barbeiro queria comprar, porque ele queria, disse ‘aqui eu trato, cuido, passo querosene’, aí ele comprou. Eu não tinha onde tocar também, meu pai ia mudar de casa.

Mas iam outras bandas ensaiar lá? Vocês cobravam para ensaiar?

REDSON – Não, não. Na verdade não era um estúdio de ensaio como a gente tem hoje assim modelo. Nós tínhamos os estúdios (vermelhos) nosso, que com o movimento a gente deu espaço para muita banda ir lá ensaiar e até gravar. O Olho Seco começou ensaiando e continuou ensaiando até 84 nos Estúdios Vermelhos e um monte de banda. Depois ficou só do Cólera, porque a gente acabou não tendo mais aquela coisa de movimento em 86, já era uma coisa que também começou a dar problema com meu pai. Os punks chegavam lá com cinto arrebitado e encostavam no carro, iam mais de 15, 20 punks na minha casa, riscavam o carro do meu pai, pegavam o sabonete para fazerem os moicanos. Então começou a dar problema e meu pai falou ‘então só vocês ensaiam’, aí ficou só o Cólera.

Você chegou a ter um selo na época?

REDSON – Sim, o Ataque Frontal. Eu tive três selos. Os “Estúdios Vermelhos”, que lançou o “SUB” e vários outros K7s como já falei, a “Ataque Frontal” que eu montei com o Renato Filho, e por último a Indie Records, que eu dei o nome para famosa Indie Records que você conhece hoje.

Fala um pouquinho mais desse processo de criação de um selo. Existiam já selos independentes no Brasil, ou surgiu com o punk? E como era para montar um selo na época?

REDSON – É, então, não existia, o punk trouxe essa postura de música independente ativa. Banda que lança, a banda que corra atrás. É, a gente tinha que fazer um caixa para gravar no estúdio. A gente entrava no estúdio com dinheiro para gravar 30 horas, para gravar um disco inteiro e mixar. Então era uma correria doida, tudo de qualquer jeito de certa forma. Não era muito bem planejado e não tinha grana para fazer planejamento também. Aí a gente prensava o disco na prensa e saía.

O que fez a Ataque Frontal acontecer é que o primeiro disco do Cólera, o “Tente Mudar o Amanhã”, que foi o primeiro lançamento da Ataque Frontal, eu já tinha feito o “SUB” sozinho e já tinha sido um sucesso. Então eu tinha uma parte do resultado do “SUB” e juntei com outra parte do Renato o dinheiro e lançamos o Cólera “Tente Mudar o Amanhã”, com uma produção um pouquinho melhor, com um pouco mais tempo de estúdio, gravamos músicas a mais do Cólera em estúdio para ir para coletâneas internacionais exclusivamente. Nós gravamos trinta músicas, vinte e quatro foram para o “Tente Mudar o Amanhã” e outras seis foram para coletâneas, tanto que as quatro do “Dê o Fora” são exclusivas, gravadas na mesma vez, e quando saiu o “Tente Mudar o Amanhã” ele vendeu muito rápido, vendeu muito bem, foi muito boa a venda, então a gente lançou ele e o show de lançamento já foi um disco, o show de lançamento também valeu um disco que também já vendeu bem e aí gerou o “Pela Paz em Todo o Mundo” que é o sucesso da gravadora. Então a gente teve uma história de sucesso no início, deu tudo certo, nossos projetos foram bons, vingaram e foram se multiplicando.

Porque é difícil na época os punks comprarem os discos das bandas brasileiras…

REDSON – Eu acho que não. Acho que tinha aquela coisa de coleção, de ter o material do grupo, de ter o material desse grupo social e os punks queriam ter os discos, queriam ter as camisetas, as fitas K7s, os zines. Mas o que aconteceu com o Cólera, a gente já tinha uma veia de rock’n’roll, uma veia de banda de rock paulera, e a gente não queria perder isso e também não queria perder o punk, mas o punk vivia sempre em estado de treta.

Depois do “Começo do Fim do Mundo”, do fim de 82, e que todo aquele glamour que estava indo bem, de espontaneidade, de explosão criativa foram totalmente dizimados, 83 e 84 eram só violência. Não haviam eventos, não haviam coisas legais em São Paulo, era só violência. Então a gente começou a tocar mais para fora. Fomos para o Rio (de Janeiro), fizemos show de lançamento do “SUB” no Circo Voador, com bandas de São Paulo e de lá. Enfim, Bahia, e quando a gente se depara com a coisa punk, a gente fala ‘pô, a gente quer fazer um som que seja punk, mas também um som que seja do nosso jeito’, e é aí que a gente fez o “Pela Paz”. O “Pela Paz” nos conectou além do público punk com todo o público de rock alternativo do Brasil e aí nos permitiu fazer uma turnê de norte a sul do país, com essa postura sonora que era mais realmente ampla, que não era tão restrita ao punk rock.

E para divulgar o disco, o selo conseguia espaço?

REDSON – A gente tinha alguns apoiadores. Um dos grandes apoiadores fantásticos da história do Cólera e da Ataque Frontal foi o Maurício Kubrusly, ele trabalhava na revista “Som 3” e ele sempre dava uma força para ajudar a divulgar o que a gente estava lançando, o que a gente estava preparando. Então a gente tinha os canais de espaços, tinham o que, três revistas de rock, tinha “Roll”, tinha a “Som 3” que era uma revista voltada para área técnica de som de Hi Fi, então todo o universo de áudio, e a “Pop”. A “Pop” durou pouco tempo.

Mas quem trazia mais informação de fora para vocês era a “Pop”, né?

REDSON – É, mas ela durou pouco tempo, acho que foi só até 83, 84. Mas com a Ataque Frontal a gente começou a por as bandas que a gente já tinha, o Cólera, o Cães Vadius, Varsóvia em alguns canais bem legais de divulgação e a 89 FM vinha junto com a rádio de rock Santo André, duas rádios rock independentes tocando. A gente tinha material e eles tinham o espaço da rádio. Então a gente começou a ter essa possibilidade de difundir nosso som e o Cólera em 86 tocava o dia inteiro na programação. A gente tinha dois potenciais, aí começou a surgir rádio de rock em Salvador, em Porto Alegre, a gente ia tocar e tinha a Estação Primeira em Curitiba, então tem toda uma seqüência de atividades alternativas aí de mídia.

Revista POP, publicada no período da década 1970. Foto: reprodução

Você lembra de algum outro selo que tem na época ou vocês foram o único no Brasil?

REDSON – Não, não fomos o único não. Nós não fomos nem o primeiro. O primeiro selo foi o do Fabião, “Punk Rock Discos”, que lançou o “Grito Suburnano”. Depois vem o meu como segundo, o “SUB” que é dos “Estúdios Vermelhos”, que já era ativo como selo de fita K7. Aí com a Ataque Frontal eu criei o terceiro selo. Porque logo em seguida o Luiz, da “Baratos e Afins”, começou a lançar, ele lançou Ratos de Porão, começou a lançar outras coisas e também entrou como selo independente nesse sentido. O “Baratos e Afins” não… acho que está entre um dos primeiros, porque eles já lançavam bandas de rock também.

Então a gente está entre uma das primeiras. Só que a gente era uma gravadora que eu queria ser mais organizada, mais profissional. Não era só um selo de fundo de quintal, de quarto de rock’n’roll. A gente tinha um escritório, tinha toda uma postura já mais profissionalizada. Então a ideia era pegar as bandas, produzir elas, lançar, ter um produtor, fazer uma coisa como gravadora mesmo.

Sobre shows da época, você chegou a armar algum show? E como era para arrumar o lugar para tocar?

REDSON – Sim, eu armei show o tempo todo. Então, eu metia a cara em risco. Chegava lá, alugava o lugar, assinava os papéis.

Então tinha que alugar o lugar? Cobrava entrada? Todo equipamento vocês tinham que levar?

REDSON – Tinha que alugar o lugar, às vezes dar metade adiantado na hora que alugava, ou seja, eu ia as vezes lá no lugar, quanto que é? Como funciona?, aí ficava em seis meses juntando o dinheiro para poder fazer o show. Então eu organizava, chamava as bandas. Cobrava entrada, tinha o pessoal que ajudava. E às vezes a gente levava de ônibus. Fazia três viagens do Capão Redondo para o centro da cidade para levar o resto do equipamento. Com mesa de som e tudo.

“Então a gente alugava esses lugares, ou bares e casas de show que sempre rolava shows. Era caro demais, em dinheiro de hoje era em torno de mil, mil e quinhentos reais. Cara, eu só me fudia” – Redson Pozzi

E vocês tocavam muito em escola, colégio?

REDSON – Não, não tocava muito em escola não. Geralmente era galpão de espaço para show. Tipo, quadra de sociedade de amigos de bairro, que tem lá espaço meio teatro com palco, que não tem cadeira, mas tem o palco. O Luso mesmo, que rolou os festivais, era a Sociedade Portuguesa, o clube de portugueses ali. Atrás do pico que era um espaço aberto, ao ar livre, era o espaço deles jogarem bola. Tinha uma quadra. Então a gente alugava esses lugares, ou bares e casas de show que sempre rolava shows. Era caro demais, em dinheiro de hoje era em torno de mil, mil e quinhentos reais. Cara, eu só me fudia.

Mas a grana da entrada era suficiente para pagar?

REDSON – Não, não era. Raramente. Eu só fiz. Um dos shows que o Fabião e eu fizemos. O Fabião foi o produtor principal, mas eu trabalhei ali como coprodutor, foi o lançamento do “Grito Suburbano”. Esse se pagou e deu sobra. Eu lembro que o Fabião assim, ele pegou o dinheiro do fim do show, o que sobrou ele deu exatamente um terço para cada banda, nem para nós que produzimos ficou. Pagou os cartazes, pagou tudo. Mas muito show que a gente fazia só se fudia.

Eu fiz um show no “Carbono 14” que vingou bem. Foi o show de pré-lançamento do “Tente Mudar o Amanhã”, mas isso já foi em 83. Foi quando a gente tinha o set list do “Tente Mudar o Amanhã”, no finzinho de 83, e a gente fez o show de pré-lançamento. A gente tinha umas quinze músicas prontas do disco já.

Enfim, tinha esse processo de eu correr também atrás e fazer. Eu também organizava. Eu parei de organizar show, assim, nesse sentido em 84 mais ou menos, quando teve essa nossa… a gente não saiu do punk, mas a gente tomou também a nossa postura de direito. A gente quer ser punk, mas também quer ser punk assim e aí passamos a fazer sempre do nosso jeito Punk Rock. Aí você tem discos como o “Verde, Não Devaste”, o “Mundo Mecânico” que é um disco que foge de todos os padrões.

Mas também poucas bandas sobreviveram depois de 84, e as que sobreviveram mudaram muito.

REDSON – É, isso nos ajudou a sobreviver. Fazer um disco como o “Pela Paz”, ir para Europa, fazer as coisas que a gente queria. Isso nos deu asas próprias e ninguém falava coisa que a gente parasse. Só paramos de tocar mesmo em São Paulo por causa das tretas absurdas mesmo em nossos shows, mas fora isso a gente foi totalmente autônomo em agir.

Redson – Foto: divulgação

Tem mais alguma coisa que você lembre do “faça você mesmo”, que vocês acabavam fazendo para tocar o movimento?

REDSON – É, então, tinha um certo amor aquela ideia de ter aquele ambiente. Todo mundo ‘né, que demais’, todo mundo queria muito que o punk desse certo. Mesmo quem era de treta tinha e até hoje quem curte ainda, mantêm essa chama, esse tesão pelo punk rock. Então a gente se expunha a quase tudo. Essa coisa de alugar os lugares caros, de carregar equipamento em ônibus, e a gente se sacrificava sem chorar para ver acontecer, pela paixão pelo negócio.

Então, uma das coisas que eu lembro, a gente foi tocar em Santana em um festival bem no início, no Carnaval de 80, em um evento que era como “despreze esse Carnaval, passe esse Carnaval em branco e venha curtir rock com a gente”. Enfim, dando um outro sentido ao Carnaval e aí tinha Cólera, Condutores (de Cadáveres), a banda Vermes que era de rock’n’roll, muito boa essa banda e eu não lembro todas as bandas, acho que tinha o Restos de Nada também, enfim, tinham algumas bandas. A gente tocou e depois eu peguei esse lugar meio que para gerenciar e organizei mais alguns shows ali e eu lembro que um show que eu fiz, o primeiro, eu não tinha equipamento, eu não tinha infra-estrutura ainda. Meu estúdio no Capão Redondo tinha um baixo Giannini, eu devia ter uma caixa de baixo que eu fiz de tábua, que eu colei as tábuas numa madeira, e fiz um caixote tosco para poder pregar os falantes e eles ficarem em pé, só isso, não tinha acústica nenhuma e eu não tinha como levar essas coisas, só o baixo Giannini e não dava para fazer um show e aí um cara que era punk do bairro ali, me levou até a casa dele e quando ele abriu a garagem ele tinha as caixas já de P.A., ele tinha as caixas de retorno, e ele tinha todo o equipamento que precisava. Ele tinha tudo em casa, tá ligado? Ele só não tinha os amplificadores e a bateria. A bateria ele estava para comprar.

O Antônio, eu nunca esqueço desse cara. Esse e o Mac são os caras que eu sempre cito em entrevistas que são os caras que sempre foram muito positivos assim e aí a gente levou tudo a pé na galera, em umas dez pessoas. Porque da casa dele até a gruta, era uma caminhada de uns seis quarteirões mais ou menos. Esse é o “faça você mesmo” que gerou um puta show, eu lembro que a divulgação do show era um boneco do MAD no cartaz assim: “Som Bravo, Punk”, bem louco, foi o cara da casa que fez a divulgação.

Arte por Wendell Araújo

OBSERVAÇÕES FINAIS

Caio Uehbe, da Rota 54

Caio Uehbe é geógrafo e pedagogo pela Universidade de São Paulo e vocalista e guitarrista da banda Rota 54 (conheça a banda clicando AQUI). O Nada Pop agradece MUITO ao Caio pela vontade de tornar pública essa conversa com o Redson e por nos dar a honra de publicá-la. Como foi possível perceber, um cara que fazia o punk rock por amor e ideologia. “Esse grito não será em vão!”.

Para se aprofundar nessa história contada pelo Redson, sobre os primórdios do punk no Brasil, deixamos alguns links para conhecimento. Não deixe de seguir o Nada Pop nas redes sociais e participe do nosso grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/gruponadapop/.

Bandcamp – Cólera
https://c-o-l-e-r-a.bandcamp.com/

UOL – O que ficou do movimento punk brasileiro
https://bit.ly/36mifXX

Não Engavetem os Zines
https://bit.ly/2WLgD5L

Arquivo KZG – Entrevista do Redson ao Botinada
https://bit.ly/32a52xO

Documentário “Redson Nos Tempos do Cólera”
https://bit.ly/33drYO4

Que Esse Grito Não Seja em Vão! Tributo ao Cólera
https://bit.ly/2Na6LiM

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Sobre o autor

Redação Nada Pop

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