quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Nada Pop

10 músicas para entender um pouco do processo político, social e cultural do Brasil contemporâneo

1. I SHOT CYRUS – “Condenados ao American Dream”

O grupo de hardcore I Shot Cyrus marcou a cena. Seu discurso radical é notável na música “Condenados ao American Dream”, onde tecem críticas ao sistema imperialista de neo-colonização dos países da América Latina e sobretudo suas políticas neoliberais e ultra-exploratórias.

“Política genocida, exploratória, reacionária. Envenena nações, tirana, sangrenta e corrupta. Instalar a dominação totalitária de direita é o compromisso Norte Americano no terceiro mundo.”

Nesse momento tão ácido das políticas internacionais, esse som vem como um tiro certeiro! O som é a 13ª track que faz parte do álbum “Tiranus”, lançado em 2003. Ouça o álbum completo clicando AQUI.

2. TEU PAI JÁ SABE? – “Punk Rock também é pra veado”

Os paranaenses do Teu Pai Já Sabe? são pioneiros no QueerPunk! Em um dos países com os maiores índices de violência contra pessoas LGBTs, os punks já deram a letra! Punk Rock também é pra veado. De acordo com a ONG ‘Grupo Gay da Bahia’, a cada 20 horas, uma pessoa LGBT é morta no Brasil, apenas por ser LGBT. Esses dados servem para revelar a brutalidade e todo o preconceito estruturante que perpetua a nossa estrutura social.

Punk rock também é pra veado é a última faixa do álbum ‘Agora sabe’, de 2013. Clique AQUI para ouvir o álbum completo.

3. DEAD FISH – “Sangue nas mãos”

Que esse último álbum do Dead Fish é pedrada, a gente sabe! Inteiramente incisivo, das letras à sonoridade, ‘Ponto Cego’ é indispensável para o entendimento do Brasil contemporâneo. A faixa escolhida aqui, “Sangue nas Mãos”, é, senão, uma síntese das mais lúcidas do movimento que se iniciou em 2013 e em 2018 levou um protofascista ao poder.

Em meio a tanta fake news e barbárie, uma única coisa podemos afirmar:

“O lado certo na história não tem sangue nas mãos”.

Sangue nas mãos é a segunda faixa do álbum Ponto Cego, lançado nesse ano de 2019. A música, bem como todo o álbum, está disponível em diversas plataformas digitais, como Youtube, Deezer e Spotify.

4. CÓLERA – “Verde”

“O homem não pensa muito na hora de explorar” já diz muito respeito ao momento atual. Redson já cantava o futuro há mais de 30 anos atrás e, talvez, seja por isso que a sua figura foi uma das maiores do movimento punk brasileiro. Da transposição do São Francisco à Mariana – MG, das queimadas da Amazônia e exploração do agronegócio ao petróleo no litoral brasileiro, “[…] só pensam em lucrar, mas isso é roubar”.

Talvez, mas só talvez, esse não seja o melhor momento para termos consciência ambiental. Os problemas causados pelo sistema adoecem todo esse lugar cheio de células vivas – e mortas – que chamamos de corpo, que chamamos de vida.

‘Verde’ é a faixa 8 do álbum ‘Verde, não devaste!’, lançado em 1989. O álbum foi remasterizado em 2016, pela EAEO Records. Ouça AQUI.

5. FORFUN – “O baile não vai morrer”

Você deve ter chego até aqui, na metade da matéria, e estar se perguntando o que esse som tá fazendo aqui? O álbum que encerrou as atividades dos cariocas do Forfun – em meio a conturbações políticas, sobretudo – é muito atual e precisa ser ouvido – e falado.

O DJ Rennan da Penha, que não tem nada a ver com o Forfun, é o que me trouxe até aqui pra falar dessa música. Preso desde abril, o idealizador do ‘Baile da Penha’ foi condenado a mais de seis anos de prisão em regime fechado. A criminalização de Rennan, é, sobretudo, a criminalização do movimento Funk.

E, apesar da ironia dos personagens, cantava Rodrigo Costa:

“Mas eles marginalizam, eles generalizam, eles polemizam tudo que é do funk. Eles banalizam e até ojerizam, assim sinalizam que há por trás quem banque”.

O som ‘O baile não vai morrer’ – bem como o álbum ‘NU’, apesar de carregar o peso do término da banda e a sinalização de uma ruptura política entre os membros – é extremamente atual e paira sob os ouvidos de quem ouve: a quem serve o estado brasileiro e a quem serve a criminalização de culturas, corpos, raças e escolhas?

A música é a faixa de abertura do álbum NU, lançado em 2014. A banda encerrou suas atividades em 2015. A música está disponível em diversas plataformas de streaming. AQUI você poderá ouvir o álbum.

6. SURRA – “Caso isolado”

Esse som é uma das 17 pedradas do álbum ‘Escorrendo pelo ralo’, lançado em 2017 pelos punks da baixada santista. Pra bom entendedor, meia palavra basta mesmo. Rápido e pesado, com 59 segundos de música a mensagem foi dada.

“Boa sorte é o caralho. A burguesia é o inimigo. Chamam isso de justiça. Mais um caso isolado? Não é um caso isolado”.

Disponível em várias plataformas, você pode conferir esse som, bem como o álbum completo AQUI ou no Bandcamp da banda.

7. ESKRÖTA – “Eticamente questionável” 

Esse powertrio de ruídos antifascistas e feministas vem tomando a cena por onde passa. De um crossover de thrash, punk e death metal, a banda já deu ao letra no som que é última faixa do EP intitulado com o mesmo nome.

O som é rude e radical e só por isso merece emergir ainda mais na cena e nos ouvidos de quem está disposto a aguentar a força dessas mulheres.

“Cura gay não cura nada, adoece quem tá bem. Debaixo de uma bata a putaria lhe convém, hipocrisia soberana chama perversão satânica. Eticamente questionável”

Disponível nas plataformas de streaming, o EP ‘Eticamente questionável’ conta com 6 faixas que merecem ser ouvidas e apreciadas. Ouça AQUI e APOIE AS MULHERES DA CENA!

8. COMSEQUÊNCIA – “29 de abril de 2015”

Os paranaenses pé vermelhos da banda COMSEQUÊNCIA retrataram – e de forma muito lúcida – nesse som a luta diária dos professores, e em especial os professores do estado do Paraná, que no ano de 2015 foram brutalmente atacados pela Polícia Militar, a mando do governador Beto Richa.

Trazendo consigo uma mensagem consciente sobre esse processo tão lascivo, esse é um daqueles sons que não pode sair da sua playlist. Ouça (e muito) o álbum “Por Um Ideal, Por Paz, Por Amor”.

9. POINT OF NO RETURN – “Casa de caboclo”

A banda Point Of No Return foi uma das pioneiras no cenário do hardcore nacional. A música ‘Casa de Caboclo’, lançada em 2000, é a faixa de abertura do álbum ‘Centelha’. Apesar de ser cantada em inglês – uma marca da banda -, o som carrega consigo uma visão da sociedade brasileira contemporânea que diz respeito à violência policial e do estado e também questiona os preceitos de liberdade.

“A violência é sempre uma ferramenta na chamada democracia”. A frase é um retrato fidedigno da truculência do estado com o povo brasileiro, sobretudo os marginalizados.

O álbum ‘Centelha’ está disponível em algumas plataformas de streaming.

10. SUGAR KANE – “Pastor Felício”

O fundamentalismo religioso é uma das armas mais sujas e poderosas que ganhou espaço no cenário social e político brasileiro.

A bancada evangélica soma-se como uma das maiores e mais influentes na câmara dos deputados e, trajados de um discurso moralmente falacioso, que exala preconceito e desumaniza sujeitos, ganha adeptos radicais e fundamentalistas.

Que a sociedade brasileira está adoecida, é um fato. Que o discurso bíblico do amor ao próximo foi coberto pelo discurso de terror ao próximo, a gente sabe também.

‘Pastor Felício’ é só um pequeno retrato, materializado de forma sonora, de uma onda alienante e sem escrúpulos que têm tomado conta dos centros religiosos do país.

O som faz parte do álbum ‘Ignorância Pluralística’, lançado em 2014, pelo Sugar Kane.

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Sobre o autor

Iasmim Calixto

Jornalista e fotógrafa no Paraná. Atualmente cursa Comunicação e Multimeios na UEM (Universidade Estadual de Maringá), trabalhando em um fotolivro sobre a história da cena punk da cidade de Maringá.