sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

O dia que BJ Thomas e Paulo Ricardo foram mais punks do que “certa cena” hardcore

BJ Thomas, Paulo Ricardo X Punk Rock Scene

Por André Alves, da Statues on Fire

Não me lembro se já contei essa história quando tinha minha coluna no Punknet, porém vocês devem entender que pessoas mais velhas sempre contam as mesmas histórias e pensam que nunca tinham contato. Minha filha sempre diz: “de novo essa pai?”.

Bom, enfim… eu trabalhei com um cara chamado BJ Thomas, ele é um cantor americano de muito sucesso, ele e Burt Bacharach, outro que é famoso pra caralho (já fiz duas tours com ele de “roadie monta tudo”). Escreveram a música “Raindrops Keep Fallin’ On My Head” juntos, que qualquer um conhece. Tem também “Rock And Roll Lullaby”, enfim… isso foi há um tempo atrás.

O show foi na famosa casa de shows HSBC, que era o Tom Brasil. Aliás essas merdas de casas de shows em São Paulo vivem mudando de nome, que você nem sabe onde ficam mais. O show estava lotado, mais de mil pessoas eu creio, mas com mesas. Isso significa que as pessoas pagam uma fortuna pra ver um show desses, sentarem nas mesas com suas roupas bonitas, garrafas de champanhe e seus Mercedes novos em folha na mão dos manobristas.

Paulo Ricardo, sim!!! Aquele do RPM, loira gelada e afins é muito fã do BJ Thomas, uma das missões do dia era administrar a entrada e saída dele no palco porque cantariam uma música juntos. Show foi um sucesso, aplausos e mais aplausos etc., etc. Próximo show em Floripa.

Chegamos em Floripa e o promotor do show estava lá nos esperando, estava um calor de matar e lá estava ele e sua noiva de terno todo amarrotado e foi nos buscar, creio eu que em um carro emprestado, cheio de areia nos bancos. O senhor Thomas foi para o hotel com o casal, equipe e eu para o local do show.

O local do show não era próximo da praia, nunca havia estado por lá, naquele bairro. O lugar era incrivelmente uma merda, a casa de shows era uma porcaria, tipo misto de buteco de esquina com casa da luz vermelha, com aquele calor de cidade de praia… tinha barata para tudo que era canto. O palco não cabia a banda e o equipamento, BJ Thomas trazia seus músicos dos EUA também, banda que não era pequena. Uma banda de funk carioca, bem no começo de carreira, poderia com certeza tocar nesse lugar, mas com uma música no Spotify já pensaria duas vezes. Lembro que as mesas do lugar era tipo da Brahma, mas uma de cada cor, com toalhas bem imundas em cima delas. Camarim, óbvio, era um mocó qualquer naquele lugar imundo. Eu não era o cara da produção, então ficou aquela conversa, cancela ou não cancela e tal… eu esperando… hora da passagem de som chegando… músicos gringos chegando… passamos o som do jeito que deu, eles muito bem-humorados, rindo da situação.

Até que BJ Thomas chega ao local mais tarde, próximo ao horário do show. Promotor super nervoso, o terno era o mesmo, porém agora estava imundo, parecia que tinha acabado de trocar um pneu do carro. Paulo Ricardo e sua namorada Linda já estavam por lá também… BJ Thomas entrou, a gente com vergonha, mas enfim, não cabia a mim a decisão de manter ou cancelar… BJ Thomas perguntou: “Essas pessoas pagaram para me ver cantar? Então eu farei o show”. Agora, pensa no seguinte, um senhor milionário de extremo sucesso em sua carreira, tocou no pico mais insalubre que eu já tinha entrado na vida – e olha que de lugares insalubres eu manjo. E fez um show brilhante, não perdeu a compostura em nenhum segundo e saldou pessoalmente todos os presentes, que não eram muitos, um cara que meteu lotação máxima no HSBC em São Paulo um dia antes!!

No dia, fiquei pensando, conheço várias bandas de uma certa ceninha aí que virariam as costas e não fariam o show porque a mesa está diferente do rider ou algo do tipo. Pois é, jovens, um puta tapa na cara. Isso me fez rever um milhão de conceitos na minha vida.

Se o BJ Thomas fez o show, quem sou eu nesse mercado? Enquanto não era a deixa do Paulo Ricardo no show, ficamos conversando off stage e não é que o cara é gente boa pra caralho?

Me contou um milhão de histórias engraçadas da época do RPM. No Dia seguinte, estava na frente do hotel fumando um cigarro. BJ Thomas me convida a dar um passeio por Floripa e eu fui e foi muito legal.

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Sobre o autor

Andre Alves

Andre Alves é guitarrista e vocalista da Statues on Fire e ex-integrante da lendária banda Nitrominds.