sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

[especial] Toda a atitude e o deboche da Blastfemme – Parte 1 de 2

Conheça os integrantes da Blastfemme

A Blastfemme é uma banda do Rio de Janeiro que reúne letras diretas e debochadas com uma forte presença de palco. Formada por Jhou Rocha, Dani Vallejo, Vladya Mendes e Igor de Assis, a banda lançou seu primeiro álbum depois de três anos fazendo barulho na cena underground, tanto barulho que rendeu uma participação em um programa de TV aberta e até uma turnê na China.

Conversamos com a banda sobre essa turnê, o processo de criação do álbum e outros temas como representatividade na cena e o futuro da Blastfemme. Por ser um papo longo, dividimos essa conversa em duas partes. A segunda e última parte você confere na quinta-feira (10/10).

No dia 10/10, a Blastfemme irá se apresentar no Ganjah Lapa, no Rio de Janeiro, junto com a banda Missa. Para mais informações clique AQUI ou confira logo abaixo no fim dessa primeira parte da entrevista.

Quando vocês perceberam que queriam formar uma banda e como foi o processo até a finalização do álbum?

JHOU: Desde que aprendi os primeiros acordes no violão já pensava em compor e ter banda, então foi natural ir atrás de pessoas com o mesmo interesse e vontade. Quando finalmente nos encontramos na cena carioca, cada um já tinha tido sua trajetória até aquele momento com outros projetos. Surgiu a oportunidade de gravar o Reverbera e ali entendemos que teríamos que ter um show completo para se apresentar onde quer que fosse, então é daí que basicamente nasceu nosso álbum, feito de músicas que cada um já tinha e outras criadas em coletivo durante ensaios.

DANI: Eu canto desde os seis anos, quando comecei no coral da escola e depois fui para o municipal da cidade que eu morava, no Mato Grosso do Sul. Com uns 12, comecei a cantar em bares com uma amiga e aos 14 montei minha primeira banda, ainda no MS. A Blastfemme surgiu de uma vontade que vinha me acompanhando desde que me mudei para o Rio: antes disso eu tinha um projeto formado só por mulheres, Idis, que durou de 2007 até 2012. Eu tenho um duo de folk/punk, com meu namorado, onde toco violão e canto, mas tinha muita vontade de só cantar e queria que fosse um projeto com mulheres. Através dos shows que fiz com o duo, acabei conhecendo a Vladya e a Jhou; admirava o trabalho delas e um dia tomei coragem e chamei a Vladya para tomar uma cerveja, naquela noite surgiu a Blastfemme – eu sei a data exata até hoje: 08 de agosto de 2016. Compomos, bebemos e já sabíamos que a Jhou estava nessa.

O processo para chegar até o Igor foi mais demorado, pois procurávamos uma guitarrista mulher e não rolava. O Igor era técnico de som do estúdio que ensaiávamos e um dos meus melhores amigos. Ensaiava Vladya, Jhou e eu tentando arranhar uma guitarra tosca lá, a contragosto, rs., aí um dia convenci as meninas de chamar o Igor para tocar, já que ele estava fazendo nosso som e tal. Só sei que encaixou no ato e foi mágico desde a primeira vez que tocamos juntos.

O disco surgiu através do convite do nosso, agora, produtor musical, Gustavo Benjão. A gente já estava querendo gravar as músicas, e em um show que fizemos no Escritório com a banda Cheyenne Love, o Benjão conheceu a gente e na mesma noite fez a proposta de gravação. Aceitamos o casório rs. Gravamos a banda toda ao vivo, power trio plugado como nos shows e eu fiz a guia da voz, depois acertamos poucos detalhes.

IGOR: Nos conhecemos em um estúdio onde ensaiávamos com nossos outros projetos e onde ali também funcionava um coletivo de bandas e músicos, do qual nós fazíamos parte. Ali era um ponto de encontro, tínhamos admiração umas pelas outras e não demorou muito para planejarmos uma nova banda. Eu era o técnico de som e atendia as meninas nos ensaios então, por estar sempre próximo, acabei me juntando à banda. O primeiro ensaio foi suficiente para entendermos que existia uma forte química e em poucas apresentações já recebemos alguns convites de selos e produtores para gravar um disco, até que encontramos o Benjão. Tudo aconteceu rápido, mas o caminho foi longo até o lançamento do álbum.

VLADYA: Jhou e eu tocávamos na Lovejoy e uma vez comentamos sobre montar uma banda de mina durante o ensaio, então surgiu a questão de quem cantaria. Logo que o nosso ensaio acabou, a banda seguinte a ensaiar no local era “A batida que seu coração pulou” que é o duo que a Dani tem com Jean Albernaz, e comentei que ela cantava muito, e não saiu dali a ideia rs. Dias depois, Dani me chamou para tomar uma cerveja e a banda começou a surgir. Já tínhamos batera, baixo e vocal, só faltava guitarrista. De início procurávamos uma mina, mas não conhecíamos ninguém e estava difícil achar uma na época. Até que Dani sugeriu o P.I. Ele já trabalhava no estúdio e um dia a gente fez ensaio com ele e fechou: aquilo era a Blastfemme.

Blastfemme – Foto: Laura França

O nome da banda é muito sonoro e divertido. Como surgiu essa ideia?

DANI: Quem batizou foi o Jean Albernaz, músico e amigo da banda. A gente estava com tudo pronto, repertório e proposta de show de estreia, mas não tinha nome. Fizemos muitos brainstorms mas não achávamos um nome que batia com a intensidade do nosso som. Jean acompanhou o processo de perto e, quando voltava de uma viagem de trabalho dentro do busão, ele pensou nas palavras: Blast (explosão em inglês) e Femme (feminino em francês) e na alusão que as duas palavras juntas revelavam no português: Blasfêmia. Eu gosto de pensar nessa explosão feminina, a explosão mais ensurdecedora que vai chegar no seu ouvido.

IGOR: Sim! Foi uma boa sacada. O nome tem a junção das palavras explosão e feminina e ao mesmo tempo faz alusão à palavra blasfêmia. Quem teve essa ideia foi o nosso amigo Jean Albernaz, que nos presenteou com esse belo nome que encaixou perfeitamente.

Quais as maiores influências de vocês?

JHOU: São tantas influências que fica difícil, mas algumas são: Michael Jackson, Nirvana, Silverchair, Carpenters, Black Sabbath, Paramore, Alanis Morrissete, Perfect Circle, Madonna, Deftones, Raça Negra, Deep Purple, Pixies, Bikini Kill, Melissa Auf der Maur, Sonic Youth, Breeders, Descendents, Pitty, Charlie Brown Jr., Talking Heads e Bloc Party.

DANI: Kathleen Hanna, vocalista da Bikini Jill e da Lê Tigre, é, para mim, uma das maiores vocalistas com presença feminista foda, além de Julie Ruin, Beth Ditto, Karen O, Rita Lee, Cássia Eller, The Kills, Operator Please, Mercenárias e Letrux.

IGOR: Nós viemos de escolas diferentes e de cenas diferentes do País. Quando nos juntamos, isso gerou uma excelente combinação. O som da banda tem muita influência do protopunk, do punk, de bandas alternativas como o Sonic Youth, Nirvana e Bikini Kill, e também de Disco Music e bandas que foram influenciadas por esse movimento, como o Gossip.

VLADYA: Gosto de ouvir de tudo, e tem bateristas que me inspiram bastante e não são necessariamente do rock como Cindy Blackman, Sheila E., Vera Figueiredo e Lahn Lahn.

A Vladya toca na banda Verónica Decide Morrer e a Jhou também toca com a Dibuk Motel. De quais outros projetos musicais, solo ou em grupo, vocês participam? Há algum projeto que não é necessariamente ligado à música?

JHOU: Eu e Vladya tocamos também na Lovejoy com Larry Antha e Sanchito. Antes disso, toquei também na Sex Noise com o Larry! Trabalhávamos na mesma livraria e uma amiga em comum, Taty Menendes, comentou que Larry procurava baixista, então eu fui. A Dibuk surge no meio disso, com amigos da livraria também: Leonardo Marona, Cassiano Viana, Lucas Santiago. Fazemos música baseada em títulos literários… um lance mais experimental e poético.

DANI: Eu tenho esse duo que se chama A Batida Que O Seu Coração Pulou, e que esteve parado nos últimos tempos, muito por conta da minha falta de tempo e compromissos cada vez maiores com a Blastfemme – não estou reclamando, que venha mais! Mas esporadicamente estamos voltando a ensaiar. Já vai ter show de novo, aguardem!

VLADYA: Além da Verónica Decide Morrer, faço participações com outros artistas, como Aline Peixoto, com quem gravei uma faixa super empoderada para o álbum dela, e também toco no projeto “Olhos coloridos”, idealizado por Silvero Pereira com o elenco foda do coletivo “As Travestidas”.

Ainda sobre isso, já pensaram em fazer outra coisa que não fosse ligada à música ou seria improvável?

JHOU: Queria muito viver só de música, mas ainda não é possível: trabalho numa livraria e faço biscoitos! rs.

DANI: Eu trabalho com audiovisual, sou editora e finalizadora de imagens, minha segunda paixão depois da música, mas a real é que sonho um dia poder viver apenas da nossa música.

IGOR: Seria improvável para mim. Tenho um fanatismo pela música, mas também tenho vontade de escrever roteiro, trabalhar com coisas ligadas à arte em geral e, de certa forma, de um jeito ou de outro, essas coisas costumam ter uma ligação com a música. Sou como uma fruta que não cai longe do pé.

VLADYA: Acho que não seria uma boa ideia rs. Tudo que eu faço está ligado à música.

Blastfemme – Foto: Laura França

Quando pesquisamos sobre vocês na internet, os principais resultados são a respeito da participação de vocês no programa Reverbera da TV Brasil e muitos comentários sobre a intensidade que é uma apresentação ao vivo da Blastfemme. Sobre isso, contem mais sobre a participação no programa e sobre o que vocês sentem quando estão no palco.

JHOU: Palco é momento de descarrego, curtição e alegria compartilhada que compensa todo trabalho anterior.

DANI: Participar do Reverbera foi o grande start da Blastfemme, fez a gente ficar conhecida rapidinho, rendeu prêmio, rendeu viagem, rendeu muita coisa mesmo. Estar no ar em TV aberta muda a percepção das pessoas sobre o trabalho e faz o acesso aumentar também. Na época em que gravamos estávamos muito no começo da banda, nem repertório existia direito, e depois do Reverbera a banda se firmou tanto para o público quanto para nós mesmos. Estar no palco é tudo que a gente mais gosta, é onde tudo faz sentido, somos um só lá, e eu entendo o que as pessoas sentem quando assistem ao nosso show: é exatamente o que estamos sentindo no palco, é catártico! É mágico! Deixo minha alma entregue lá, onde quer que seja o palco, a cada show, do mesmo jeitinho intenso que somos.

IGOR: Assim que o Reverbera foi ao ar, a coisa repercutiu de forma positiva, abrindo algumas portas e tornando esse um dos momentos mais importantes para o grupo. Lá, conhecemos a produtora do programa, que logo virou a nossa produtora e hoje é a nossa quinta integrante. Tocar ao vivo é como ligar uma tomada ou acionar um interruptor liberando uma energia contida. Passamos a nossa energia para o público e o público nos passa a sua energia de volta, proporcionando os momentos catárticos.

VLADYA: A participação no Reverbera fez com que gente de todo o País conhecesse nosso som. Recebemos várias mensagens das pessoas que nos viram no programa e adoraram. A gente leva todo nosso vigor e a nossa intensidade para o palco. Ali, a Blastfemme mostra a que veio. A gente se doa bastante.

Blastfemme – Foto: Laura França

Para mim, que ainda não vi uma apresentação ao vivo de vocês, infelizmente, o que mais me chamou a atenção, até agora, foram as letras tão intensas, divertidas, diretas e descompromissadas. Contem como foi o processo de composição dessas letras.

JHOU: Deboche.

DANI: Todo mundo compõe na banda. Tem letra de todo mundo no disco e no show mais ainda, rsrs. Às vezes alguém chega com uma música e colocamos a letra juntos no estúdio, às vezes eu chego com a letra e elas me ajudam a musicar. As músicas de minha autoria, eu normalmente trago, cantarolo e deixo a galera fazer o que quiser no entorno e logo vira Blastfemme. As temáticas que eu abordo normalmente têm a ver com coisas que a gente passa: saudade, amor, ilusão, raiva, desgosto, desamor, rs., por aí vai.

IGOR: Quando a banda ainda estava em formação, nós começamos a juntar nossas músicas, formando um repertório que acabou ficando com a nossa cara. Todos na banda compõem e isso faz com que tenhamos processos diferentes na hora da composição. Hora alguém chega cantando uma música e eu encaixo um riff de guitarra, hora eu chego com um riff e alguém encaixa uma letra ou, às vezes, surge uma música quando estamos sozinhos e depois apresentamos para o grupo. O interessante é que falamos sobre as mesmas coisas quando escrevemos, parece que estamos na mesma frequência.

VLADYA: Todos da banda compõem. Às vezes levamos músicas prontas e dá super certo, às vezes o Igor tem uma melodia que casa com alguma letra que a gente tem e no estúdio a gente cria uma identidade.

Blastfemme – Foto: Laura França

Santa Ceia convida: Missa & Blastfemme

Quando: 10 de outubro
Onde: Ganjah Lapa – Rua do Rezende, 82 – Rio de Janeiro
Horário: abertura dos portões às 18h. Início dos shows às 21h
Entrada: R$ 15-R$ 20 (pague no evento)
Abertura: Augras
Para mais informações acesse: http://bit.ly/358uRBc

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é colaboradora do Nada Pop com pautas, principalmente, envolvendo mulheres com banda. É natural de Guarulhos, Região Metropolitana de São Paulo.