terça-feira, 29 de setembro de 2020
Nada Pop

[especial] Lo-Fi e o lançamento do álbum Naked Death

Não sou um cara muito esperto, tenho a impressão que boa parte do que já vivi nesse mundo foi tirado de um roteiro mal desenvolvido e cheio de furos, sendo eu o anti-herói de minha própria existência, sem carisma ou atributos que me favoreçam nessa sociedade.

Talvez seja exatamente por isso que me apaixonei pelo punk e sua fúria, onde pude me encontrar e ser de alguma forma parte de uma inadequação generalizada, sentida e vivida por dezenas, centenas ou milhares de outras pessoas nesse mundo. Mesmo com o rock sendo tão bunda-mole nos dias de hoje, com mais bandas sem qualquer tipo de contestação ao status quo social e moral, quando grupos como a Lo-Fi lançam um novo material é quase como se rejuvenescessem aquele sentimento que me fez amar o rock e todas as suas subversões.

A Lo-Fi é uma banda de São José dos Campos, no interior de São Paulo. São três caras totalmente desinteressados dos tais encantamentos que “mercado da música” pode proporcionar. Podem ser mil ou apenas uma pessoa de público, o show é para eles mesmos. Não à toa, as jam sessions que o grupo promove resultam em faixas com mais dos tais “três minutos” de duração, acima do que rádios esperam que as bandas de fato tenham.

O álbum “Naked Death”, lançado nesta sexta-feira (11/10) por meio do selo Abraxas e Laja Records, é o 13° trabalho do grupo em sua carreira e é mais do rock regressivo que a banda tanto cita. Podemos entender esse rock regressivo como um stoner, com muitas influências e uma bagagem musical enorme que o trouxeram até aqui.

As principais influências da banda

Entre as influências, a Lo-Fi cita o Minor Threat como o começo de tudo. “Tiramos todas as músicas para começar a banda em 2008”, explicam.

Outro disco é o “I Killed Porcho”, da ANS, que conta com guitarras pesadas e reverb e com uma pancadaria de fazer inveja ao Black Sabbath, que serviu de inspiração em 2010/11.

O Motörhead é uma das bandas que não pode faltar, assim como o Waldick Soriano, inspiração para o disco “Love Song”, de 2015. Como aulas de slide, o trio ouviu muito o disco “John the Revelator”, com a banda Gov’t Mule, que ajudou a construir o álbum “Cosmic Blues”.

Em outra fase da banda, eles ouviam o Pink Floyd, onde surgiram músicas mais atrevidas, como o “Close to the Edge”, do YES. “Copiamos a capa desse disco no lançamento de You Are the Biggest Thing Since Regressive Rock. O nome dessa música também faz menção a uma banda foda pra caralho que gostamos muito, o Budgie”, explicam.

Sobre o Naked Death

Nas dez faixas que integram o álbum, a Lo-Fi trouxe novamente a guitarra suja, o baixo distorcido e a bateria com o “taca-le pau”. Apesar disso tudo, existem faixas mais lentas, como a “Another Way To Die”, sendo voz e violão.

A banda continua dizendo que o som é um rock regressivo, como mencionado em uma matéria anterior sobre a banda (clique AQUI para ler). Rogerio explica: “Definição muda a cada semana. Banda de origem punk, sem virtuosismo nenhum, que é fã de rock progressivo desconhecido, mas toca igual suas primeiras influencias de bandas americanas de jam band, improvisação sem limites e extensão de músicas ao extremo. E mais, respeito máximo as nossas influências e músicos que ouvimos”, contou.

Para nos contar um pouco mais sobre esse trabalho e sobre a opinião de alguns assuntos, entrevistamos a banda de forma exclusiva. Confira o nosso papo abaixo.

ENTREVISTA LO-FI

O rock morreu, mas passa bem? O que dizer para aqueles que continuam insistindo em dizer que o rock não tem mais a força de anos atrás?

MARCELO – Aqueles que insistem que o rock não tem mais a força de antes são os mesmos que pagam valores absurdos em um ingresso da noite do metal do Rock in Rio, não apreciam as bandassas brasileiras que se apresentaram como a Nervosa e o Claustrofobia e estão lá só pelo Iron Maiden. O Rock no Brasil sempre teve seus autos e baixos, mas o seu núcleo duro sempre se manteve entre a minoria que entende que rock não é música, é atitude. Hoje, alguns outros seguimentos da música brasileira andam tendo muito mais atitude que a maioria desses “roqueiros”, por isso parece ter perdido a força.

ROGERIO – Sempre foi igual, só mudou a forma e a vontade de grandes corporações e, vender um produto. Parar de fazer música é igual a parar de se expressar, ou parar de viver. Claro que tem gente nesse ponto, mas também sempre existiu. O mundo continua igual, a única diferença é mídia social que dá voz pra muito idiota que não sabe o que fala.

THIAGO – O cara já paga o Spotify. Depois disso dizer que só as bandas de antigamente que prestavam é ignorância preguiça e safadeza.

O que a banda pode falar sobre esse trabalho? Se há diferenças em outros álbuns da banda ou se é mais do rock progressivo que a banda faz?

MARCELO – Eu acho que a Lo-Fi dificilmente fez algo igual durante seus 12 anos, não consigo definir nem um estilo pra esse álbum. Tá bem conceitual, músicas mais lentas, diferentes, vozes e violão, e um hard rock muito divertido. O que mais diferencia é que este foi o álbum mais bem trabalhado em produção que nos mesmos fizemos, gravamos no Estúdio do Thiago, com equipamentos do meu futuro estúdio de Lorena também, mixamos e masterizamos juntos. Um trabalho totalmente independente e de muito aprendizado pra gente. Pra mim foi um álbum muito gratificante e tenho um orgulho pessoal nele por isso.

ROGERIO – Regressivo como sempre, talvez o mais de todos, teve processo de composição diferente dos demais devido a forma de gravação (caseira), mas é Lo-Fi como sempre. Todos os elementos estão lá presentes

THIAGO – É um álbum sincero como todos os outros. Nossos álbuns sempre expõem o que estamos vivendo no momento da gravação.

Como estão os shows da Lo-Fi? O público tem participado ou que se dane o público?

MARCELO – Os shows estão um pouco escassos por motivos pessoais, ter banda que produz como produzimos, no interior do estado e com mais de 30 anos nas costas não é fácil. Temos família, ambições pessoais e infelizmente o rock não proporciona pra gente um retorno financeiro no qual podemos nos dedicar 100%. Se um dia tivemos mais valor por aí a fora, quem sabe não rolam mais shows… Enquanto isso fazemos mais discos.

ROGERIO – De férias um pouco, mas o público participa sim de nossas atividades e horas de laser, ou melhor, é pequeno, mas interage. Gosto do nosso público. Mas nosso processo de criação independe dele.

THIAGO – Nós gravamos músicas pra cacete, tem tudo no Youtube, Spotify e Bandcamp de graça. Tocar de graça então nem se fala, nesses 11 anos foi uma saga infinita de perda de dinheiro e acredito que não somos os únicos. Enfim, acho que fizemos mais para o público do que o público fez pra gente. E isso serve como um resumo geral da tal da cena.

Qual a sensação de contar com o apoio dos selos Abraxas e Laja Records?

MARCELO – Ter amigos é muito mais valioso que ter colegas de trabalho ou chefes, isso define pra mim as nossas relações com os caras! Os churrascos, cervejas e histórias pra contar são muito mais importantes que qualquer coisa.

ROGERIO – Melhores selos que tenho conhecimento no Brasil, com abordagens completamente diferentes, mas muito trabalhadores e bem “apaixonados” pelo que fazem.

THIAGO – Nos entendem do jeito que somos, obrigado.

A vida sem rock é uma vida que faria sentido para a banda?

MARCELO – Pra mim com toda certeza não faz nenhum sentido.

ROGERIO – Claro, as pessoas de nossas vidas são mais importantes, cuidar de nossos entes queridos, amigos, pessoas que fazem a diferença, não vivemos sem elas, o resto é meramente uma forma de expressão,

THIAGO – Pra tudo tem sua hora.

O que a vida na estrada com a música ensina mais do que qualquer outro lugar ensinaria?

MARCELO – A vida na estrada se assemelha como uma vida na rua que você joga bola com os amigos, empina pipa, aprende a ter convívio social, entende os problemas de outras pessoas que tem a vida diferente da sua e ser amigo independentemente de qualquer coisa. Você aprende muito mais que em qualquer faculdade ou mestrado e pode ensinar muito mais que qualquer professor. Você vê que tem muito talento escondido por aí e que por conta dos nossos problemas sociais não estão aparecendo, acaba tendo essa sede de mudança, de fazer algo pra mudar esse rumo caótico que estamos tomando como humanidade.

ROGERIO – Ensina a ser um ótimo gerente de projeto informal.

THIAGO – A se foder rindo, a se foder tomando tapinha nas costas, a se foder recebendo aplausos. Mas ensina também a ser mais tolerante e receptivo com todo tipo de pessoa. Isso tudo na minha opinião.

OUÇA A BANDA: SPOTIFY | BANDCAMP | YOUTUBE

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop