quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Nada Pop

Cosmogonia lança o clipe de “Tempo” no Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher

Formada em 1993, Cosmogonia é uma das bandas pioneiras do movimento Riot Grrrl no Brasil. Entre 1998 e 2006, gravaram singles, participaram de coletâneas e festivais de hardcore em São Paulo, Goiânia, Brasília, Salvador, Rio de Janeiro, Londrina, Belo Horizonte e em lugares como Hangar 110, Outs e Inferno ao lado de bandas como NX Zero, CPM22, Cólera, Dominatrix, Killi, Biggs, Pulso, Bulimia, No Class, Muzzarelas e Inocentes.

Após um hiato de 11 anos, a banda retornou em 2017 e continuou sua trajetória permanecendo ativa no cenário independente, marcando presença em festivais, eventos feministas, e lançando o EP “Reviva!” que foi gravado a partir da iniciativa Experiência Family Mob realizada pelo Estúdio homônimo do projeto em parceria com a Converse.

No dia que marca a luta contra a violência à mulher aqui no Brasil, 10 de outubro, a Cosmogonia liberou em sua página no Facebook o videoclipe de “Tempo”. E conforme relato da banda, ele nasceu de um apanhado de registros captados por diferentes mãos em shows com a participação de todas as pessoas que fizeram parte dessa história desde o retorno da banda há dois anos e trouxe uma linguagem estética que já era vivida pelas integrantes, seguindo a cartilha do “Faça Você Mesma”.

Apesar de toda a bagagem e experiência que as meninas acumularam durante os anos de estrada, “Tempo” foi a primeira produção audiovisual da banda. Sabemos que fazer arte no Brasil é sinônimo de resistência, mas quando falamos de produção independente, de estilos musicais específicos como o punk rock, por exemplo, podemos facilmente acrescentar alguns pesos nessa conta. Mas existem ainda inseguranças, cobranças, demandas que recaem sobre nós mulheres e que a Gabi e a Esther contaram na entrevista a seguir.

“Faça você mesma”. Foi a frase utilizada para iniciar o texto de lançamento do clipe. Produzir conteúdo audiovisual é um dos maiores desafios para bandas independentes. Vocês acham que o preciosismo e a necessidade de grandes produções tornaram-se um padrão a ponto de invisibilizar outras estéticas e grupos que não possuem acesso aos equipamentos ou condições de contratar profissionais da área?

COSMOGONIA – Cremos que a cobrança e exigência pode ser um empecilho na hora de tentarmos tirar qualquer projeto do papel. Hoje em dia, é uma “competição” bem injusta e tantas vezes desonesta com as bandas menos (ou nenhum pouco privilegiadas) no cenário underground. Fazer um clipe sempre foi o sonho da banda nas três gerações em que a Cosmogonia existe. Tentamos uma vez no passado fazermos o clipe de “O Sentir Que Violenta” quando lançamos o single em 2006, porém não foi adiante.

Até que um tempo depois de termos lançado nosso primeiro EP, conversando com um amigo do audiovisual (Valeu Ninjasso!) veio o empurrão e encorajamento que precisávamos para fazermos com o que tínhamos de registros desde que saímos do hiato. E deu certo! Ficamos muito contentes com o resultado final! Faça você mesma é o lema de muitas bandas de mulheres ou com mulheres no underground, e foi isso que nos trouxe até aqui, tanto tempo depois.

Cosmogonia – Foto: Beto Batatas

Eu gostaria de não ter que, em 2019, ainda falar sobre representatividade da mulher na música. Mas nos últimos meses surgiram alguns debates sobre a presença de mulheres em grandes festivais ou eventos produzidos por homens tanto nos palcos quanto na área técnica. Uma das respostas de produtores à falta de mulheres nesses espaços é que eles não sabem da existência dessas profissionais. Isso poderia estar ligado à dificuldade de produzir conteúdo?

COSMOGONIA – Não cremos a falta de espaço e presença da mulher esteja ligado à dificuldade de produzir conteúdo, embora ela exista! O que existe é falta de vontade e falta de oportunidade na maioria das vezes.

Temos várias bandas ocupando grandes espaços, e as oportunidades para criação de conteúdo estão surgindo (ainda limitada e excluindo muitas mulheres, mas estão começando a existir).

Entendemos que se há oportunidade para que as bandas possam se apresentar em festivais de médio e grande porte, as portas vão se abrindo para que as bandas possam ter também a oportunidade de produzir conteúdos de melhor qualidade. E a Cosmogonia é um exemplo vivo disso, desde 1993 na estrada, só conseguimos lançar um material de qualidade agora, tendo portas abertas pela iniciativa Experiência Family Mob onde tivemos o privilégio de ganhar uma diária em um estúdio de excelente qualidade, coisa que se tivéssemos que arcar com os valores de uma diária, seria impossível de acontecer.

O que vocês acham que falta para que exista equidade de oportunidades quando olhamos para esses eventos e não vemos mulheres, e ainda ampliando o debate para negrxs e pessoas trans?

COSMOGONIA – O que falta, são as pessoas com certos níveis de privilégios (não só no underground) começarem a se mobilizar para que todxs sejam incluídos nos espaços de forma mais justa e igualitária. E não só negrxs, pessoas trans, mas as mulheres indígenas, as mulheres que são mães e que na maioria das vezes ficam de fora por falta de espaços seguros para elas e seus filhos, falta empatia, falta vontade, falta muita coisa!

Cosmogonia no Family Mob (formação de 2018) – Foto: Maya Melchers

O clipe foi lançado no dia 10 de outubro, que é Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Qual a impressão de vocês sobre os casos de violência à mulher dentro da cena punk/hardcore da época em que a banda começou em 93, e de agora no retorno em 2017?

COSMOGONIA – A violência também se dá por falta de oportunidade, falta de respeito das próprias pessoas dentro dessa cena. A violência começa instigada na maioria das vezes por comentários tidos como “engraçados” por parte de homens, misóginos e machistas não respeitando o lugar da mulher nesses espaços em que estamos lutando há anos para tomar de volta. E nem estamos tocando no assunto assédio, agressão, que muitas vezes rola e é silenciado por muitas mulheres que temem “perder” esses espaços, colê e tantas outras coisas que consideramos “micro-violências” acometidas a nós mulheres.

O clipe resgata trechos de shows que a banda fez desde o retorno em 2017. Quais foram os pontos altos e baixos desse período?

COSMOGONIA – De 2017 até aqui tivemos vários pontos altos! A passagem de pessoas incríveis pela banda e que nos fizeram aprender e crescer como mulheres e seres humanos, tivemos apresentações inesquecíveis em festivais como Warriors, Fuzz Fest, Oxigênio e também nos pequenos festivais organizados por amigxs que nos fortaleceram e nos deram uma bagagem incrível após 11 anos em hiato.

Também gravamos nosso primeiro EP no final do ano passado lá no Family Mob que foi uma experiência incrível e que gostaríamos muito que todas as mulheres tivessem a mesma oportunidade!

Cosmogonia – Foto: Eduardo Moura

Alguns canais legais e blogs da cena punk/hardcore nos entrevistaram ajudando-nos a contar um pouco das nossas histórias e vivências, contamos também com a ajuda e divulgação de muitxs alunos da área de comunicação e áudio visual que escolheram a cena punk/hardcore para seus projetos de conclusão de curso e nos sentimos extremamente honradas em ter feito parte desse momento tão importante na vida dos estudantes.

Conhecemos bandas, mulheres, pessoas incríveis, reencontramos amigos antigos, entramos de cabeça na cena tentando contribuir para que todxs tenham espaço seguro, justo e igual.

Cosmogonia: Facebook | Youtube | Twitter | Instagram | Spotify

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Sobre o autor

Lety Trash

Lety é editora do Nada Pop, além de guitarrista na Trash No Star, fundadora e produtora na Efusiva Records e MOTIM, um centro de cultura feminista no Rio de Janeiro.