sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

A garota que enfrentou o mundo e que organiza festivais de queercore

Natália Pinheiro, integrante da banda Bioma e organizadora de festivais queercore – Foto: Juliana Marotta

Em matéria publicada em maio deste ano pelo portal de notícias G1, o Brasil registrou 141 mortes de pessoas LGBT entre o mês de janeiro e maio de 2019. Os dados são do relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), contabilizando 126 homicídios e 15 suicídios, o que representa a média de uma morte a cada 23 horas nesse período.

O levantamento do GGB é feito com base em notícias publicadas em veículos de comunicação, informações de parentes das vítimas e registros policiais. “Como não há informações estatísticas governamentais sobre tais mortes, somos os primeiros a reconhecer que certamente tais números são subnotificados e podem apresentar uma margem de erro de 5 a 10%”, diz o relatório.

Ainda neste ano, em matéria do site da revista CartaCapital, foi veiculada a notícias que os jovens LGBT pensam três vezes mais em suicídio que cis heterossexuais e têm cinco vezes mais chances de colocar a ideia em prática. A matéria pode ser lida clicando AQUI.

Natália Pinheiro em ação com a Bioma – Foto: arquivo pessoal

Quando falamos em “cenário” punk e hardcore, geralmente se pensa em inclusão, em lugares onde todos são acolhidos e tratados da mesma forma. No entanto, até mesmo neste ambiente surge o preconceito e o machismo como em tantos outros lugares na música, como retratado pelo Jornal de Brasília, em recente matéria com o título “Mulheres reclamam de preconceito no cenário musical”.

Em busca do enfrentamento a essas barreiras no hardcore, além de estimular outras mulheres a terem bandas, Natália Pinheiro, da banda Bioma, foi uma das idealizadoras de três festivais de queercore em São Paulo: Dyke Fest, Desviantes e Resistência Transviada. Todos os eventos possuem o propósito de fortalecer o feminismo e, principalmente, a cena LGBT underground.

Para se ter uma ideia, a 4º e mais recente edição do Dyke Fest foi realizada no dia 31 de agosto. Já o terceiro ato da Resistência Transviada acontece no dia 9 de novembro, na Associação Cecília, na região central de São Paulo. Em dezembro, o Festival Desviantes alcança também a sua 4º edição no dia 15, novamente na Associação Cecília.

Convidamos a Natália para um bate-papo sincero, com o único objetivo de saber um pouco mais sobre a sua vida, sobre o que ela pensa e, claro, sobre as motivações que a fazem continuar enfrentando o mundo.

Confira o papo e não deixe de conferir a playlist no Spotify sugerida pela própria Natália. Curta, compartilhe e comente, mas lembre-se, com respeito!

Quem é Natalia Pinheiro e como você se enxerga nesse mundo? Acredita que já encontrou todas as respostas que busca em você?

NATÁLIA PINHEIRO – Sou de Osasco cresci escutando samba e pagode, acho que a coisa mais diferente que tinha em casa era um vinil do Jordy que escutava em looping. Sempre fui muito tímida e me atraía pelo esquisito e diferente, aí logo no começo da adolescência já estava ouvindo “uns rock”, me apaixonando pela Avril Lavigne e fazendo uns zines. Passou mais uns anos já estava colando na Verdurada e ouvindo qualquer banda de hardcore que me apresentavam.

Por volta dos 16 anos a minha sexualidade acabou se tornando uma questão e sai de casa, acabei deixando o hardcore no fone de ouvido e me envolvi com a militância lésbica e bissexual, que foi o espaço que me devolveu uma razão para continuar vivendo, construindo políticas públicas pra comunidade LBTQI+, organizando atividades e ajudando outras meninas que tinham passado por coisas semelhantes. Faz uns quatro anos que abri mão desse modelo de militância, consegui terminar a faculdade, a vida deu uma estabilizada e finalmente consegui montar banda, criar os festivais que sentia falta na “cena” e fazer tudo aquilo que a sociedade me negou às custas da sobrevivência.

Não tenho nem metade das respostas e nem faço questão disso, mas tenho orgulho de quem me tornei e de conseguir ajudar as pessoas fazendo o que eu mais amo que é ter banda e incentivando outras minas a ter bandas, festivais, zines ou qualquer outro projeto que ela acredite.

Qual foi o curso no qual você se formou?

NATÁLIA PINHEIRO – Me formei em Letras, Publicidade e Design (duas faculdades é um técnico). Rolava uma ansiedade para ter uma estabilidade financeira, ao mesmo tempo que não tinha a menor ideia de qual caminho seguir. A publicidade veio como uma oportunidade de aprender uma linguagem mais acessível e várias ferramentas que poderia usar por “bem”, em certa medida, deu certo.

O 3° Ato do Festival Resistência Transviada será realizado no dia 9 de novembro, na Associação Cecília. Saiba mais clicando no link: https://bit.ly/2ByfWmj

Certa vez falamos sobre o cenário independente. Reclamei que havia muita competição entre as bandas, você, por outro lado, apontou que há outros caminhos no próprio cenário, ao contrário do que eu mesmo havia reclamado. Quais “cenários” são esses? Qual a sua visão sobre o nosso próprio cenário punk/HC?

NATÁLIA PINHEIRO – Acredito que existem pessoas que viveram um período muito rico por volta dos anos 2000 e todo mundo que reclama da “cena” (desculpa Maurício rs) tá meio preso naquele período, são pessoas que cresceram e cresceram junto com as bandas que ouviam. Essas pessoas de fato não conhecem as bandas novas, não vão nesses shows, não prestam atenção no interior de São Paulo e nos outros Estados.

Nos últimos anos muita banda voltou a ativa, novas bandas se formaram e todo fim de semana tem um ou dois festivais, mas as pessoas ainda perdem tempo com aquela meia dúzia de banda, aquilo que é mais do mesmo ou se aproximaram mais de outros estilos. Os produtores estão preocupados em achar bandas que mantenham a bilheteria e deixam de lado bandas que poderiam renovar de verdade a cena, não estou falando para colocar só banda nova, mas usar as bandas que chamam público para conhecer as bandas que realmente fazem sentido dentro do hardcore/punk.

A gente sabe que se sai uma banda que segura público e entra outra banda que continua segurando e tem posicionamento já é suficiente pra geral ficar feliz. Tem um monte de banda de mina, de banda queer e bandas com caras que tão realmente preocupadas e romper com status quo.

Acredito que isso, a médio prazo, é muito mais sustentável para todo mundo, público, bandas e produtores. Acho que essa competição é fomentada por meia dúzia de bandas e produtores que são justamente as pessoas que tem visibilidade e isso acaba tomando uma proporção que não é de fato a realidade da cena. Sei lá, é um papo longo, são muitos festivais e bandas que podem ilustrar o que quero dizer, mas é muita gente incrível fazendo coisas incríveis, as No Gods No Masters é um bom exemplo.

3° Dike Fest – Foto: Marcela Guimarães

Me explica mais sobre a no Gods no Masters…

NATÁLIA PINHEIRO – No Gods No Masters é uma distro, uma vez por ano rola o festival com o mesmo nome, na semente negra que é um espaço anarquista no meio da reserva ecológica da Juréia, todo o festival é construído coletivamente.

São três dias de oficinas ao longo do dia e a noite rolam as bandas. O festival sempre faz questão de trazer bandas com posicionamento antifascista, com mulheres e pessoas queer. Todos os anos acabo conhecendo projetos e bandas maravilhosas. Esse ano o festival teve que limitar os ingressos, pois mesmo o Semente Negra não sendo um local de fácil acesso e não prioriza a grana em primeiro lugar, sempre fica lotado, acho que ali existe a real essência e comprometimento necessário para criar novos caminhos.

Nota da entrevista: O Espaço Autônomo Semente Negra está localizado em meio a mata atlântica nas proximidades da Reserva Ecológica Júreia-Itatins, na cidade de Peruíbe, litoral sul do estado de São Paulo. Para acessar o site do No Gods No Master basta acessar o endereço: http://nogods-nomasters.com/fest/

1° edição do Festival Desviantes – Foto: Juliana Marotta

Posso perguntar sobre a sua saída de casa? Como aconteceu, se foi uma decisão voluntária ou se foi algo forçado “moralmente”?

NATÁLIA PINHEIRO – Acho que prefiro falar da minha banda e/ou dos festivais que organizo ou o que estamos fomentando dentro da cena queer ou das minas… acho que isso constrói mais…

Certo… como surgiu a banda na sua vida e qual o aspecto emocional e ideológico que ela representa para você?

NATÁLIA PINHEIRO – Organizava um festival que chama Maria Bonita Fest, foi nessa construção que acabei me inserindo de novo nesse universo do hardcore/punk. Conheci algumas minas e comecei a tocar em uma banda que chamava Moita, foi bem divertido, mas depois de alguns meses isso me instigou a montar um projeto que realmente tivesse a sonoridade e o discurso que acreditava importante naquele momento da minha vida e no atual cenário político, foi aí que a ideia da Bioma nasceu, e virou realidade depois que conheci a Mayra, depois a Julia e para fechar a banda, a Letícia.

Natália Pinheiro – Foto: Foto Luis Galaverna

Me conta sobre a proposta da Bioma. Se já possuem algum lançamento ou se já estão planejando isso, singles também podem ser citados ou participação em outros projetos. Me fala sobre a escolha do nome também.

NATÁLIA PINHEIRO – “Bioma é uma comunidade grande com diferentes espécies convivendo em estabilidade. Esse é o sentimento que a gente quis trazer ao formar a Bioma, numa cidade existem várias vivências, várias narrativas, e diversos corpos sofrem violências distintas. A forma que defendemos de barrar essa violência é a partir do fortalecimento do vínculo entre essas diversas narrativas, aliando as minorias e considerando suas experiências particulares na luta. É o que buscamos trazer em nossas letras e nosso discurso.” Essa foi a definição que a Julia, baixista da banda escreveu e todas nós acreditamos muito nisso.

A gente tem duas demos que lançamos em 2018, acabamos de fechar as músicas que vão compor o álbum e começamos a gravar agora em agosto.

Você se vê mais como artista ou como ativista? É possível fazer essa divisão ou uma não está sem a outra?

NATÁLIA PINHEIRO – Acho que não tem essa divisão, acredito que até o consumo é político, fazer arte sem compromisso com algo é fazer uma arte vazia.

Você citou que existem muitas bandas, muitos projetos em atividade. Ao mesmo tempo, você acredita que as informações dessas bandas e projetos chegam como deveriam até as pessoas? Qual o papel da mídia alternativa, há mídia alternativa? Se sim, elas ainda são relevantes?

NATÁLIA PINHEIRO – São muito! Acho que um bom exemplo, além de vocês, é o Raro Zine e União das Mulheres do Underground que estão fazendo um trabalho de busca é divulgação de novas bandas.

O Festival Desviantes será realizado no dia 15 de dezembro na Associação Cecília. Confirma presença no evento no link: https://bit.ly/2BzMw7p

Acredito que todos nós que somos fãs e apaixonados por punk e hardcore, temos influências que de alguma forma servem como referência. Você destacaria algumas pessoas que para você são influências/ referências?

NATÁLIA PINHEIRO – Acho que tenho sorte de estar cercada de pessoas que são referência e ao mesmo tempo ser amiga delas. Acredito que as principais sejam a Adriessa, do Anti-corpos e Eat My Fear; a Andreza, do Tuna e do No Gods No Masters; a Cint, que é da In Venus e já foi de uma banda que chamava Justiça; a Elaine, do Rastilho e que já foi do Abuso Sonoro; e o Mama, do Teu Pai Já Sabe, foram as bandas que vem somando forças e tão na correria como Cosmogonia, Hayz, Sapataria, Boca de Lobo, uma lista gigante, aprendo todos os dias com essas pessoas.

Para você, quais fatores contribuem para uma reprodução machista e homofóbica em nossa sociedade? Um presidente da república e suas declarações públicas é uma consequência ou motivador do que existe de pior em nossa sociedade hoje?

NATÁLIA PINHEIRO – Acho complicado responder essa pergunta, pessoas passam a vida estudando e não chegam a essa resposta, mas acredito que tanto o machismo, homofobia e racismo são ferramentas indispensáveis para legitimar o capital e o seu funcionamento atual. Um primeiro passo para enfraquecer esse tipo de reprodução é rever nossos privilégios individuais e coletivos. O Bolsonaro é reflexo de uma sociedade doente que não quer abrir mão de nenhum tipo de privilegio, mesmo que isso custe a vida de muitos.

Bioma em ação! – Foto: Juliana Marotta

Se você tivesse que escolher um título para essa entrevista, qual seria?

NATÁLIA PINHEIRO – (risos) não faço ideia!

Esse papo pode seguir por muito mais tempo, mas quero que ele seja um retrato dessa época e que nós dois possamos, daqui uns bons anos, rever essa conversa com outros olhos. Por isso, para finalizar, algo que você queira incluir na conversa que não perguntei?

NATÁLIA PINHEIRO – Putz não sei, acho que o objetivo de ter banda e montar festival é justamente incentivar outras mulheres a ter banda e montar festivais. É lindo ver as minas, pessoas não brancas e queer ocupando esses espaços que foram negados a elas tanto tempo.

Existe algum fake news sobre você?

NATÁLIA PINHEIRO – (risos) Quem me conhece só nas redes sociais ou vendo show da Bioma sempre fala que tenho cara de séria e brava, aí troca três minutos de conversa e já era a imagem de bad girl!

Links: Bioma | Dyke Fest | Resistência Transviada | Desviantes

Saiba quais são os 10 álbuns da vida de Natália Pinheiro. Acesse: https://bit.ly/31H0pLr

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop