quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

5inco perguntas para o Garotos Podres: “Estamos diante de um regime ditatorial”

No próximo domingo, 6 de outubro, três gerações do punk nacional se reúnem no Fabrique Club para um show que será histórico. Garotos Podres, Flicts e Faca Preta. Estamos falando de um encontro mais do que especial.

Formada em 1982 no ABC Paulista, o Garotos Podres foi diretamente influenciado pelas bandas punks do final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. O sucesso do primeiro disco, “Mais Podres do que Nunca”, lançado em plena ditadura militar, popularizou a banda e a cena punk no Brasil e, mesmo com letras modificadas e censuradas, resultou em shows por todo o país e abriu as portas do mainstream para outras bandas. Em 1993, o quarto trabalho dos Garotos, “Canções para Ninar”, consolidou a banda internacionalmente, com shows na Europa e nos Estados Unidos.

Na linha de frente do grupo, que já foi alvo de brigas na Justiça por ex-integrantes, está o Mao. Uma persona totalmente politizada e que nessa batalha judicial venceu o direito de ser um garoto podre. O Combate Rock pode dar mais detalhes dessa história, clique AQUI. Mao voltou mais podre do que nunca e junto com os outros integrantes da atual formação da banda vem mostrando porque os Garotos Podres ainda continua tão necessário quanto na época da ditadura. Será que aqueles tempos estão voltando?

Mais uma vez, a Powerline é a produtora do evento deste domingo, que acontece na Fabrique Club, localiziada na rua Barra Funda, número 1.071, na Barra Funda. Os ingressos custam R$ 40 online e é possível comprar online neste endereço: http://bit.ly/2mNZ5bc

Confira o nosso papo com a banda e aproveite para ler depois a entrevista com o Faca Preta – Clique AQUI.

https://www.youtube.com/watch?v=tX2bw4qKzK8

NADA POP – Sobre a ascensão da direita no Brasil, quais as perspectivas de futuro e como enxergam a questão ambiental que vem sendo debatida no mundo? Há esperança no amanhã?

GAROTOS PODRES – Acreditamos na “democracia” e no Brasil é apenas o “intervalo entre uma e outra ditadura”. Mesmo em períodos aparentemente democráticos, temos que levar em conta que vivemos numa sociedade extremamente autoritária, violenta e com uma desigualdade social verdadeiramente vergonhosa.

Entre 2003 e 2015, o Brasil passou por diversos avanços no campo social, político e econômico. Houve expansão dos direitos sociais, vivemos um período de crescimento econômico e pela primeira vez negros e pobres puderam ter acesso às Universidades. Houve elevação do salário mínimo, diminuição do desemprego, e aumento ao acesso ao consumo por parte dos setores populares de nosso povo.

Show dos Garotos Podres, Flicts e Faca Preta no Fabrique, localizado na Barra Funda.

Esta situação provocou a irracional ira por parte de uma classe dominante que foi moldada por mais de três séculos de escravidão. A corja tucana – que havia sido derrotada nas eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014 iniciou um processo de Golpe de Estado. Para isso utilizou-se de um criminoso esquema de propaganda levado a cabo por todos os grandes meios de comunicação.

O resultado foram dois Golpes de Estado bastante recentes: o de 2016 e o de 2018. No de 2016, derrubaram um governo legítimo e democrático. A presidenta Dilma foi afastada do poder sem ter cometido qualquer crime. No Golpe de 2018, condenaram e mantiveram no cárcere o presidente Lula – condenado sem uma única prova sequer – para garantir a eleição do ditador Bozo.

Hoje, grande parte dos avanços sociais e econômicos estão sendo destruídos pela atual ditadura. Direitos trabalhistas, sociais e previdenciários estão sendo jogados na “lata de lixo”. Milhões de Trabalhadores estão desempregados e outros tantos amargam insegurança e na miséria da informalidade.

Estamos diante de um regime ditatorial que entrega as riquezas do povo brasileiro para as empresas monopolistas do Imperialismo. Não nos resta outra saída. Como nos tempos da Ditadura Militar, temos que nos organizar na resistência contra a ditadura!

NADA POP – Qual a importância do punk rock em nosso atual momento político e quais os artistas que vocês percebem, e que admiram o trabalho, que estão engajados nesse alerta à população? Não precisa ser só do estilo punk.

GAROTOS PODRES – Acho que o rock’n’roll em geral tem uma postura de rebeldia inerente ao próprio estilo musical. Dentre as vertentes do rock, o punk representa a face mais radicalizada desta expressão musical. Creio que chegou a hora do punk rock assumir o seu papel enquanto protagonista dentro de um amplo movimento de resistência contra a Ditadura. Temos que participar dos movimentos sociais para dar a nossa contribuição.

NADA POP – O machismo sempre foi um problema em diversas áreas de nossa sociedade (se não todas). Vocês percebem isso também no punk? O que as bandas de punk e hardcore devem ou podem fazer para tornar nossos espaços ainda mais plural?

GAROTOS PODRES – Achamos que o machismo – assim como muitos outros preconceitos – estão presentes até mesmo nos movimentos sociais que, em tese, atuam na luta pela emancipação dos trabalhadores.

Não obstante, vemos crescer a resistência na luta das mulheres, no movimento negro, LGBT, etc. Acreditamos que o golpe de 2016, contra a primeira mulher a assumir a Presidência no Brasil, e o discurso misógino dos golpistas dirigida contra a Presidenta Dilma, ajudou a fazer com que o movimento anti-machista ganhasse fôlego. Isto ficou bem marcado nas manifestações de resistência a partir de 2016, onde o crescimento da presença feminina se tornou bastante evidente.

A extrema-direita que está no poder não é apenas contra os trabalhadores brasileiros em geral. Ela é, em particular, profundamente racista, misógina e homofóbica. Desta forma a luta pelos direitos das minorias deve ser incorporada na Luta de Resistência contra a Ditadura!

NADA POP – Quais os futuros da banda em relação a novos sons, álbuns, shows, tours e o que mais puderem contar sobre isso. O que os fãs podem esperar de vocês em curto e longo prazo?

GAROTOS PODRES – A curto prazo, estamos preparando material novo, para ser divulgados sob a forma de “singles” nas plataformas virtuais.

NADA POP – Sobre os nossos “punks” de direita, que acredito que vocês já tenham visto ou ouvido histórias. Esse é um sinal de que existe uma falta de consciência e pensamento crítico ou apenas a alienação social da qual todos nós estamos suscetíveis diariamente pela mídia e propaganda?

GAROTOS PODRES – Punks de “direita” é uma total contradição. Na época da ditadura militar bastava o cara gostar de rock’n’roll para se tornar alvo da repressão. Bastava ter o cabelo um pouco mais comprido, ou estar usando uma camiseta com estampa de alguma banda, para ser constantemente abordado pelos policiais. Quem tivesse a aparência que o identificasse como “punk”, isto significava levar uma “geral” da polícia, as vezes mais de uma vez durante a semana.

O punk rock surgiu justamente como uma proposta musical radicalmente contrária à opressão exercida pela classe dominante. Punk de “direita” simplesmente não existe. Se é de “direita”, não é punk.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop