quarta-feira, 16 de setembro de 2020
Nada Pop

Parte 3 – Diário póstumo da tour pela Europa do Desacato Civil

Desacato Civil – Foto: arquivo da banda

Caso não tenha lido a primeira e segunda parte desse diário clique AQUI (parte 1) ou AQUI (parte 2).

Terceira parte da série é uma continuidade da loucura. Na parte dois estávamos na correria, mas era o Sprint inicial, então o cansaço não pesava porque a empolgação da novidade compensava, porém a partir de Bristol o peso da correria começou a bater na porta. De Londres saímos do squat que estávamos com os nossos novos amigos, pegamos um busão pra voltar pro bar que tocamos pra encontrar a nossa segunda van. A jornada iniciou com um problema, pois por uma falha de comunicação com o motorista da van, descobrimos que a van tinha lugar para 5 e estávamos em 7! Depois de algum debate conseguimos convencer o velho Richard de que pagaríamos a multa se desse alguma merda com a polícia em alguma possível blitz na estrada.

Lá o underground tem uma estrutura meio sólida e motorista de van de bandas é uma profissão mesmo, os caras vivem disso. Por isso as vans já são formatadas especialmente pra esse fim. Em todas que pegamos elas tinham uma madeira que separava o teto da van dos bancos, e isso cria um espaço para colocar um colchão para o motorista descansar. A solução encontrada para essa sobrecarga de passageiros foi enfiar 2 pessoas nesse buraco e nos apertarmos nos bancos. Dessa maneira, partimos para Bristol! O Richard dirige van para banda desde o começo do punk, tá nessa profissão há mais de 40 anos. Ou seja, é um senhor idoso de saco cheio de bandas, pois aquilo é o trabalho dele. Ranzinza, ácido e de saco cheio. Ele disse que já tinha dirigido para várias bandas brasileiras, como o Ratos de Porão, por exemplo. E certamente, dirigiu com a mesma van amarela que em 2019, com a diferença que agora a ferrugem começa a corroer a lata.

Partimos para Bristol com o Richard xingando geral no trânsito e sendo um guia turístico às avessas. Um guia turístico normalmente fala o lado positivo da paisagem. O Richard mostrava para nós o lado ruim das coisas da Inglaterra e do século XXI. O pior é que em muitas coisas ele tinha razão mesmo.

Bristol – Inglaterra

Chegamos a Bristol e a cidade parecia um cenário de seriado de televisão. Tem uma aparência daquelas vilas de brinquedo de parque temático para crianças. É notável a diferença de Londres, que é uma capital urbana mundial com Bristol e seu ar pacato de interior. Bristol era um dos lugares da tour que tínhamos bastante expectativas, por já conhecer a galera de lá. Punky Steeve que é o britânico punk mais brasileiro que existe. Segundo ele, o punk brasileiro é o melhor do mundo e por esse gosto está por aqui no Brasil muitas vezes para curtir um som.

Outra coisa é que Bristol é a sede de um time alternativo de lá que se chama Easton Cowboys e Cowgirls. O time é antifascista e já jogou em Chiapas com os Zapatistas, vieram para o Brasil algumas vezes fazer intercâmbio com o Autônomos FC e joga sempre no torneio de futebol alternativo com outros times brasileiros, como o Rosanegra ADF e o Catadão FCA. Ou seja, já tínhamos uma ligação prévia com a cidade e com a cena de lá. Chegando no pub que íamos tocar conhecemos o Craig, o organizador do nosso som do coletivo Scum. Na porta do pub o pessoal do som nos disse: “Já vou avisar a vocês antes já pedindo desculpas pelos nossos equipamentos simples. O lugar é pequeno então a gente não tem ótimos equipamentos.”. Respondemos que ok, nem passou por nossa cabeça ser um problema. Quando entramos para ver os equipamentos simples eram uns baita Marshall! Eles não conhecem o punk no Brasil mesmo! Quando alguém fala que o equipamento é ruim aqui, é por que se trata de uma caixa do tamanho de uma TV de 12 polegadas. As realidades são muito diferentes mesmo, para nós o equipamento mediano deles é muito foda!

Antes de entrarmos no “The Chealse Inn” fomos conhecer o pub sede do Easton Cowboys & Conwgirls. O pub ficava na outra esquina. Chegamos lá e na porta já estava um cara todo sorridente com um copão de cerveja na mão saudando a gente! É o Ângelo, dono do bar e integrante do time. Ele conhece os brasileiros por já ter vindo para cá devido a um intercâmbio com o Autônomos FC. O bar é sensacional! Decorado com fotos, bandeiras e símbolos de times e torcidas antifascistas do mundo inteiro. A galera que frequenta o bar é muito gente boa. Do Brasil já fomos avisados sobre esse pub!

Atravessamos e voltamos pro Chealsea Inn que também é outro lugar muito parecido com o The Plough. O pico encheu! Os punks desse rolê de Bristol eram mais velhos que os de Londres. E eles têm um caráter mais de colecionador de música. Todo mundo que trocamos ideia era tipo uma enciclopédia de bandas. Eu me hospedei um dia na casa do Craig e se pegasse tudo que tem na casa sobre o punk poderia (sem exagero) fazer facilmente uma exposição no Sesc! A parte da banda que foi na casa do Punky Steeve disse e mesma coisa. Banda do Brasil que nem a gente tem mais, zines do punk asiático, etc. E não deu outra, de todos os sons até então foi o lugar que mais gente se interessou pela nossa barraquinha de merch. A galera comprou várias camisetas, zines, CDs. Muita gente que tava no show ia colar no Rebellion em agosto, pra trampar ou para assistir. Então a galera se interessou bastante no nosso som.

Quando começaram as bandas mais uma vez deu aquele baque. “Putz, a gente vai tocar depois dessa banda foda?”. Antes da gente tocaram as bandas No Pulse e Burning Flag. No Pulse o baterista é um músico de outro mundo. E Burning Flag chama muito atenção de tão boa que é a banda. O vocal e a presença da vocalista Md é uma coisa muito cabulosa. Não vou me estender na descrição, ouçam e tirem as próprias conclusões. Uma coisa que ficamos pensando é o quanto de bandas boas atuais existem nos outros países, e normalmente a gente aqui só conhece bandas clássicas e eles por lá também são assim em relação ao Brasil. É uma coisa que voltamos dispostos a modificar, pelo menos entre a gente. Deixar um pouco os discos clássicos de lado para ouvir o que tá acontecendo agora.

Dormimos da casa da Ruth e do Dick, um casal de amigos nossos. De manhã nos encontramos com o Richard e sua van amarela e adivinhem só, a van quebrou! E por ser domingo só teria loja para comprar a peça no outro dia. Dessa forma, esticamos mais um dia em Bristol, ficamos no Plough assistindo a copa do mundo de Cricket e trocando mais ideia com o pessoal. Bristol foi muito legal, a recepção foi ótima, nos sentimos em casa mesmo.

Nuremberg – Alemanha

De Bristol o Richard despejou a gente em Londres na casa do nosso camarada Lituano, o Paulius. Ficamos por lá para sair nas primeiras horas do dia seguinte para Nuremberg. Logo de madrugada, pegamos um Uber para ir a rodoviária que nos levaria ao aeroporto. Tivemos que nos dividir em dois carros devido a quantidade de malas e por questão de segundos não perdemos o ônibus! Pegamos o ônibus e novamente pegamos outro Ryanair. Ficamos especialistas em aeroportos e aviões desconfortáveis, esse foi um dos saldos da viagem! Chegando a Nuremberg a impressão que deu é que estávamos em uma cidade futurista. Nuremberg é uma cidade hiper organizada, tudo funcionando dentro de uma lógica completamente racional e planejada. Dava para lamber o chão de tão limpo. E no metrô só se ouvia a gente falando, a cidade é muito silenciosa. As pessoas falam pouco, os carros são novos e por isso não fazem barulho, o trânsito não é caótico. É a antítese de São Paulo! E isso às vezes enche o saco para nós que estamos acostumados a falar em excesso até quando não temos assunto.

Chegando lá o show seria bem mais tarde, por isso procuramos algum hostel para deixar as malas e descansar um pouco. Andamos uma cota e encontramos um hostel cujo a dona era uma Russa que só falava russo e alemão. Abusamos do Google Translate na negociação e mesmo assim não foi fácil. Posteriormente, descobrimos que o hostel ficava em um andar acima de um bordel! E que a rua que estávamos era o local do submundo de Nuremberg, a Red Street. O que impressionou é que só percebemos isso quando falaram para a gente, por que normalmente uma rua com essas características aqui no Brasil seria facilmente perceptível. Lá não, o silêncio, organização e cara de limpeza prevalecem mesmo no submundo, pelo menos até onde conhecemos. Só quando anoitece que se nota algo diferente, pois as luzes dos postes ficam vermelhas e os banners dos estabelecimentos ficam com mais cara de jogatina e putaria. Andando um pouco mais pelas ruas encontramos uns sobrados onde as minas ficavam em uma espécie de janela trocando ideia com a galera que passava pela rua. E tudo isso, de forma ainda silenciosa, porém agora nada discreta!

Colamos para o som no Kantine, que é um pico com uma ótima estrutura de show. Diferente das casas de São Paulo, o pessoal que gere o espaço liberou para a gente a comanda e deu rango à vontade. Uma coisa que é muito comum, pelo menos nos lugares que tocamos, é que em todos os shows tem rango para as bandas. Umas panelonas pra todo mundo se servir. A recepção foi ótima. Por ser em uma segunda-feira achávamos que o público seria bem pequeno, mas até que foi uma galera assistir! Quando terminamos de tocar fiquei com a sensação que a galera não curtiu o som. Mas depois das outras bandas se apresentarem deu pra sacar que é a forma como a galera vê show mesmo. Nesse em específico, a galera presta mais atenção na música, fica na sua sem dançar, etc. Uma coisa que notei é que o pogo é uma coisa bem brasileira, não vi em lugar nenhum coisa parecida (mesmo quando tocamos na Argentina) e quando pogamos era só a gente que curtia os sons dessa forma!

Nesse dia tocou a banda Moment of Truth, que é um punk rock de Nuremberg, que tem uma mistura de muitas influências! Refrões melódicos e grudentos, ao mesmo tempo com um peso nas guitarras com influência de metal nos vocais. A outra banda que tocou no dia foi A Point Of Protest. O que chamou atenção é a presença de palco do vocalista. O cara tinha um cabo muito gigante que andava o pico inteiro enquanto a banda tocava. Nunca tinha visto coisa parecida! O vocal deitou no bar até!

A galera trocou bastante ideia com a gente sobre a palestina após ouvir nosso som e ler sobre o tema no zine que levamos. Um dos caras em que sua família era judia deu a visão do ponto de vista sobre quem viveu o conflito de perto. Essas partes da tour de falar sobre política foi um dos pontos altos, em cada país a situação é diferente e a forma de analisar as conjunturas tem suas especificidades.

Acabando o show outro personagem bastante importante da tour encontrou a gente. O Manoel, fã de futebol que também conheceu a gente no Brasil, hospedou a gente na cada dele na cidade de Regensburg. O lugar é um sítio com uma casa que tem “apenas” 700 anos! Ficamos por lá com a maior hospitalidade possível! Depois de um dia de descanso colamos para a sede dos utras do time da cidade de Regensburg. Fizemos uma conversa com eles sobre as torcidas organizadas brasileiras, o futebol moderno no Brasil e sobre a Copa do Mundo de 2014 e as merdas que vieram dela. A conversa durou 4 horas! A gente falava em português, a Paola traduziu para o Inglês e o Manoel traduzia para o alemão. Foi bastante cansativo para os tradutores, mas no final foi muito legal a conversa e a troca de experiências.

Praga – República Tcheca

Da Alemanha partimos para Praga! E realmente é bem o que dizem, a cidade é muito bonita mesmo. Os prédios não foram destruídos e por isso a arquitetura da cidade é bastante impressionante. O centro é exageradamente turístico. Muito turista, guias, bonecos gigantes de bichos esquisitos, bugigangas de todo tipo, artistas de rua pra todo lado pegando umas moedas. Depois trombamos nossa amiga Lenka (que morou uns anos no Brasil) e ela nos disse que existe uma militância no país contra esse excesso de turismo, pois torna a cidade estritamente um cenário de consumo em que os visitantes não estreitam nenhum laço com os moradores. E isso faz com que a especulação imobiliária aumente e jogue os tchecos para mais longe da cidade devido ao aumento dos preços da moradia. O Airbnb nas cidades mais turísticas na Europa é uma praga (e não é um trocadilho com o nome da cidade). Os proprietários alugam os imóveis para esse fim encarecendo ainda mais os custos de vida inviabilizando a moradia dos trabalhadores. A gentrificação é um tema que é bastante debatido em todos os lugares em que passamos.

Pegamos o busão depois de algumas batidas de cabeça e chegamos ao lugar para tocar. Já chegando os punks estavam na porta e os punks de lá me lembrou muito do filme “Em caso de incêndio, deixe queimar” (fica a dica fílmica). Tocamos com a banda Unsolved Case nesse dia. Na madrugada demos um rolezaço na cidade com a Lenka como guia histórica, umas 3 horinhas de caminhada por Praga. Depois voltamos para dormir no bar e quem disse que os punks estavam dormindo? A festa às 4 da manhã ainda tava rolando e só parou quando amanheceu. A gente não conseguiu acompanhar, mas em uma acordada ou outra a gente ia percebendo em que pé estava a festa. Depois, no outro dia, quase não saímos do bar porque o dono do bar não acordava nem a pau e a porta tava trancada, quando conseguimos sair depois de muitas técnicas para despertar o rapaz, pegamos o metrô sem pagar o tíquete e fomos pegos pelo fiscal que deu a opção: ou vocês pagam 40 euros cada ou levo vocês para explicar na imigração! Fizemos a opção 1 e perdemos 280 euros! Imaginamos que a imigração não seria tão compreensiva com a gente e tinha uma grande possibilidade de perdermos o ônibus de volta para Nuremberg! Não vou nem converter o que é 280 euros em reais para não terminar o texto deprimindo quem tiver lendo.

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Sobre o autor

Suna

Suna é um dos editores do Nada Pop.