quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

Os homens me afastaram da cena

Foto pela autora do texto “Os homens me afastaram da cena”.

Eu já fui uma pessoa ativa na “cena”, organizei shows com bandas de fora da minha cidade, frequentava todos os shows da quebrada, tinha banda e sempre que podia ajudava a fazer acontecer aquilo que eu acreditava.

Ser mulher na cena não é fácil, além de sentir que nem todos botam fé no que você faz, você tem que suportar as bandas com músicas machistas e os flyers de eventos sempre objetificando o corpo feminino.

Sempre me incomodei em ver o palco cheio de homens e a plateia com poucas mulheres que muitas vezes eram as namoradas de quem tava tocando, mas hoje em dia entendo e tenho cada vez menos vontade de tocar. A minha banda não fez sucesso, tocamos poucas vezes ao longo dos anos e lançamos um CD e alguns singles, mas a animação de participar da cena e subir nos palcos sempre me movimentou e foi combustível pra fazer tudo que eu fiz. Hoje em dia, algumas pessoas me perguntam porque eu sumi do rolê. Porque não apareço mais nos shows e não encontro mais a minha galera. Os motivos são esses :

Em uma viagem com uma banda de amigos para tocar em São Paulo sofri o primeiro abuso dentro da cena. A noite regada a cerveja começou com um amigo próximo dizendo que me achava muito “gostosa” e que aquela seria uma ótima noite para ficarmos, respondi dizendo que ele estava muito bêbado e que não deveria trair sua esposa. A noite foi passando e esqueci dessa conversa que teria um final trágico anos depois.

Durante o show de uma das bandas um rapaz que estava acompanhando um amigo disse que queria conversar comigo e me chamou para ir pro lado de fora do bar. Sem pensar duas vezes o acompanhei, ao sair do bar ele me colocou contra a parede e começou a me beijar enquanto passava a mão pelo corpo descendo até as minhas partes intimas, demorou um tempo para que eu conseguisse fazer com que ele parasse empurrando-o para longe de mim. Voltei pra dentro do bar e fingi que nada tinha acontecido apesar de perceber os olhares dos meus amigos. No meio da roda punk o mesmo rapaz começou a me abraçar, tentando me beijar. Tive que chamar os amigos várias vezes pra que o afastassem de mim. A noite terminou e pra mim aquilo não se passou do efeito do álcool em um punk qualquer.

Os anos se passaram e em uma noite indo de um show para outro com o amigo que dissera que queria me pegar mais um evento de abuso. Ele, muito atuante da cena e amigo de longa data começou a passar a mão em mim enquanto eu dirigia o carro, falando palavras de cunho sexual ele tirou seu pinto pra fora da calça e começou a se masturbar, tirou minha mão do volante e passou em seu pênis enquanto sua esposa nos aguardava no show. Mais uma vez disse pra mim mesma que era a culpa do álcool misturado com pó que ele tinha consumido. O tempo passou e continuamos amigos, até que um dia a ficha caiu.

Alguns anos depois, na minha festa de aniversário, um amigo que conheci com meus 15 anos decidiu que também podia me beijar sem a minha autorização, apesar de casado disse que seríamos um ótimo par e que deveríamos ficar em um dos quartos da casa. Pensei “mais um punk bêbado na minha vida”.

Parei de frequentar shows, parei de falar com os amigos que tínhamos em comum, a banda que tínhamos acabou, não voltei a tocar e a guitarra nova não sai mais da caixa. Não preciso ouvir conselhos sobre como devo fazer terapia, porque já faço e tomo três remédios para tentar me manter sã.

Estou extremamente cansada pra ter que lutar pra ser respeitada e alcançar um espaço, tenho preguiça de ir pro bar encontrar as pessoas que são amigas dos meus abusadores e dói ver todos juntos como se nada tivesse acontecido. Cada vez menos tenho vontade de me envolver com a cena. A cena é machista.

Tenha noção do tamanho das suas atitudes enquanto homem, não aceite que seus amigos e colegas se sintam no direito de abusar das mulheres só porque estão bêbados.

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O Nada Pop se solidariza com a autora do texto,
uma amiga que prefere manter o anonimato.
O punk/ hardcore deveria ser um refúgio,
não mais um lugar de abusos.
Homens, respeitem as minas, isso não é o mínimo,
é seu dever como ser humano. 

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Sobre o autor

Redação Nada Pop

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