segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Nada Pop

Manifestações contra o Bolsonaro e “apagão” marcam o Oxigênio Festival 2019

Mesmo com problemas de energia que interromperam e até cancelaram shows no 3º dia do evento, a sexta edição do Oxigênio Festival foi plural, política e tem chances de se tornar ainda mais relevante nos próximos anos

Oxigênio Festival 2019 – Foto: Maurício Martins

Foi com certa desconfiança que os fãs mais fervorosos do hardcore receberam o anúncio do line-up do Oxigênio Festival 2019. Pela primeira vez em seis anos o evento deixou de focar apenas no hardcore/ punk para abrir espaço a outros gêneros, alguns totalmente diferentes, como música folk e Sala Espacial (que de tão esquisita preferimos deixar o nome da banda ao invés de classificá-la em algum estilo).

Ao todo, nos três dias de festival que foi realizado de 13 a 15 de setembro, 38 bandas, dois palcos e até um karaokê band estavam programados para agradar, literalmente, todos os públicos. Inclusive, houve uma votação para que outras três bandas, que se inscreveram para participar do evento, pudessem abrir o festival. As bandas que receberam mais votos foram Sapataria, Nemodes e Emmercia. Cada uma delas abriu um dos dias do Oxigênio.

Além disso, três fliperamas com jogos dos anos 1980/90, entre eles o Street Fighter e Mortal Kombat, estavam disponíveis ao público. Outra proposta interessante foi a inclusão de workshops que ensinavam sobre a produção de zines, silk e lambe-lambe e até bottons. Obviamente, não faltou a barraca de merchandising das bandas e também do evento, entre CDs, camisas, adesivos, posters e copos. Os preços variavam bastante, mas aí dependia do gosto, grana e vontade de cada um. Acabei comprando um copo do Oxigênio, com a arte do cartaz deste ano, pelo preço de R$ 10.

Um dos fliperamas disponíveis no Oxigênio Festival.

Comida e bebida nesses festivais invariavelmente não são baratos, devo ter deixado no mínimo uns R$ 150 reais nos três dias do Oxigênio. A cerveja, só vendiam Budweiser, custava R$ 10. Um lanche simples, como hot-dog, era o mesmo preço da cerveja. Um hambúrguer ou uma bebida mais “caprichada”, não saia por menos de R$ 20. Não dá para achar justo um preço desses, mas segue o jogo.

Antes de falar um pouco dos shows, teve ainda uma cabine fotográfica da Vans, que foi provavelmente um dos lugares mais frequentados do público. Três fotos que poderiam ser tiradas individualmente ou em grupo. Confesso que não sei se essa cabine existia em outros eventos do Oxigênio, mas foi uma agradável surpresa.

1º dia do Oxigênio: O Inimigo, Bayside Kings, Sugar Kane, Dead Fish, CPM22, Karaoke Band e Teco Martins & Sala Espacial

Na sexta-feira (13), o festival estava previsto para começar às 19h30. Cheguei com 10 minutos de antecedência, mas o público só começou a entrar no espaço às 20h20. Quase uma hora de atraso. Nesse período, fui “jantar” um lanche na esquina do evento. Lembra que reclamei do valor do lanche dentro do espaço? Lá fora não era muito melhor. Talvez pelo local dos shows, na Via Matarazzo, entre o Villa Country e a Audio Club, os preços não me surpreenderam tanto.

Ouvi de algumas pessoas que o Via Matarazzo era um “puxadinho” da Audio. Acredito que era uma “brincadeira”, pois foi uma boa escolha o local do Oxigênio. Sendo perto de um metrô, neste caso do da Barra Funda, reclamar do local seria realmente um exagero.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por Nada Pop (@nxdapop) em

Além de encontrar o German Martinez, do site Raro Zine, sempre simpático, também encontrei outros amigos e conhecidos desse rolê hardcore – sempre branco, masculino e hétero em sua maioria, diga-se de passagem. Ao entrar, dei de cara com o show da banda Emmercia rolando no palco “Side Stripe”. Apesar do grupo dizer em sua página oficial no Facebook que são uma banda de “rock nacional como você nunca ouviu!”, fiquei realmente surpreso com o pouco que vi do show. A mistura de sintetizadores com o peso de guitarras, baixo e bateria até que funciona bem ao vivo. O vocal melódico também foi prazeroso de ouvir, mas as letras me pareceram um pouco abstratas para o meu gosto pessoal. “Meus degraus são planícies de prédios deitados; os tetos estão para os olhos como o chão está para os cegos”, frase da música “Cegueira Branca”. Não costumo dar notas para bandas ou shows, mas para a Emmercia daria uma nota 8. Se ainda existisse aquele programa “SuperStar”, da TV Globo, os caras teriam chances de ganhar.

Em seguida, foi a vez do Bayside Kings, mas no palco principal, chamado “Off the Wall”. Os shows do BK são sempre sólidos, coesos e o Milton com aquele tipo de vocal de guerra que impressiona. Pode-se dizer que até Jesus Cristo resolveu participar do pogo durante o show. Antes de estranhar essa frase, saiba que teve alguém vestido/fantasiado de JC no primeiro dia do Oxigênio. É impressionante o interesse em chamar a atenção de algumas pessoas, mas não dá para negar que deu certo.

Mas voltando ao show, durante algumas pausas entre as músicas, o peso da banda se mesclava com as mensagens de força e união do Milton, que se revelavam intensas com cada mensagem. Antes do encerramento do show, dizer para o público que estava ali querendo se divertir, muitos deles jovens, que todos eram responsáveis por todos, foi de arrepiar. Nota 10.

A karaokê band, que rolava no palco “Side Stripe”, foi interessante. Com a música previamente agendada, a pessoa poderia subir ao palco e cantar o som escolhido com uma banda de verdade. Na teoria, é realmente divertido, mas na prática, foi só para passar o tempo durante um certo período dos intervalos dos shows. Além da desafinação de muitos, outros sequer sabiam as letras das músicas que tinham escolhido com antecedência.

Logo depois do Bayside, subiu ao palco o Sugar Kane. Capilé e banda entoaram as grandes músicas do grupo, como “Fui Eu”, “Paciência pra Burrice”, “Por Que Não?”, “Despedida” e várias outras. O público cantava uma atrás da outra com a mesma intensidade. Rolou até participação do Ric Mastria (se você não sabe quem é, bom, preciso mesmo explicar?). Um resumo do show: nota 10. Não tem muito o que dizer, o som rolando, a banda desempenhando e o público participando… Dá para querer mais? Acho que não. Em alguns momentos a banda criticava o governo e o atual presidente da República. Rolou apresentação até de música nova referente a situação das queimadas no Norte do país. Sugar Kane, depois de cinco anos, tocou uma faixa inédita chamada “Nuvem Negra”. Música que conta com coautoria do João, do Molho Negro.

Nos intervalos do palco principal, do outro lado, o show não parava. O Inimigo no “Side Stripe” entoava as canções do seu mais recente álbum, o “Contrariedade”. Os caras iniciaram no show uma campanha de doação para os moradores da Ocupação Alcântara Machado, que moravam embaixo do viaduto de mesmo nome, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Um incêndio recente havia consumido cerca de 50 barracos. O dinheiro arrecadado seria usado para comprar materiais e alimentos para ajudar as famílias que moravam nessa ocupação. A campanha foi seguida praticamente durante todo o festival, com pedidos de doação do Dead Fish, CPM22, Nervosa, entre outros.

No palco “Side Stripe” também rolou o show do Teco Martins & Sala Espacial. Bom, isso é tudo o que você precisa saber.

O Dead Fish subiu ao palco com o público aguardando ansiosamente pela banda. Não dá para negar que o espaço ficou pequeno para o tanto de gente que preencheu o lugar. Rodrigo começou o show cantando “A Inevitável Mudança”, daí em diante as músicas do álbum “Ponto Cego” foram tocadas com quase todos cantando ao mesmo tempo com a banda. Rodrigo mesclava críticas ao governo, mensagens de luta. Rick destruía a guitarra e o Marcão debulhava a bateria sem dó. Músicas como “Sonho Médio” e “Afasia” encerraram o show. Cheguei a pensar que o local esvaziaria em seguida, mas não. O show do CPM 22 estava para começar.

Não fiquei até o final do show, o cansaço bateu em mim. Mas foi possível perceber que o Badauí e companhia conseguem atrair um público muito forte aos shows. Mesmo com os atrasos mais cedo, praticamente ninguém quis ir embora. Tanto para o Dead Fish quanto para o CPM 22 não darei nota, pois convenhamos, é desnecessário.

Caixinha de doações no Oxigênio.

2º dia do Oxigênio: The Mönic, Ratos de Porão, Molho Negro e Nervosa

No segundo dia de shows fui determinado a assistir algumas bandas, pois todas não conseguiria de jeito nenhum. A primeira delas foi a The Mönic, quarteto formado só por mulheres. Não sabia o que esperar do show, pois mesmo conhecendo o disco “Deus Picio”, nunca tinha assistido o grupo ao vivo.

Foi com uma surpresa impressionante que a banda acertou a minha cara com um chute sonoro. As faixas “Mexico”, “Scars and Cigarettes”, “Permission”, “And & I” e “Just Maldizer” são ainda mais interessantes ao vivo. Durante o show, a banda citou o caso da Taynara Cristina dos Santos, de 31 anos, morta pelo ex companheiro que não aceitava o fim do relacionamento. O assassinato aconteceu no dia 10 de setembro. Um detalhe desse caso é que a banda conheceu e trabalhou com a Taynara durante o projeto Casa de Música Escuta as Minas, do Spotify. A violência contra às mulheres acontece todos os dias e precisamos combater de fato esse machismo, principalmente esse que mata.

Logo depois, o “power trio” Ratos de Porão fez um show nada protocolar mesmo com a ausência do João Gordo, que vem restabelecendo a saúde após ficar internado por pneumonia. Jão, Boka e Juninho simplesmente fizeram um show sem muitas falas, rápido, direto e com a mesma energia de sempre. Ou seja, não há show ruim do RDP. Ponto final!

No mesmo palco, o “Off the Wall”, tocou depois o Molho Negro. Um dos melhores shows do Oxigênio Festival 2019. João, guitarra e vocal, domina o público e tem tudo sempre sob controle. Infelizmente, não tocaram “Fim do Mês” e nem “O Jeito de Errar”, mas fizeram o pogo pegar fogo e até participaram dele. Houve um momento que a guitarra foi largada na mão de outra pessoa. Mesmo com algum problema causado no amplificador do baixo, que simplesmente apagou o som do instrumento do Raony já perto do fim do show, não houve consequências maiores. Se alguém perdeu esse show, melhor garantir presença nos próximos do Molho Negro.

Confesso que achei estranho ver a Nervosa no palco “Side Stripe”, que era menor. Banda de thrash metal conhecida no exterior merecia um palco a sua altura, elas estão se tornando um Sepultura/ Ratos de Porão em relação ao reconhecimento e o show, junto com a performance pareceu um pouco limitada para o palco que foram colocadas. Também rolou pequenos problemas na voz da Fernanda no início do show, mas em seguida foi resolvido. Peso, qualidade, técnica e carisma. Isso resume o show da Nervosa.

3º dia do Oxigênio: Sapataria, Wiseman, Charlotte Matou um Cara, Armada e Violet Soda

Exausto, pé doendo e mesmo assim esperançoso por ver o show da Sapataria e da Charlotte Matou um Cara. E as minas não decepcionaram nenhum centímetro sequer. Sapataria é um quarteto queercore só de mulheres, foram uma das bandas escolhidas pelo público para abrir o Oxigênio. Formada em 2016, em São Paulo, a banda vem se destacando na abordagem de temas referentes ao lesbianismo e feminismo. Durante a apresentação, divulgaram um zine com as letras das músicas totalmente gratuito. Ideias simples e que fazem a diferença. Como disse a guitarrista, uma banda formada só por mulheres estarem no palco do Oxigênio Festival, representa que outras mulheres podem estar lá também. E devem estar lá.

Antes da Charlotte, foi o Wiseman que começou o trabalho no domingo no palco “Off the Wall”. Por cantarem em inglês, o público fica sempre com a cara do tipo “mas o que que é isso?”. Um show estilo Bayside Kings, conciso, coeso e direto. Focaram o show no álbum “Mind Blow”, estavam com a bandeira “Marielle Presente”. Mereciam mais reconhecimento do público, mas é provável que isso aconteça primeiro lá fora (estrangeiro) e depois aqui.

Finalmente, Charlotte Matou Um Cara. Apesar de sentir uma certa mistura entre o som da guitarra e baixo, o riot girl estava totalmente representado. Na página da banda no Facebook, elas contam que o nome do grupo faz referência a Charlotte Corday, que matou Jean-Paul Marat durante a Revolução Francesa.

O som intenso do punk com a letras politizadas faz com que a Charlotte seja uma banda de referência para muitas outras, no qual muitos homens com bandas deveriam também prestar atenção. Músicas como “Abaixo o patriarcado”, “Rosários” e o hino “A rua é um campo de batalha” foram algumas das músicas que tocaram no Oxigênio, sendo um dos principais destaques deste domingo.

Em seguida, o Armada também tocou no palco “Off the Wall. Ou melhor, o Blind Pigs. Corro o risco de ser achincalhado pelo Henrike, mas convenhamos, a maior parte do repertório da banda no show deste domingo foi em cima das músicas dos Porcos Cegos. Mas isso não é demérito, ao contrário. A própria banda sabia disso e fez a alegria de muitos fãs do Blind Pigs quase chorar de alegria por ouvir músicas como “Sete de Setembro” e “O Idiota”.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por Nada Pop (@nxdapop) em

O baixista oficial da banda estava em algum lugar da “Disney”, como a banda brincou, e para substituí-lo o Paulo Rocker, ex-Gramofocas, foi convocado. Um show que ficará marcado pelo posicionamento político mais enfático do Henrike, chamando de fascista o atual governo em alto e bom tom. Excelente!

Errata: Depois da publicação do texto, a assessoria de imprensa do Armada entrou em contato para explicar que o show da banda não foi pautado pelas músicas do Blind Pigs. A assessoria, inclusive, até enviou o set list do show marcando as músicas que eram dos Porcos Cegos. Faço a publicação do set list e a correção solicitada pela assessoria. Talvez tenha me empolgado nessa (mea culpa). De qualquer forma, essas quatro músicas do Blind Pigs foram cantadas em plenos pulmões pelo público.

Set lista da banda Armada, enviada pela assessoria de imprensa do grupo. Como é possível ver, apenas “quatro” músicas eram do repertório do Blind Pigs.

O último show do último dia que assisti no Oxigênio foi o da Violet Soda. Uma banda já embalada para o sucesso de público, crítica e de marketing. Consigo ver até uma possível mudança de estilo na banda, deixando de cantar em inglês para focar no português e nas rádios de todo o país. Caso isso realmente aconteça, o jeito é esperar que dê certo, pois com essa atual formação o caminho poderá ser de muito mais conquistas. Todos da banda possuem uma ótima presença de palco e o Pindé, como sempre, engole a bateria. Não à toa que é um dos melhores bateras em atividade no Brasil. Karen, além de cantar como poucas vezes se viu no rock tupiniquim, também é uma letrista que sabe fazer refrões que grudam na cabeça, basta ouvir o novo lançamento do grupo chamada “I’m Trying”.

O Oxigênio Festival 2019 tinha tudo para encerrar com total sucesso e o sentimento de que o próximo evento será ainda melhor. No entanto, o evento sofreu um apagão já no final do show da banda Strike. Apesar das tentativas de sanar os problemas, não teve muito jeito. A luz não voltou e o show da Far From Alaska foi cancelado e o grupo Francisco El Hombre tentou fazer um set acústico, ali mesmo com os fãs no escuro, que durou poucas músicas.

Confira a nota pública do evento sobre esse problema:

As últimas horas do terceiro dia do Oxigênio Festival 2019 contaram com uma imprevisível queda de energia por volta das 19h45 em um dos palcos, quando a banda Strike encerrava a última música do set.

O incidente foi responsável pelo atraso da programação do evento e, consequentemente, do início da próxima atração neste palco, o Far From Alaska, além da última banda deste domingo (15/9), Francisco El Hombre.

O outro palco apenas foi afetado porque teve a energia desligada para o trabalho da equipe técnica.

O atraso subsequente para o reinício dos shows, informam as produtoras responsáveis pelo festival, Gig Music e Hangar 110, se deram pelo tempo da equipe de som fazer todas as conexões e ajustes necessários na aparelhagem de palco, completamente perdido devido a ausência da energia.

Apesar de todos os esforços, foi inviável a realização dos dois últimos shows porque o gerador ao acionado, queimou os esquipamentos de som. Alguns equipamentos foram drasticamente comprometidos.

Para compensar, a Far From Alaska realizará um show no The House (São Paulo), com data e local a serem definidos em breve, a todos que apresentarem ingressos do terceiro dia do Oxigênio Festival.

Já o Francisco El Hombre realizou um acústico na pista, junto aos fãs, logo após o anúncio do cancelamento do show convencional.

As produtoras lamentam o ocorrido e se colocam à disposição para demais esclarecimentos. Ressalta-se que todos os esforços foram empregados para a volta da normalidade do evento, assim como as produtoras estarão à disposição para dar todos os esclarecimentos necessários sobre o ocorrido, que infelizmente fugiu do nosso controle.

Pedimos sinceras desculpas a todos os amigos, fãs, bandas e parceiros que tenham sido prejudicados com o ocorrido, estamos igualmente frustrados por perder esses dois grandes shows e com o tempo de espera.

Considerações finais

Sim, o festival precisa melhorar em alguns aspectos. A cobrança por mais mulheres no line-up é mais do que válida, uma necessidade inerente a pluralidade da própria música, mas não há como negar que hoje, o Oxigênio Festival é um dos maiores eventos voltados ainda ao hardcore e rock alternativo. Mesmo com os problemas que aconteceram no último dia do evento, é provável que o Oxigênio cresça ainda mais e possa dar ainda mais espaço e voz as bandas que realmente fazem um bom trabalho e se dedicam a música com a mesma paixão que os fãs.

Para ver alguma das fotos que tiramos durante o festival, basta clicar na imagem abaixo para ser direcionado ao Flickr.

Oxigênio Festival 2019

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop