sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

Entrevista Danieli Baldassari – O Hardcore Contra o Fascismo vindo do Sul do Brasil

Danieli Baldassari em Cuba – Foto: arquivo pessoal

Danieli Baldassari é uma porto-alegrense nascida em março de 1990, no Dia Internacional da Mulher (8). Loira, bonita e designer profissional, atuando principalmente com interface e experiência de usuário, suas escolhas poderiam levá-la a um caminho mais confortável diante do mundo. Mas não, definitivamente não.

A Dani, como também é conhecida, é uma das organizadoras do Hardcore Contra o Fascismo, no Rio Grande do Sul. Além disso, também produz shows de hardcore e incentiva bandas a tocarem no Sul do Brasil. O próximo show organizado pela Dani, ao lado da Abstratti Produtora, será o lançamento do álbum “Ponto Cego”, do Dead Fish, no Bar Opinião, localizado em Porto Alegre.

Antes de começar esse papo, perguntei quem era a Danieli Baldassari e como ela se enxergava nesse mundo e, para concluir essa primeira questão filosófica, se ela acreditava ter encontrado todas as respostas que buscava dentro de si.

“É uma pergunta que me faço diariamente e um dos motivos que acredito na terapia! Acredito que somos o que queremos ser e acredito também que sou uma Dani melhor que a Dani de ontem, e assim sigo! A gente edita né? (risos) Dizem que sou coração grande, e que tenho empatia demais, até quando não deveria. Sou a soma de tudo que acredito e gosto”, enfatiza.

Seja pela personalidade ou pela própria profissão, Dani explica que acredita em um mundo onde a informação deve ser sempre compartilhada. “Não consigo me ver de outra forma a não ser compartilhando sempre experiências, conhecimentos. Acredito muito em um mundo de trocas”.

Mas o que te agrada na música, em atividades profissionais, no mundo?

Eu gosto do que agrega e soma e também do diferente. Gosto de música que me faça pensar além da sua melodia. Busco sempre notar o conjunto como um todo, caso contrário não cola pra mim. Gosto de hardcore, gosto de RAP e vejo uma ligação profunda entre os estilos.

Como é o lugar onde você mora, não me refiro só ao ambiente, mas pessoas e lugares?

Porto Alegre é tri frio né! (risos) É uma cidade linda, eu gosto muito daqui, adoro receber amigos de outros estados, faço mapas, dou dicas culturais.

As pessoas são as mais variadas, diferente do que pensam aqui no Sul, igual ao resto do país na sua grande diversidade de ideias e culturas diferentes, apesar da fama de bairrismo, tradicionalismo forte, que são os motivos do meu desgosto e ranço.

O preconceito em geral tem tido grande abertura nos últimos tempos e aqui não vem sendo nem um pouco diferente. Mas a questão é como em todos lugares, sempre esteve presente, foi preciso a eleição de um boçal para que outros se sentissem confortáveis em compartilhar todo o preconceito e rancor guardado em anos.

Danieli “com a melhor banda no mundo, Descendents”, no Chile. Foto: Arquivo pessoal

Qual a sua primeira lembrança musical? E como o hardcore entrou realmente na sua vida. Em primeiro lugar como ouvinte/fã, e depois como organizadora de eventos HC?

Minha primeira lembrança musical é Raul Seixas, de chegar da escola e tá tocando Raul e meu pai empolgando cantando e fazendo o almoço. Ótimas lembranças! Ele é uma figura a ser estudado, marxista, protestante! Melhor pessoa! Lógico que este ambiente não afetou apenas a mim, como meu irmão também, pois ele é músico e professor de história.

O hardcore entrou na minha vida com um amigo, Luke, talvez lá em 2002. Estávamos na casa dele e ele me disse a seguinte frase: “você precisa escutar essa banda de reggae e punk que meu tio conheceu lá na Califórnia!”. É lógico que era NOFX, lógico que cheguei em casa e fui pesquisar sobre a banda e daí foi a ponta do iceberg, pois mergulhei a fundo nas “pesquisas”, conheci milhões de bandas e estilos.

Quando eu digo que estudei o hardcore parece mentira, mas é real. Eu chegava da escola e me grudava no computador pesquisando sobre bandas, entrando em fóruns de punk rock, anotando bandas na parede do meu quarto, passando horas baixando som. Tudo isso com internet discada!

Fotos da primeira edição do Hardcore Contra o Fascismo no Rio Grande do Sul – Fotos: Broken Heartz Fotografia

Gravava vários CDs pra mim, para amigos, para presente, enfim… Para todo momento eu tinha um disco! Mas é o tipo de coisa que qualquer pré-adolescente dos anos 2000 passou. Então, quando eu ia nos rolês, eu ia com meus amigos (homens), e para me afirmar merecedora daquele espaço, me sentia obrigada a saber tudo para bater de frente com os mais velhos (ou só os otários mesmo!) e mostrar que eu sabia sobre as músicas, sobre as bandas, para afirmar que eu era merecedora daquele espaço. O mais triste de tudo isso, eu conseguia explicar (olha que absurdo) que eu realmente gostava daquilo. Esse rolê me afetou bastante e me consider mais esperta que as outras meninas do rolê só me distanciou de muitas possíveis amizades. É a toxicidade masculina e preconceituosa que o hardcore me passou, eu reproduzia com outras meninas e outras pessoas.

Meu irmão e o irmão da minha melhor amiga sempre tocaram, tinham bandas e organizavam shows. Naquela época eu já curtia punk rock, mas os shows eram uma sopa de letrinhas, cada banda com um estilo diferente, tinha interesse em saber como eram feitos os rolês. E quando o irmão da minha amiga estava com um bar ajudei algumas vezes, fiz alguns aniversários que meus amigos tocavam com as suas bandas. Então na hora de produzir os rolês não foi algo tão monstruoso e obscuro.

E como tudo teve início em relação aos shows?

Ouça a resposta da Danieli no áudio abaixo. Só apertar o play!

Bom, após o rolê da Blackjaw, mantive contato e criei uma amizade com a Carol Folha (produtora das bandas Surra e Gangrena Gasosa), que é uma mulher que eu tenho um carinho enorme e também tenho como baita referência! Então, na época do primeiro Hardcore Contra o Fascismo, em São Paulo, estávamos conversando e ela lançou a ideia de trazer para Porto Alegre, já que diversas cidades tinham somando com o ato. Achei sensacional a ideia e a oportunidade de poder organizar algo FODA e que agregasse de verdade as pessoas.

Porém, tinha noção de que sozinha não conseguiria fazer algo tão foda como estava sendo nas outras cidades, então chamei dois caras, o Carlos Waltrick (baterista da clássica banda Atrack, aqui de Porto Alegre) e o Guilherme da Luz (vocalista da Inimigo Eu e proprietário da produtora AudioCore). Após os primeiros papos, já juntamos mais uma galera que somou junto!

Continuação das fotos da primeira edição do Hardcore Contra o Fascismo no Sul – Fotos: Broken Heartz Fotografia

Qual foi o momento que você percebeu que necessitava de uma mudança de paradigma sobre o comportamento que você avaliou como uma reprodução do machismo que você citou anteriormente?

Ouça a resposta da Danieli no áudio abaixo.

Depois dessa experiência com o Blackjaw, quais outras experiências surgiram com outras bandas?

O evento com a Blackjaw foi um investimento de energia muito grande para criar uma experiência que principalmente fosse diferente dos shows convencionais aqui em Porto Alegre. As bandas convidadas para o festival foram a Rezalenha, Visão Remota, Drop Inside, Marina’s Found e Newd.

Também convidei quatro tatuadores para um flash day no evento, rolou rango Vegan da Flag, teve chopp artesanal e diversos expositores, de brechó a ilustrações. Aliás, a ilustração do cartaz foi criação da Camilla Romero, uma baita artista. A criação do cartaz e dos demais materiais foram feitos por mim, já as fotos foram realizadas pela lente da Broken Heartz Fotografia!

Cartaz da tour da Blackjaw no Sul, organizado com auxílio também da Danieli.

Sobre as bandas que você mais admira no hardcore, o que essas bandas representam pra você?

A Blackjaw é uma das bandas que eu admiro! É daquelas bandas completas que tem o instrumental bem feito e as letras que impactam na mesma medida. Nesse sentido, tem o Garage Fuzz, donos do meu coração, além do Dead Fish.

O novo álbum do DF (Ponto Cego) não decepciona nenhum fã e traz exatamente o que esperávamos da banda, além de reforçar e trazer significado para tudo que acredito que seja o hardcore ou que, no mínimo, deveria ser: um espaço de fala!

Sobre o Hardcore Contra o Fascismo aí no Sul, como foi a organização e a realização do evento?

Eu estava trocando ideia com a Carol logo após ou durante o primeiro ato em São Paulo, então vi a necessidade/oportunidade de Porto Alegre também se posicionar e recebi boas doses de motivações da Carol. Daí parti pra cima!

Como disse, o Carlos Waltrick, Guilherme da Luz e eu organizamos e juntamos uma galera muito foda, que foram responsáveis para fazer esse ato político e musical acontecer e ser incrível. Conseguimos um engajamento entre todas as bandas que tocaram e daquelas que também não tocaram, com os integrantes das bandas ajudando como podiam.

A abertura do ato foi dada com a palestra “O que restou do Fascismo”, do Felipe Lazzari, que é doutor em Ciências Criminais, professor e vocalista da banda Atrack. Logo depois e durante os intervalos das bandas, a Luiza Brown, baixista e vocalista da banda Lo Que Te Voy A Decir, fez momentos de fala, com letras e textos feministas.

Mais fotos da primeira edição do Hardcore Contra o Fascismo no Sul do país – Fotos: Broken Heartz Fotografia

Também teve um bate-papo com o pessoal das torcidas antifascista do Grêmio e do Internacional sobre futebol, mulheres nos estádios e os preconceitos que ainda são presentes. Rolou serigrafia gratuita, feita pelo Tharcus Aguilar, educador cultural e ativista.

O Hardcore Contra o Fascismo foi um momento de muitos alinhamentos e posicionamentos para a cena de Porto Alegre. Foi inclusivo de verdade, um espaço de fala para todos, espaço saudável e seguro para crianças, espaço de respeito de ideais e ideais divergentes. Achei muito foda ver diversas gerações da cena, unidas no mesmo espaço lutando contra o mesmo inimigo. E mesmo assim, com toda a indignação e revolta, se manteve respeito e união, até porque o nosso inimigo era/ainda é o mesmo!

Estamos nos programando para sair o próximo Hardcore Contra o Fascismo – Porto Alegre. Estamos com outras iniciativas culturas paralelas para arrecadação de dinheiro, pois desta vez vamos precisar investir, afinal, não queremos apenas juntar uma galera com várias bandas. Queremos gerar algo de valor para todos, que agregue de verdade, queremos continuar fazendo a diferença!

Com será o rolê que você está produzindo em outubro com o Dead Fish?

Ouça a resposta da Danieli no áudio abaixo.

Vai rolar Dead Fish em Porto Alegre dia 20 de outubro, no Bar Opinião, com a abertura da banda Rezalenha. A minha dica para quem ainda não conhece a Rezalenha é: conheça!

Estou produzindo o show em parceria com o Ricardo, da produtora Abstratti e estou muito empolgada! O Ricardo, dono da produtora, tem anos de experiência e desde o início do convite até a proposta final, tudo saiu muito tranquilo e esse tem sido o ritmo até então, sem contar a experiência de estar aprendendo muito!

Tenho uma amizade bacana com André Pastura (produtor do Dead Fish), o que facilitou bastante a negociação. Acredito que essa é a tendência, as coisas serem de boas para as pessoas que estão dispostas a fazer as coisas de boas! Para mais informações sobre o show CLIQUE AQUI.

Cartaz do show de lançamento do álbum “Ponto Cego”, do Dead Fish, que acontecerá no dia 20 de outubro no Bar Opinião. Cartaz feito pela Danieli Baldassari. Para mais informações sobre o show clique AQUI.

Você também participa de um canal no YouTube, certo?

Sim! O canal é o Pilhando o Rolet. A minha colaboração é na gestão do canal, organizando as atividades de todos, os eventos, entre outros. O convite chegou para fazer par com o Vini (o locão que tá sempre de óculos nos vídeos!). O canal está no ar faz pouco tempo, desde julho desse ano! O convite chegou quando o Vini, o Andrey e o Flyng estavam fechando a equipe e a ideia do canal. Assistam!

Saiba mais sobre o Hardcore Contra o Fascismo clicando AQUI. Para comprar o seu ingresso para o show do Dead Fish em Porto Alegre, acesse este endereço: https://bit.ly/2lItAyK. Siga a Dani Baldassari no Instagram: @naovoupqnaoquero

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop