terça-feira, 29 de setembro de 2020
Nada Pop

5inco perguntas para a banda Sapataria

Sapataria – Foto: Marina Ciccone

Um punk rock sapatão!

A banda Sapataria surgiu em 2016, em São Paulo (SP), e desde então vem se apresentando por diversos lugares do cenário independente. A mais recente apresentação do grupo aconteceu no Oxigênio Festival 2019, após ser uma das bandas selecionas pelo público em votação aberta e organizada pela produção do evento.

Além da Zu Medeiros, vocalista que mescla o punk com referências de RAP, integram a banda as musicistas Marina Garcia, Dan Cox e Isa Miranda. Nas temáticas cantadas pela Sapataria, destacam-se o combate ao preconceito familiar, a auto-aceitação e a crítica sobre situações opressoras cotidianas, como o exemplo de expulsão de um banheiro público que virou música e até clipe que conta essa história (veja abaixo).

Na discografia da Sapataria existe o EP homônimo, trabalho de estreia lançado no ano passado. A faixa de abertura da banda, “Orgulho” começa com o verso “Eu tenho orgulho de ser sapatão” e a última canção, “MSB” se encerra com o grito “Eu não vou me esconder!”, sintetizando que essas mulheres, lésbicas e feministas, querem transmitir ao seu público.

Movimento das Sem Banheiro

Em uma sexta-feira 13 (de setembro), a banda lançou o clipe da música M.S.B. (Movimento das Sem Banheiro). A letra relata em primeira pessoa a situação de quando as integrantes foram expulsas de um banheiro feminino por serem confundidas com homens. No clipe, elas ironizam esse fato e mandam uma mensagem ácida: “Se não nos querem no banheiro, então vamos levar ele conosco”.

O clipe foi gravado no centro de São Paulo com as integrantes caminhando com uma privada de rodinhas pelo Minhocão, praça Roosevelt e outros pontos da cidade, sob os olhares curiosos e chocados de alguns transeuntes.

A diretora do vídeo e guitarrista da banda, Marina Garcia propôs um desafio: gravar o clipe com uma equipe 100% feminina. “M.S.B. foi a primeira música que eu escrevi na vida, o primeiro clipe que eu dirigi, além de ser o primeiro lançado pela Sapataria. Não tínhamos muitos recursos, só um sonho. E ele só saiu do papel graças às mulheres incríveis que acreditaram conosco e nos ajudaram a tornar esse desafio possível”, conta.

NADA POP – O clipe conta a história de vocês sendo expulsas do banheiro feminino, algo que realmente aconteceu, certo? “Eu não vou me isolar por ser quem eu sou / não vou me esconder”. Apesar da história em um banheiro, podemos fazer um paralelo com outras situações do cotidiano? A esperança de que isso mude existe?

Marina: Sim, a história é real ela aconteceu comigo mais de uma vez, muitos momentos não rola a expulsão de fato, mas olham torto ou fazem algum comentário. O refrão da música faz esse paralelo com nosso cotidiano, ser uma mulher fora do padrão de feminilidade faz com que tentem nos rotular ou colocar em uma caixa que quebramos.

Isa: As situações que vivemos por não performarmos feminilidade são múltiplas e para que isso mude é importante a esperança, mas mais do que isso, continuar as lutas políticas pela educação sexual e na conscientização sobre o papel opressivo do gênero.

Dan: Já fui expulsa de diversos banheiros, vagas de trabalho, situações sociais e espaços ao longo da minha vida. A música vem trazer exatamente isso, a necessidade que temos de mostrar ao mundo que nós existimos fora do padrão heterocêntrico imposto. Quando a Mari relatou o que ela tinha passado na real foi fácil de expressar na criação da música, da melodia, dos riffs e do refrão, ela ainda não tinha um refrão e foi super natural a concepção, pois me identifiquei bastante e a gente queria passar uma mensagem positiva para as sapatas e pessoas não conformes que lutam por seu lugar nesse mundo.

NADA POP – Com foi tocar no Oxigênio Festival 2019 e o que acharam da recepção do público? Houve alguma expulsão no banheiro?

Isa: foi incrível tocarmos no festival. Acredito que fomos bem recebidas e bom, se teve show e não expusemos alguma ocorrência do tipo, é porque não houve. A casa, staff do evento, assim como o público, fez a gente se sentir bem-vindas.

Marina: Foi incrível apresentar nosso som para pessoas de outros estados e que ainda não conheciam a banda, tivemos uma receptividade excelente e trocar ideia com outras bandas maiores foi extremamente proveitoso! Sobre expulsão do banheiro felizmente não rolou (hahahah), mas no sábado quando entrei no evento sozinha fui mandada pra fila de revista masculina, confusão comum, nada demais.

Dan: (hahahhaha) expulsões do banheiro não rolaram, aconteceu o oposto na real. Nós vencemos a votação em primeiro lugar com mais de 5.300 votos, ou seja, o público necessita de representatividade e ficou evidente o quanto gostam de nós nesse último mês. Toda a equipe do Oxigênio foi super aberta e prestativa, tive um incidente na festa do festival na quinta onde nos apresentamos, quebrei a mizona e nossos colegas de outras bandas e da organização do evento me ajudaram a emprestar outro baixo. Foi ótimo ter participado com outros artistas que admiramos.

NADA POP – O nome que vocês escolheram para a banda é sensacional. Quais outras bandas que vocês admiraram, além do som, mas os nomes dessas bandas também? Talvez seja autoexplicativo, mas fiquem à vontade para falar um pouco mais das bandas que citarem.

Marina: Eu gosto muito do som e do nome de Teu Pai já Sabe?, é uma pergunta frequente quando se é LGBT. The Truckers também é muito bom, com som e nome autoexplicativos. E eu realmente amo os nomes das bandas Eskröta e Tosca.

Dan: Teu pai já sabe é uma referência para nós, Rap Plus Size também tem um nome total autoexplicativo e um som combativo. Tem o clássico Bikini Kill também que é um marco para inúmeras bandas femininas.

NADA POP – Tenho a impressão que o movimento queercore no Brasil nunca esteve tão forte quanto hoje (me corrijam se estiver falando bobagem, por favor). Em São Paulo, por exemplo, temos do Dyke Fest (que vocês já participaram). Se possível, quais outros eventos, festivais com essa temática LGBT e voltados ao rock/ HC/ Punk que vocês poderiam indicar?

Marina: Bandas com integrantes LGBTs estão realmente numa fase boa! Está rolando muita coisa para tocar e se expressar, isso promove uma troca incrível que faz com que a cena cresça. Além do Dyke Fest tem o Desviantes, Resistência Transviada e Missa Negra LGBT.

NADA POP – Por fim, um livro para ler, uma música para ouvir, um lugar para ouvir e alguém para bater? Vocês podem, em nome da banda, escolher uma resposta juntas para cada pergunta, ou, se preferirem, responder individualmente.

Isa: Para ler, “Mulheres, raça e classe”, da Angela Davis; para ouvir, Zona de Confronto, da banda Gulabi; ouça num protesto e agrida sempre incel e fascista.

Marina: Para ler, “A Queda Para o Alto”, de Anderson Herzer; para ouvir, “A rua é campo de batalha”, da Charlotte Matou um Cara; bateria até cansar em professores do ensino básico que abusam sexualmente de suas alunas e nunca são punidos.

Dan: Para ler “A origem do mundo: Uma história cultural da Vulva vs. o patriarcado”, da Liv Stromquist; uma música “My Blood”, do Twenty One Pilots para ouvir na praia da Sununga com minha esposa… que é meu lugar preferido do mundo. Para bater, qualquer um desses fascistas, infelizmente têm vários, sintam-se à vontade para descer a lenha em todos.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop