terça-feira, 29 de setembro de 2020
Nada Pop

Que “minas” o Spotify quer ouvir? Essa casa é pra quem?

Em junho deste ano, o Spotify Brasil inaugurou um projeto que recebeu o nome de #EscutaAsMinas, voltado ao fortalecimento das artistas mulheres e com um ambiente dedicado a troca de experiências entre artistas, produtoras e profissionais do mercado musical.

A proposta, divulgada com o objetivo de “impulsionar” as vozes femininas na indústria, conta com um estúdio localizado na Zona Oeste da capital paulista que recebeu o nome de Casa de Música Escuta as Minas.

Na “Casa…” se encontra equipamentos profissionais, instrumentos, amplificadores e uma sala de mixagem. Além das artistas gravarem suas próprias músicas, o espaço também possibilita a participação de workshops, eventos e reuniões.

Para a produção e edição das músicas criadas no espaço, o Spotify Brasil trouxe nomes como Lahn Lahn, Mahmundi, Florência Akamine (mixagem e masterização), Bia Paiva (técnica de som); Lilla Stip (engenheira de som); Allyne Cassini (engenheira de som), entre outras profissionais experientes da música.

Ao contrário do que se possa imaginar, tudo isso é oferecido gratuitamente e a banda ou artista participante terá os direitos sobre as músicas criadas no projeto. A Casa de Música Escuta as Minas ficará em São Paulo até novembro de 2019.

O projeto teve início com 12 artistas selecionadas para inaugurarem a “Casa”, sendo representantes também da pluralidade artística das mulheres brasileiras. Nessa fase inicial participaram a 1LUM3, Ni Munhoz, Barbara Amorim, LUDI, Bibi Caetano, Souto MC, Marujos, Urias, Nina Oliveira, Samantha Machado, The Mönic e Luana Marques.

Inscrições para a Casa de Música Escuta as Minas

No início de agosto, foi divulgado pelo Spotify Brasil que outras 12 artistas mulheres seriam selecionadas para entrarem na Casa de Música Escuta as Minas. As artistas, em começo de carreira, podem se inscrever até o dia 28 de agosto neste endereço.

Além da equipe do Spotify, a seleção das artistas também será realizada por Monique Dardenne, Camila Garógalo, Bia Rizzini, Letícia Tomás e Flavia Biggs. Mulheres que fazem diferença na música há muito tempo e que agora estarão ao lado do Spotify para selecionar artistas com o início dos trabalhos a partir de setembro.

Entre os requisitos necessários para a realização da inscrição estão: se identificar com o gênero feminino; morar na Grande São Paulo; ser artista solo ou banda; estar em início de carreira; ter um trabalho autoral; ter disponibilidade de uma semana para se dedicar ao projeto e às gravações (de segunda à sexta, das 10h às 17h – dias a definir).

Aí que surgiram alguns problemas…

Nas redes sociais encontramos alguns comentários de mulheres criticando o último requisito de participação, que determina que as artistas tenham uma semana inteira, das 10h às 17h, para se dedicar totalmente ao projeto.

“A iniciativa é muito interessante, mas precisamos questionar quais minas terão acesso a esse edital. A exigência de ter uma semana disponível inviabiliza a participação da maioria das mulheres. Se a ideia é incentivar as minas, deveriam se atentar para as razões concretas para que a gente ainda seja minoria na música. Conheço muitas bandas que deixaram de se inscrever por não conseguirem ficar uma semana fora do trabalho”, afirma Bruna Provazi, baixista da banda HAYZ.

Para Ciça Bracale, vocalista da banda Gomalakka, o projeto parece muito positivo, mas quando questionada sobre os requisitos para a inscrição, dificuldades surgiram.

“Sobre os critérios, acho que já pré-seleciona de cara quais mulheres está aberta essa oportunidade. E não, não conseguiria participar. Aliás, nem fui muito atrás justamente por isso, com o agravante para minha condição de trabalhadora + mãe. E isso porque atualmente estou em uma empresa massa, com a qual eu conseguiria dar uma conversada. Mas enfim, definitivamente esta não é uma oportunidade para uma mãe quarentona trabalhadora que paga aluguel. Uma solução seria pensar em horários alternativos e/ou fins de semana, estendendo um pouco mais o tempo da ação. Aí, provavelmente, seria possível para mais mulheres”, explica Ciça.

Nesse sentido, é o que também diz Bárbara Monteiro, vocalista e compositora da Wabi Sabi. “Esse ponto me incomodou muito e quase desisti de me candidatar! Artista independente e novo no Brasil não tem como não trabalhar, né? Acho que nem 10% consegue viver só de música. E qualquer pessoa com emprego formal não poderia participar nessas condições, mas parece que não é bem assim, porque já teve banda que participou cujas integrantes trabalham em horário comercial, aí negociaram os horários”, comenta.

A banda citada pela Bárbara é a The Mönic, a única banda da primeira fase do projeto que gravou na Casa de Música Escuta as Minas. Em contato com a Dani Buarque, vocalista e guitarrista da banda, perguntei como foi a experiência de participar do projeto e com quem trabalharam no espaço.

“A experiência foi bem massa. Acho que é bem raro iniciar um trabalho de gravação e a equipe ser 100% feminina. Estamos em 2019 e adoraria não achar isso diferentão, mas infelizmente é. A produtora escolhida pra trampar com a gente foi a Monica Agena. Todas nós da banda já éramos muito fãs da Monica. Ter a assinatura dela na música foi um grande presente. A gente foi uma das primeiras artistas do projeto, então acabamos tendo só dez dias pra compor uma música nova e deixá-la no jeito pra gravar. Foi bem desafiante, mas a gente preferiu compor uma música do zero. Deu super certo. O som é em português e tá diferente de tudo que já fizemos. A letra fala sobre privilegiados”, conta Dani.

Dani ainda explica que a ideia da letra surgiu de um comentário machista na matéria publicada sobre a banda no site Tenho Mais Discos que Amigos. “Espero que o empoderamento não seja o foco”, foi o comentário deixado na matéria. “Essa frase tem tanto erro que seria inútil eu tentar explicar pra ele, então preferimos responder fazendo uma música. Pegamos a master e, provavelmente, o som deve sair no comecinho de setembro”, diz.

Devido ao assunto, aproveitei para perguntar como a banda conseguiu participar do projeto e se houve algum problema durante as gravações. Dani ressaltou que “não é uma semana de gravação”, cada artista teve três diárias no estúdio, das 10h às 17h. No caso da The Mönic, todas as integrantes trabalham em horário comercial, mas o acaso acabou ajudando o grupo.

“Todas nós trabalhamos e seria inviável pra gente, mas demos sorte que nossas gravações, coincidentemente, caíram em um feriado – era feriado na terça-feira e foi de boa não trampar já segunda. Na terceira diária foi um pouco mais complicado, porque ninguém conseguiria chegar no horário estipulado, mas a galera do projeto deu uma flexibilizada no horário pra gente conseguir fazer tudo com calma e no fim deu tudo certo”.

O feriado citado pela Dani era o 9 de julho, Dia da Revolução Constitucionalista, que neste ano caiu em uma terça-feira e ajudou a banda. Infelizmente, nem todas as artistas mulheres poderão ter a mesma “sorte”.

Mas então, qual o caminho?

Iniciativas sociais como a Casa de Música Escuta as Minas podem gerar benefícios para muitas bandas, principalmente quando apenas 2,1% dos produtores de música são mulheres, 10,4% dos indicados ao Grammy nos últimos seis anos foram artistas femininas e 19% das principais atrações dos grandes festivais de música no mundo incluem mulheres.

No entanto, as dificuldades apresentadas já na pré-seleção podem fazer com que diversas bandas/ artistas percam oportunidades que, provavelmente, podem acabar se mantendo com os mesmos grupos de artistas. “Mas uma banda que quer se profissionalizar, não é uma oportunidade para crescimento? Se não houver entrega/disponibilidade complica, não?!”, foi um dos comentários feitos na rede social Facebook.

Para dar uma resposta a esse questionamento, convidei a Letícia Lopes, integrante do selo Efusiva Records e também vocal e guitarra da banda Trash No Star.

“Fico feliz em perceber o crescimento de iniciativas que promovam a autonomia de mulheres, que incentivem e deem visibilidade para nossa produção artística. Mas quando olhamos para projetos promovidos por grandes empresas como Spotify, Oi (com o Arte Sônica), ficam alguns questionamentos sobre que mulheres eles contemplam? Qual o perfil dessa mulher que será beneficiada? É para todas? Não basta oferecer ótimas oportunidades quando o acesso a elas ainda não é justo. É necessário que as regras sejam adaptadas para que o projeto seja acessível, para que mais mulheres possam participar. O fazer artístico no Brasil ainda tem cor, gênero e classe social, e não contempla a mina preta, a periférica, a que se desdobra pra sustentar suas famílias, crias, bancar seus estudos, pagar aluguel e a prestação do equipamento. Para essas não basta um edital com grandes oportunidades, tem que haver uma reformulação profunda em busca de equidade. Que minas o Spotify quer ouvir? Essa casa é pra quem?”, conclui.

E o que diz o Spotify?

Em busca de mais informações sobre o projeto, entramos em contato com a Ideal H+K Strategies, agência responsável pela assessoria de imprensa do Spotify.

Por e-mail, questionamos se a empresa poderia explicar melhor o requisito da disponibilidade de uma semana e horário das 10h às 17h das artistas selecionadas. Se poderiam existir alternativas de horário e se analisavam que o critério seria excludente de alguma forma.

Recebemos como resposta, no dia 13 de agosto, que “o Spotify não vai comentar a respeito”.

O Spotify foi lançado em 2008, é o maior serviço global de assinatura de streaming de música com uma comunidade de mais de 232 milhões de usuários ativos, incluindo mais de 108 milhões de assinantes do Spotify Premium, em 79 mercados.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop