quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Nada Pop

Krias de Kafka: “Nos relacionamos com a internet numa boa, garotos com mais de 30 anos já estão acostumados com mentiras”

E o “mundo não acaba nunca”, pelo menos para a banda Krias de Kafka, com origem no ABC Paulista. Se você nunca ouviu a banda, não sabe o que está deixando escapar. Uma conversa de bar, um pileque de ideias. Assim foi o papo com os caras, além de meio filosófico, barulhento e irônico. Não se esconderam com palavras e muito menos revelaram mentiras. Se mostraram como são e o show que fazem no próximo dia 4 de dezembro, no Centro Cultural da Penha, pelo Projeto Penha Rock (saiba mais clicando AQUI), poderá revelar ainda mais sobre os caras e sobre você (quem sabe). São 12 anos de histórias, mais independentes do que ninguém, contam um pouco sobre a origem, inspirações, ambição e sonhos. O resto você descobre lendo o papo abaixo.

NADA POP – Pessoal, obrigado pela atenção. Quero começar perguntando o quanto a literatura de Franz Kafka é referência no trabalho de vocês e quem de vocês escolheu o nome para a banda?

KRIAS DE KAFKA – O nome surgiu, além da admiração pelo Kafka, pela aliteração e estranhamento que ela causa. O “Krias” é uma referência direta, como se fossemos personagens de um livro dele. E se você olhar ao redor, o que nos garante que não somos? Assim, seus textos têm um peso significativo na hora de escrever, como outros autores de poesia, teatro e cinema. Quem deu o nome pra banda fui eu (Mateus), numa fase em que lia tudo que caia na minha mão, e a leitura, principalmente, de “O Processo” e de “A Metamorfose”, foi am(d)or à primeira vista pelo nosso eterno virgem de expressão alemã.

NADA POP – O que vocês preferem: estar num lugar grande, tipo o Rock in Rio (sonho de muita banda por aí), fazendo um show para pessoas não dando a mínima para o som da banda ou um lugar pequeno, com poucas pessoas, e todo mundo entrando em catarse junto com vocês?

KRIAS DE KAFKA – Num lugar pequeno, claro. Até porque nunca tocamos em arenas, logo não fazemos ideia de como é enxergar as pessoas de tão longe e como isso pode refletir no som. Mas caso pudéssemos escolher um lugar grande pra tocar, certamente seria no carnaval de Salvador no trio do Asa de Águia.

Krias de Kafka - Foto: Oswaldo Corneti

Krias de Kafka – Foto: Oswaldo Corneti

NADA POP – “O Mundo Não Acaba Nunca” é um dos melhores álbuns de 2012/2013. Gostaria de entender como foi o processo de composição desse álbum e o que estimula a banda para compor.

KRIAS DE KAFKA – Cara, é a segunda vez que nos dizem isso numa entrevista, estamos começando a acreditar. O processo foi longo, a banda é de 2004, e compomos nossas músicas desde o início e tem coisa dessa época que entrou no disco com outra roupagem. Depois do EP “Sessões Desenganadas”, de 2010, sentimos a necessidade de compor um disco cheio e nos dedicamos à composição dele com afinco.

Treta, suor e sacanagem, resume bem o que foi gravá-lo, sacanagem no bom sentido, claro. Nosso jeito de compor é muito simples: eu escrevo as letras, o Lucas ou o Hector chegam com as melodias e depois finalizamos tudo com a batera, na época do disco o baterista era o Otto. Corta aqui, põe ali, encaixa acolá e pronto, temos mais um clássico fadado ao fracasso. Ficamos felizes com o resultado. Até hoje soa bem pra gente. O que nos estimula a compor é a vontade de dizer o que sentimos e pensamos, a banda serve pra canalizar muita coisa, inclusive nos livra de virarmos psicopatas, pastores, políticos, publicitários, ou coisa que os valha.

NADA POP – E o próximo álbum de vocês? Dá para acreditar que 2017 teremos novidades da banda? Adiante tudo o que for possível: número de músicas; se já existe algum nome (mesmo que provisório) para o disco; já estão gravando algo?

KRIAS DE KAFKA – Putz, tá foda acreditar na gente, né?! Mas ano que vem sai. O disco tem 12 canções, a maioria delas já é executada nos shows. Pra gente tá bem divertido, ele soa diferente do O.M.N.A.N, o que pra nós já é um puta avanço. Ainda não temos nada gravado e, aproveitando o ensejo, gravaremos o tal no Mestre Felino, comandado pela Helena Duarte e o Danilo Sevalli, da Hierofante Púrpura, em Mogi das Cruzes. O nome dele em primeiríssima mão ao Nada Pop: “Deserto Sem Extraterrestres”. Mais que isso não dá!!

NADA POP – Parece que a internet tem forçado as bandas a não investirem tanto em álbuns cheios, lançando mais em EPs e singles. Existe essa pressão mesmo? Qual o real valor da internet e como vocês se relacionam como banda com ela?

KRIAS DE KAFKA – Realmente a internet força a barra, como tudo que tem muito dinheiro envolvido ela precisa destruir as outras possibilidades, ou pior: dar à elas um ar “retrô” e sofisticado pra alcançar um nicho diferenciado. A velocidade é o que todo mundo veste hoje em dia, aparentemente não faz sentido parar pra ouvir um disco longo (12 músicas!!) enquanto você pode meter o bedelho na vida do seu amiguinho virtual. A gente gosta de ler encartes e admirar as capas, mas sinceramente ainda não sabemos se vamos lançar o próximo trampo em formato físico por conta do custo. É uma merda viver num mundo onde tudo precisa ter função prática e trazer “sucesso”. Acreditamos em outros valores, por isso não esperamos nada além do que já conquistamos como banda até hoje: grandes amigos e novas paisagens. Nos relacionamos com a internet numa boa, afinal, garotos com mais de 30 anos já estão bastante acostumados a lidar com mentiras.

NADA POP – Estamos divididos atualmente em mortadelas e coxinhas, petralhas e golpistas, esquerdalhas e direitistas. Muitos adjetivos e pouca reflexão. Como vocês se enxergam diante do atual momento político do país? Ainda dá para ter ideais e fazer algo em prol deles ou o melhor é fazer tudo pensando no próprio umbigo?

KRIAS DE KAFKA – Fudidos como todo mundo que não possui um iate, não tem Matarazzo como sobrenome e nem caviar na dispensa. Pensar no próprio umbigo? Seria uma contradição ao nosso posicionamento ideológico (uma VIDA boa e digna pra todo mundo). “Je est un autre” (Eu é um outro – Arthur Rimbaud) precisa de uma conotação mais sincera. Impossível viver culpando o outro o tempo todo e não enxergar o próprio erro. Acredito que existe mais ignorância que má fé por aí, o que não ameniza muito, mas pode dificultar a instauração completa de uma guerra civil. Mesmo assim não acredito que veremos alguma grande melhoria, o que não nos impede de continuarmos resistindo, compondo artisticamente ou apenas sendo educados com “estranhos”. Ter ideias e pô-las em prática é fundamental em qualquer situação.

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Show da Krias de Kafka, junto com a Dash, no Centro Cultural Penha pelo projeto Penha Rock. Clique na imagem para ser direcionado para a página do evento no Facebook. Entrada franca!

NADA POP – O ABC é uma região cheia de boas bandas e muitas delas estão começando a aparecer para outras regiões do país. Poderiam dizer quais bandas acompanham e recomendam?

KRIAS DE KAFKA – Cito as que têm menos visibilidade: Sentimento Carpete, Delicadeza Elefante, Daniel Camatta e Copo Largo, Chakra Beats e La Carne, que não é do ABC, mas é a banda mais injustiçada desse mundinho onde se prefere gostar daquilo que se parece muito com o que e já se gosta, do que aquilo que não se parece muito com nada.

NADA POP – Os shows de vocês são sempre muito intensos. Existe uma troca muito bacana entre banda e público. Pelo menos é o que eu mesmo percebi e até escrevi sobre isso numa resenha sobre vocês – LEIA AQUI. Mas o que vocês almejam como banda? Até onde querem ir ou se sentirão bem como banda?

KRIAS DE KAFKA – Já chegamos onde queríamos (grandes amigos e novas paisagens), temos 12 anos de banda. Essa troca que você fala existe porque 90% das pessoas que vão aos nossos shows são da família Kdk. Queremos tocar mais, compor mais e ficarmos chapados em lugares públicos onde as pessoas são bastante tatuadas e se comportam como se estivessem sendo monitoradas pelo colunista de moda do momento 24 horas por dia.

NADA POP – Quais os próximos shows da banda e como vocês enxergam o encerramento de atividades de espaços para shows de bandas autorais? É uma crise generalizada ou pensam que isso é um sinal de que o underground precisa mesmo se reinventar?

KRIAS DE KAFKA – Na boa, quem precisa se reinventar é o ser humano. O cara que vai no show do Scorpions cover é até admissível, agora ir no Smiths, Joy Division, e por aí vai, é de foder!!! Certa vez até pensei em fazer cover do Drummond, mas na poesia nem isso adianta muita coisa, afinal não me chamo Antônio. As casas precisam levantar grana pra sobreviver, se o bar fica cheio e vende goró e a bilheteria é boa, o dono do bar/casa de show tá pouco se lixando se é o Leonard Cohen ou o Yellow Man que tá tocando. O cara que pensa o contrário fecha, vide Espaço Walden, por exemplo.

Existem exceções, mas cada vez menos, infelizmente. Se o pessoal não cola nos shows não podemos culpar as bandas. Essa aversão ao novo não é novidade, diz a ciência que é da nossa natureza, enfim. Se a pessoa prefere ver um sujeito se fazendo de outro e se alegrar com isso como se fosse o artista original, que faça, eu vou continuar achando que é coisa de débil mental.

Tocaremos no dia 4 de dezembro no Penha Rock, organizado pelo nosso amigo Adriano Pacianotto, que sempre dá uma força pra gente, junto da banda Dash. Aliás, registraremos o show neste dia, já que não conseguimos gravar o disco este ano pelo menos vai rolar versões ao vivo de umas faixas por aí. Estão todos convidados!!

NADA POP – Gostaria que vocês (cada integrante) diga, por exemplo, qual livro casa com determinado álbum? E claro, o motivo.

MATEUS – “Dias de paz em Clichy”, do Henry Miller, e o Compacto do Serge Gainsbourg com Jane Birkin, “Je t’aime, moi non plus”. É clichê, mas juntos dão um tesão danado.

LUCAS – “Mate-me, por favor” e “Transformer”, do Lou Reed, por questões óbvias.

ÁLVARO – “A Morte de Ivan Ilitch”, do Tolstói, deve combinar com “The Vampyre Of Time And Memory”, do Queens of the Stone Age… Não fiz o teste, mas deve rolar… hahahaha. Apesar da música ser deprê pra caralho eu gosto dela. Tem aquele lance de pensar na morte e olhar pra como foi a vida e tal…

HECTOR – Se absteve da resposta, qualquer dúvida sobre seu gosto musical e literário entre em contato pelo Facebook.

NADA POP – O mundo não acaba nunca, mas se ele fosse acabar o que cada um gostaria de fazer durante esse fim?

KRIAS DE KAFKA – Em uníssono: FARRA!!

NADA POP – Obrigado e digam o que quiserem para os amigos, fãs e haters da banda. Obrigado!

KRIAS DE KAFKA – Nós que agradecemos o espaço, e vida longa ao Nada Pop!! Aos amigos: amamos vocês, muito. Aos fãs: apareçam antes de Jesus voltar. Aos haters: vão caçar o que fazer e odiar coisa mais interessante, se não quiserem, podem vir pra cima que a gente curte sair na mão de vez em quando. Kdk mané!!!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop