quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Nada Pop

Entrevista: a música e a imagem se completam para a banda Atalhos

Em uma tarde fria com certo tempo livre já próximo do fim do ano, fui ao Youtube pesquisar por uma banda chamada Atalhos. Me deparei com o clipe de “Só o amor no fim”, foi por assim dizer uma experiência de encher os olhos. Era possível sentir o frio nas imagens da Patagonia, a solidão da bela atriz Marisol Ribeiro, além da melancolia nos acordes que guiavam o destino dos personagens para um final incerto. Claro que continuei ouvindo e assistindo o clipe por mais de uma dezena de vezes.

Formada por Gabriel Soares (bateria e voz), Conrado Passarelli (guitarra) e Marcelo Sanches (guitarra) e Alexandre Molinari (baixo), a banda Atalhos traz na bagagem o EP “Mocinho e Bandido” (2008) e o álbum “Em Busca do Tempo Perdido” (2012), com participação de Marcelo Bonfá (Legião Urbana) no desenho da capa e Nelson Brito (Golpe de Estado). “Em Busca” teve canções masterizadas no estúdio Abbey Road, em Londres, e ganhou turnê pelo Brasil, Uruguai e Argentina.

O disco “Onde A Gente Morre” lançado para download gratuito e também em vinil duplo, completa 1 ano neste mês de janeiro e serve para demonstrar uma transição de sonoridade no grupo para um universo mais folk. O álbum conta com a mixagem de Mark Howard, profissional que já trabalhou com grandes nomes da música, entre eles R.E.M., U2, Bob Dylan, Red Hot Chili Pepers.

No entanto, o que chama atenção na Atalhos são os seus clipes que que se misturam com o cotidiano urbano de uma cidade como São Paulo. Os vídeos trazem, independente de qual tipo de intenção, uma reflexão sobre a condição dos relacionamentos humanos, que podem ser vazios, trágicos, superficiais ou cheios de amor não correspondido. Qualquer semelhança com Ingmar Bergman pode ser (ou não) coincidência.

Abaixo nossa entrevista com o Gabriel Soares, baterista e vocalista da Atalhos.

NADA POP – A música e imagem para alguns artistas parece ser só uma consequência de um single ou de um álbum, mas a impressão que tenho é que para vocês isso se completa. Vocês concordam com essa afirmação? Qual a importância do clipe para vocês?

GABRIEL SOARES – Sim. Os nossos trabalhos audiovisuais funcionam como uma extensão do nosso disco, no sentido artístico mesmo, não só explorando a parte importante de reforçar a divulgação do álbum, mas os clipes são importantes porque também ajudam as pessoas a entenderem melhor nossa proposta estética e conceitual, por isso acompanhamos todos os detalhes da produção dos vídeos, desde a elaboração dos argumentos e roteiros até a finalização dos materiais. Fazemos isso para que o resultado seja coerente com a nossa proposta artística.

NADA POP – O clipe de “Só o amor no fim” é um dos mais belos vídeos que vi em 2015, fora a música, claro. No entanto, a impressão que tenho é que um trabalho como esse deve ter custado uma fortuna… Sem querer entrar na questão de valor, como foi a produção desse clipe e os locais de gravação e, além disso, como foi feito o convite para participação da bela Marisol Ribeiro?

GABRIEL SOARES – O vídeo realmente parece ter custado um bom dinheiro, talvez pelas imagens impressionantes da Patagônia, mas a verdade é que ele teve um orçamento 50% inferior ao nosso primeiro clipe, José Fiquei Sem Saída. No caso do clipe do Só o Amor, eu mesmo rodei as imagens na Patagônia, durante uma viagem no inverno de 2014 que fiz com a minha namorada. O diretor do clipe, meu amigo José Menezes, me deu algumas coordenadas e dicas e acabei conseguindo captar relativamente bem algumas imagens. Parava o carro na estrada, botava a câmera no tripé, e depois sai andando pelo acostamento enquanto a câmera filmava. A outra parte do clipe foi rodada em Sao Paulo no apartamento do outro diretor, André Dip. O Zé o Dip sao amigos da Marisol e convidaram ela pra fazer parte do clipe. Ela gostou da música e topou participar do clipe, o que foi uma honra pra gente. Também conseguimos incluir algumas referencias que gostamos de cinema, como uma cena do filme Eclipse do Antonioni.

NADA POP – Já com o clipe de “José, Fiquei Sem Saída”, que parece mais um curta do que um clipe (e isso é um elogio), como foi gravar em São Paulo com a sensação de que ela estava vazia? Como foi feita essa proeza?

GABRIEL SOARES – Esse clipe teve um trabalho preparatório importante, e tivemos uma equipe muito dedicada realizando a produção e a execução das filmagens. Demos sorte pois no dia em que filmamos a cidade amanheceu mais cinza do que habitualmente, e isso contribuiu pra dar um clima mais sombrio para as imagens. Nós rodamos a maioria das imagens num domingo, o que ajudou a dar essa sensação de cidade vazia. Acho que os bons resultados que obtivemos com os clipes é fruto de uma parceria e de uma química que temos com os nossos diretores e amigos José Menezes e André Dip. Eles se identificaram com a nossa proposta conceitual e conseguiram transportar a atmosférica existencial que colocamos nas músicas para os vídeos.

NADA POP – Minha impressão com essa música, inclusive, é de que mesmo com dezenas, centenas ou milhares de pessoas ao redor, São Paulo pode ser muito solitária, fria e cinza. Esse é o clima que permeia algumas imagens e músicas de vocês. Parece existir um pouco de Nick Cave, Joy Division, Johnny Cash e “Acrilic on Canvas” no trabalho da Atalhos. Assim, quais as influências de vocês?

GABRIEL SOARES – Pois é, muitas músicas tem esse clima existencialista, absurdo; algumas exploram bastante a solidão, especialmente a música Sozinho Contra Todos que trata de um personagem que nao consegue se identificar com absolutamente nada que o rodeia, denunciando uma espécie de ojeriza social. Outras tratam de conflitos amorosos segundo uma perspectiva absurda no sentido camusiano da palavra, e apesar de hoje em dia termos referencias mais evidentes de bandas como Wilco, Deerhunter, etc, também ainda carregamos traços de influencias que permearam nossa adolescência, como a Legião Urbana, tanto que no primeiro disco escrevemos para o Marcelo Bonfá pedindo pra ele desenhar a capa do álbum, e pra nossa surpresa ele topou, e nao só entregou a capa como também nos tornamos amigos e chegamos a fazer alguns shows juntos pelo interior de Sao Paulo. Essa música “Acrilic on Canvas” é uma das minhas prediletas. A Legião tem vários b-sides maravilhosos, e essa canção é uma referencia conceitual no sentido de nao ter refrão, e trabalhar uma letra corrida que funciona quase como uma narrativa em prosa. Esse tipo de forma também nos interessa e em algumas canções tentamos explorar esse tipo de conceito.

NADA POP – Vocês demonstram claramente buscar por algo que costumo chamar de “independent art”, bandas independentes que ampliam a sua própria arte para clipes, fotografias e o próprio merchan, conceituando seu trabalho além dos ouvidos. Quais outras bandas do cenário independente vocês destacariam com seus respectivos trabalhos autorais e que valeria muito a pena conhecer?

GABRIEL SOARES – Desde que lançamos nosso segundo álbum, no finalzinho de 2014, nós conhecemos diversos artistas independentes pelas lugares que passamos e tocamos, ou mesmo pela internet. Ainda mais com as novas tecnologias de streaming como Spotify, Deezer, etc, praticamente toda semana nos deparamos com descobertas muito interessantes. Por exemplo, durante uma passagem por Rio Branco no Acre, conhecemos a banda Os Descordantes e que tem um material muito sólido e músicas ótimas. Gostamos dos Los Porongas, também do Acre. Em Belo Horizonte, por exemplo, tem Leonardo Marques, Lupe de Lupe, Camera, enfim, muita gente boa. Em Sao Paulo você tem Jair Naves, Quarto Negro, o Terno, e mais uma infinidade de bandas importantes e já com um certo destaque no cenário independente, no Nordeste tem gente como Mahmed fazendo um rock instrumental maravilhoso, o pessoal do The Baggios conquistando cada vez um público maior, no centro do Brasil tem Boogarins conquistando o mundo desde Goiania, tem Carne Doce, etc, e o sul do Brasil sempre foi um celeiro de grandes artistas. Acho que vivemos uma das melhores safras de bandas nacionais da nossa história sem que nenhuma delas toque nas principais rádios do país.

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Banda Atalhos

NADA POP – Uma boa história, uma roubada e o primeiro cachê: podem nos revelar com base nesses três itens os bastidores da Atalhos?

GABRIEL SOARES – Uma boa história é quando decidimos enviar uma demo para o produtor Mark Howard, que assinou trabalhos clássicos do Neil Young, Bob Dylan, U2, etc, e ter a resposta de que ele gostou muito do nosso som e que queria mixar o disco todo, e mais do que isso, tinha muita vontade de vir para o Brasil para gravar aqui nosso terceiro disco.
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Roubada é você deixar que palpitem demais no seu trabalho, que transformem o seu som em algo que você não acredita; roubada é deixar que digam como o seu som deveria ser.
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O primeiro cache realmente decente ainda estamos buscando… risos.

NADA POP – Para encerrar, destaquem uma frase de uma música (que não seja de vocês) que serve de inspiração para a vida. E aproveitem para deixar uma mensagem – seja ela qual for e para quem vocês quiserem.

GABRIEL SOARES – “I am trying to break your heart…”

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop