domingo, 20 de setembro de 2020
Nada Pop

Bruna Menditto, baixista da Violéte: empoderamento, influências e preconceito

Na última semana, foi publicada a introdução para esta série de entrevistas com algumas das minas mais incríveis do ABC, que movimentam a cena underground por aí (não deixe de ler a matéria na íntegra aqui). Quem acompanhar até o fim perceberá um padrão na condução das perguntas. Antes das críticas, um aviso: Não, gente… Não é falta de criatividade! Essa foi a maneira mais justa que encontrei de dar oportunidade para todas falarem sobre os mesmos assuntos – música, cenário independente, representação feminina no rock e afins – e mostrar que há pluralidade de ideias, visões e estilos entre as mulheres e que vamos falar sobre tudo isso, sim!

Para inaugurar a coluna, escolhi a história da minha xará Bruna Menditto. Isso porque ela foi a primeira a aceitar meu convite com tanta atenção e, principalmente, foi uma das primeiras representantes femininas que me lembro de ter conhecido por aqui. Foi num show no 74 Club – um dos lugares mais bacanas para curtir um som, beber e comer no ABC –, que colei para ver a Doze. Entre os grupos que se apresentariam naquela noite, estavam por lá as meninas da Violéte e, seja como for, a gente se identifica e sabe que pode fazer mais quando vê uma de nós num palco. É o que significa empoderamento por meio da música!

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Banda Violéte – Crédito da foto: Afonso Magri

Entre mil características que a tornam única, no universo musical a Baru, como também é conhecida, é baixista da tal Violéte, banda meio paulista, meio andreense, formada em 2008. Com uma história complexa de perdas, superação e mudanças, o grupo assumiu um estilo mais autoral em 2010, seguindo as influências do rock dos anos 90 e 2000, sobretudo do movimento grunge, que hoje mesclam com outras vertentes que preferem não rotular.

Depois do álbum “Somos o que éramos”, de 2012, o EP recém-lançado, intitulado “A Porta”, marca uma nova fase para os integrantes, com letras emocionais e um som melódico embalado por um vocal pontual e suave – que entrarei em detalhes numa próxima entrevista –, sem deixar de lado as raízes mais pesadas de suas referências. O perfil da banda no Soundcloud traz algumas faixas do novo trabalho, que pode ser ouvido na íntegra somente no formato físico. Aí, é só entrar em contanto com a galera pela página no Facebook para saber como adquirir.

Agora, senhoras e senhores, segue a entrevista completa com a Bruna:

NADA POP – Como é a sua história com a música? E com o rock?

BRUNA MENDITTO – Minha história com a música começou lá pelos meus 16 ou 17 anos. Eu tinha um grupo de amigos que tinham uma banda e achava muito interessante acompanhar os shows e os ensaios deles, mas queria estar mais envolvida, não gostaria de ser apenas a “plateia”. Acho que deu certo, porque até hoje eles são a minha banda (rs). No início, fazíamos covers variados da galera dos anos 90, como Foo Fighters, Nirvana, Silverchair, Pearl Jam, entre outros. O grunge sempre foi nossa e minha principal influência.

Sempre ouço coisas como “Ah, então você toca baixo tão delicadinha assim? Vou ficar de olho para ver se toca bem mesmo!”, mas procuro levar isso bem na esportiva. Não é um comentário que me agrada, mas também não vou me preocupar em provar nada.

 

NADA POP – Você participa de alguma outra banda ou tem algum projeto paralelo, mesmo que não seja referente à música, que gostaria de destacar?

BRUNA MENDITTO – Não tenho nenhum projeto paralelo com nenhuma outra banda. Já tive alguns convites, mas acredito muito na música e nas composições da Violéte, então sempre quis estar totalmente focada nela, até porque banda não requer tempo somente para shows e ensaios. A gente acaba tendo que separar um tempo para divulgação, produção de material e etc, então prefiro estar totalmente dedicada a isso.

Como projeto paralelo, estou iniciando na área da fotografia com a principal intenção de registrar shows, eventos ligados à música, ajudando na divulgação do nosso cenário independente. Acho necessário mais divulgação – e divulgação de qualidade – para atrair quem ainda não conhece as bandas, projetos e casas que apoiam tudo isso.

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Bruna Menditto em ação. Crédito da foto: Alex Cavanhas

NADA POP – Como você enxerga o cenário underground de forma geral? E como você o enxerga como mulher? É diferente para a mulher tocar/cantar/se expressar? Você já sentiu alguma resistência? Já vivenciou ou já viu algum caso de abuso, preconceito, discriminação?

BRUNA MENDITTO – Eu considero o cenário underground fascinante no sentido da diversidade de bandas. Existem muitas bandas boas, criativas, diferentes e tudo isso é muito interessante para quem não gosta de ficar somente com o óbvio e com o que a mídia impõe. Em questão de espaço e promoção de shows ainda tem muito o que melhorar e isso depende muito da união das bandas, movimentação e apoio das casas. Não dá só para ficar reclamando de braços cruzados! Acho que as bandas devem se apoiar mais na divulgação entre elas. Em particular, no cenário do ABC, por exemplo, vejo que esse tipo de apoio acontece. A tendência é aumentar, nos apoiar e nos unir para que o cenário cresça cada dia mais.

Sobre ser mulher e estar no meio desse universo com a maioria sendo do sexo masculino, eu não vejo problema nenhum. Sempre fui muito respeitada e apoiada pelas pessoas a minha volta. Considero até isso como um diferencial de forma positiva, vejo as pessoas curiosas vendo uma banda com uma mulher no baixo. Claro que sempre existe alguma piadinha ou aquele cara que vai ficar observando para ver se você sabe tocar… Sempre ouço coisas como “Ah, então você toca baixo tão delicadinha assim? Vou ficar de olho para ver se toca bem mesmo!”, mas procuro levar isso bem na esportiva. Não é um comentário que me agrada, mas também não vou me preocupar em provar nada.

Hole, da Courtney Love, é uma das referências mais fortes do grupo. O single “Violet” influenciou diretamente o nome da banda

NADA POP – Eu, por exemplo, cresci ouvindo os dinossauros do rock. Meus ídolos são, em maioria, homens. Em contrapartida, quais mulheres te inspiraram e te inspiram?

BRUNA MENDITTO – Eu sempre ouvi muitas bandas diferentes. No início, não conhecia muitas bandas que tinham mulheres, até que isso me interessou e eu comecei a pesquisar, talvez para seguir como inspiração. Mas não diferencio muito isso, não tenho como um critério gostar mais ou não se há uma participação feminina, mas admiro todas elas e torço para que mais mulheres se inspirem e entrem para o mundo da música. As primeiras bandas que conheci – e que, por coincidência ou não, contavam com uma mulher no baixo – foram Smashing Pumpkins e Sonic Youth, até que o vocal feminino me chamou atenção e comecei a ouvir muito Hole, L7, The Distillers, Garbage, Bikini Kill, Lê Tigre, No Doubt, Joan Jett, Denali, Portishead, Bulimia, Luvod, Regina Spektor e por aí vai. Como inspiração em particular, tenho um amorzinho pela Melissa Auf Der Maur.

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Bruna durante apresentação com a Violéte – Crédito da foto por Joana Melito

NADA POP – Você pensa em viver de música?

BRUNA MENDITTO – Eu tenho o sonho sim de viver de música, mas também tenho os pés no chão. Hoje, com 26 anos, vejo isso de uma forma diferente, tem muita coisa envolvida, mas sigo em frete e corro atrás para que isso aconteça da maneira mais honesta possível. Como até disse anteriormente, eu acredito nas composições e na música da Violéte, admiro a banda, sinto muito orgulho de ser a baixista e acredito que ainda vamos conquistar muita coisa juntos.

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Sobre o autor

Bruna Neto

Jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo, feminista, orgulhosa por residir na cidade de Santo André e admiradora de toda a cena independente do ABC.