sábado, 14 de novembro de 2020
Nada Pop

Mais Que Palavras: hardcore união e respeito

Estamos à menos de um dia do Natal e não poderia, nem se quisesse, deixar de publicar alguma coisa a respeito do clipe “Desapego”, da banda Mais Que Palavras. Num período de consumismo, exageros e desperdícios, o clipe e a música tornam-se uma boa forma de reflexão. A banda, com origem em Brasília, irá lançar em 2015 o álbum “Está Em Nós, Somos Nós”, com 12 faixas. Algo bem bacana também é a quantidade de gente envolvida no lançamento do álbum, uma parceria entre os selos Against Records, Seven Eight Life Records, Vegan Records, Inhumano Discos, Bad Mood Records e Spark Records & Booking.

Conversamos um pouco com a banda que nos conta mais sobre o lançamento do álbum, a vida em Brasília, influências, entre outras coisas. Deixamos aqui um agradecimento especial ao César Pirata, baixista do Mais Que Palavras, por intermediar a conversa do Nada Pop com a banda.

mais_que_palavras_620x330

Banda Mais Que Palavras é (da esquerda pra direita): Manoel Neto (vocal), Fill Braga (guitarra), Tiago Caetano (bateria), Nicolas Gomes (guitarra) e Cesar Pirata (baixo).

NADA POP – Uma banda de hardcore nascida em Brasília deve ter, ainda mais forte em suas músicas, a revolta contra a política nacional. O quanto vocês são inspirados pela cidade e qual a maior referência musical da banda?

MAIS QUE PALAVRAS – Na verdade, procuramos nos influenciar pelos momentos vividos e não pela política da forma que ela é organizada hoje. Nem todos integrantes nasceram em Brasília, mas é aqui que escolhemos viver, aqui é o local onde fizemos nossas melhores amizades. Isso não quer dizer que somos apolíticos, mas é importante deixar claro que a gente não acredita no sistema, ele não foi feito para a gente! Procuramos outras formas de mudar o mundo, além da política tradicional, o hardcore nos ensinou isso.

Cada integrante tem a sua personalidade, mas escutamos de tudo, do folk ao metal e passando, claro, pelo punk e hardcore. São grandes influências para a gente nomes como H2O, Bad Brains, Sick Of It All, Champion, Terror, Defeater e Ratos de Porão, para citar alguns.

NADA POP – O clipe da música “desapego” deixa claro a importância de amigos, família e da música na vida de vocês, ao mesmo tempo, faz críticas ao consumismo exacerbado e até mesmo contra a propaganda que te convence a comprar e ter coisas que nem sempre são necessárias em nossas vidas. A própria música em outros estilos, por exemplo, é usada exatamente ao contrário, em muitos casos ela enaltece o consumismo e se apresenta como ferramenta do capitalismo. Como é possível lutar contra esse sistema e qual o papel da música na opinião de vocês?

MAIS QUE PALAVRAS – É preciso deixar claro que podemos viver de outra forma e utilizamos a música para transmitir esta mensagem. Quisemos demonstrar com o vídeo que está na hora de focarmos no quê realmente importa em nossas vidas. Se analisarmos, vamos perceber que o importante não são coisas. E claro que não temos o mesmo espaço que o sistema e suas ferramentas, mas queremos incentivar as pessoas a pensarem. Queremos mostrar também que a mudança depende de nosso esforço. É preciso pensar mais coletivamente, no que podemos fazer ou deixar de fazer para que outras pessoas comecem a viver melhor. Se fizermos isso em nossos bairros, já será um grande avanço. A mudança está em nós, somos nós, nossos pequenos atos do dia a dia nos definem.

NADA POP – O álbum “Está em nós, somos nós”, que será lançado em 2015, irá trazer quantas faixas? Como foi o processo de gravação, por qual selo será lançado e quais problemas e satisfações vocês passaram até o resultado final do álbum?

MAIS QUE PALAVRAS – O disco terá 12 faixas e, além de “Desapego”, a gente já divulgou também a canção “Leões”. Os anos no hardcore nos trouxeram várias amizades e por isso, o disco vai sair por seis selos: Against Records, Seven Eight Life, Vegan Records, Inhumano Discos, Bad Mood Records e Spark Records & Booking (obrigado!).

A gente teve os mesmos problemas para gravar que toda banda independente. Compensamos a falta de estrutura e tempo com muita força de vontade. O DIY dá trabalho, exige tanto fisicamente quanto mentalmente, mas ao ouvir o disco sabemos que todo esforço não foi em vão, fizemos algo por aquilo que acreditamos. Nada paga o que estamos sentindo agora.

NADA POP – Sobre o clipe “Desapego”, quem gravou ou foi o diretor(a) do clipe? E se vocês pudessem resumir o clipe em uma palavra (não vale a palavra desapego, certo?), qual seria?

MAIS QUE PALAVRAS – O clipe foi produzido pelo nosso baterista, o Tiago Caetano. Cada integrante fez as suas imagens em casa e depois ele teve a paciência e dedicação para editar tudo com muito carinho. Contamos também com a ajuda de vários amigos que nos filmaram durante os shows. Não podemos deixar de agradecê-los: obrigado!

Se tivermos que escolher uma palavra, ela tem de ser “amor”. A mensagem do clipe é essa: dedicação àquilo que é realmente importante para você e viva perto de quem você ama!

NADA POP – Gostaria que cada integrante se apresentasse e comentasse a respeito de seus trabalhos atuais (mesmo que seja relacionado a música) e dissessem o quanto o hardcore é fundamental na vida de vocês?

César Pirata: o hardcore é minha vida, meu coração. É o lugar onde fiz minhas melhores amigas e amigos e onde aprendi o que é viver realmente. Aprendi muito mais com shows de hardcore (tanto na organização quanto tocando), zines e documentários que com qualquer escola. Você perguntou sobre a profissão, e sou jornalista, mas devo assumir que minha atuação profissional está longe de me definir como pessoa.

Tiago Caetano: sou publicitário e trabalho com vídeos então, sempre que possível, estou fazendo alguma coisa para o Mais Que Palavras e para amigos que precisam de alguma ajuda! Difícil dizer o quanto não é fundamental. Desde moleque quando ia aos shows eu ficava impressionado com a energia dos shows e das pessoas, e foi isso que me prendeu e me faz continuar tocando e indo aos shows. O HARDCORE me apresentou várias ideias e conceitos de vida diferentes e foi lá que formei minhas melhores amizades, e eu só tenho que agradecer a isso. Foi como o Aaron (vocalista do BANE) disse no show em Brasília, “o hardcore união e respeito”, e no momento que passamos essa ideia para frente, nada nos para! Obrigado!

maisquepalavras_post

Fill Braga: comecei a frequentar a cena hardcore em meados dos anos 90 e devo muito a isto. Letras de bandas, zines e a quantidade de ideias e discussões existentes neste meio foi, e sempre será, importante para mim. Quando moleque descobri que é possível ir contra e não engolir tudo o que nos impõem, ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros, a possibilidade de mudança, sem depender de mais ninguém para iniciá-la, lealdade, amizade e inúmeros outros valores e posturas, foram essenciais para formação do meu caráter. São coisas simples, importantes na formação de qualquer pessoa, mas que ninguém ensina de forma tão simples e direta em outros lugares. Por isso a dívida será eterna e a motivação em passar o que aprendi para a frente. O hardcore não é a música, por isso, concordando ou não, escutem o que as bandas têm pra dizer.

Manoel Neto: fica muito difícil explicar algo que teria que ser sentido para saber a intensidade do que o hardcore representa na minha vida. Tudo que eu sei, tudo que eu sou, eu aprendi com o hardcore punk. Eu vivo por isso e para isso. No tempo que sobra sou tatuador, jardineiro, cozinheiro, motorista, dono de casa, pai e espiritualista.

Nicolas Gomes: o hardcore é o lugar onde eu “nasci” para o mundo e para música e é onde eu me sinto em casa. Apesar de passear por vários estilos (como stoner e metal), o hardcore é minha escola, minha primeira linguagem. Eu trabalho com imagem, fotografia e fotografia para vídeos. Além do hardcore e do trabalho, minha maior paixão é minha família, a Cynthia minha esposa e meu casal de filhos Alice e Lucas, tudo que eu faço é por eles, minha maior inspiração para ser uma pessoa melhor.

NADA POP – Agradeço o papo, indiquem outras bandas de Brasília que vale a pena a galera ouvir e digam os contatos de vocês para quem quiser acompanhar a banda e saber mais sobre vocês.

MAIS QUE PALAVRAS – Brasília está passando por um momento sensacional. Neste ano tivemos o lançamento dos discos novo do DFC e Terror Revolucionário, que são duas lendas daqui, e também de diversos EPs de bandas novas, como o Crushed Bones, Ingrena, We Are The Resistance e Outubro HC. Para o próximo ano esperamos a divulgação do álbum novo do Deceivers e do EP do Shotgun Killa. Tem muita coisa boa vindo por aí, aguardem!

Saiba mais sobre o Mais Que Palavras:

Para acompanhar: https://www.facebook.com/MxQxPx

Para ouvir: http://www.reverbnation.com/maisquepalavras

Para ver: youtube.com/maisquepalavrashc

Para falar com a banda: maisquepalavrashc@gmail.com

A gente que agradece o espaço e o seu tempo. Sabemos que as pessoas envolvidas com zines (onlines e físicos) fazem isso por amor. Sua dedicação com o Nada Pop nos influencia, nos demonstra que não estamos sozinhos. Obrigado!

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop