quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Nada Pop

Entrevista com Caroline Dinola sobre o Festival Punk Donation

O Nada Pop curtiu tanto a proposta do Punk Donation que resolveu conversar e saber um pouco mais sobre o projeto com a Caroline Dinola, idealizadora do evento. O Punk Donation é um festival de música com o intuito de conscientizar as pessoas sobre a importância da doação de sangue, além de arrecadar verba para ajudar crianças com doenças hematológicas (HIV, Leucemia, etc).

A Caroline mora atualmente em Santo André, no ABC paulista, e trabalha com comunicação visual e produção. Está envolvida com a música desde 2003 quando conheceu o punk. A princípio, segundo ela mesma diz, seu interesse pelo estilo era estritamente musical, mas quando conheceu a subcultura de verdade não teve como passar batido. Mesmo sendo difícil citar uma banda preferida, carinhosamente Caroline fala do The Clash, além de Cólera e Restos de Nada (para falar das nacionais), incluindo a camaradagem da Juventude Maldita.
Confira o nosso papo e não deixe de conhecer o festival Punk Donation.

NADA POP – Por favor, nos fale como surgiu a ideia do evento Punk Donation e quais são as pessoas (organizadores, coletivos etc) envolvidos além de você. É a primeira vez que este evento é realizado neste ano ou já foi realizado em outras ocasiões?

CAROLINE – O Punk Donation surgiu de uma necessidade muito pessoal, minha sobrinha a (Giullia), ficou hospitalizada e teve a necessidade de receber bolsas de sangue e plaquetas, por conta do sangue dela ser um tipo raro (O-). Foi mais complicado realizar a reposição para o banco de sangue, a princípio com muita divulgação nas redes sociais foi primordial para conseguir doadores e a partir disso notei que as pessoas como eu não tínhamos acesso a informação sobre locais, procedimentos e impedições.

Logo, com essa necessidade de divulgar essas informações eu criei a página Vem Doar (clique AQUI para curtir a página), para tornar acessíveis informações sobre esses tais conteúdos. Depois disso me deparei com diversas situações de impedimento para o público do underground, pelo fato de pessoas que tenham feito tatuagem nos últimos 12 meses não poderem doar sangue e pela ausência de informações sobre Cannabis se tornem também um empecilho para doar.
Foi neste momento que eu notei que não é porque algumas pessoas não podem doar sangue que elas devem se manter de fora dessa realidade. Acredito que mesmo sendo uma questão de saúde pública é uma responsabilidade de todas as pessoas se conscientizar, ainda mais nos meios subculturais e marginalizados como somos, podemos fazer a diferença com ações estratégicas e de apoio contínuo. Então, por conta disso, os eventos possuem um valor simbólico de bilheteria, assim conseguimos reverter alguma coisa para nossas crianças, como um brinquedo, um incentivo, um sorriso.

Essas atitudes fazem toda a diferença na vida de quem está dentro de um hospital, com visitas restritas e a cada dia contando mais com a boa vontade do nosso sistema público de saúde. O evento é para trazer atenção para essa realidade que bem ou mal, todos nós estamos sujeitos. Este é o primeiro ano do Punk Donation e pretendemos continuar e a cada ano trazer mais bandas ativas no meio punk e com isso também descriminalizar nosso público.

Doar sangue é uma atitude voluntária, não se pode por conta da legislação qualquer meio de incentivo a essa prática, mas se pode divulgar e trazer informações sobre o tema. Por conta de minha vivencia pessoal tive acesso a algumas informações, como, por exemplo, que uma bolsa de sangue pode salvar até quatro vidas, que a reposição do banco de sangue é central e que as doações são para reposição. Ou seja, o paciente utiliza o banco de sangue e a família divulga a necessidade de reposição do mesmo. Algumas crianças podem receber plaquetas de oito em oito horas, então é muito delicado e relativo a reposição, mas a realidade é que se fosse uma questão cultural e solidaria, como é em alguns países, o ato do altruísmo faria disso um ato comum. Mas não tem como é uma questão de consciência mesmo.

Os coletivos envolvidos são o Artficina, que eu faço parte, e o selo Feio Records, que é um parceiro o Fernando Abreu que desde o início se prontificou a ajudar e colaborar com tudo, com o planejamento e programação.

NADA POP – Quantos shows do Punk Donation serão realizados até o fim deste ano? Aconteceu um no dia 11 de outubro (véspera do Dia das Crianças) no espaço Matilha Cultural, e o próximo acontece no dia 02 de novembro, no Zapata. Haverá mais eventos?

CAROLINE – A ideia é que o Punk Donation fosse um festival de pelo menos 3 dias consecutivos, mas neste ano não encontramos um espaço que tivesse infraestrutura e não fosse completamente burocrático para realizar os três eventos. Por conta disso paramos de procurar o ambiente perfeito e olhamos para os ambientes parceiros, como a Matilha Cultural e o Zapata, e um espaço público como o Centro Cultural Jabaquara. Isso foi indispensável para a realização do evento. A parceria dos espaços, bandas e infraestrutura. Além do evento passado (Matilha Cultural), ainda teremos dia 08 de Novembro no Zapata e dia 20 de Dezembro no Centro Cultural Jabaquara.

“If the kids are united” – Montagem que a Caroline nos enviou de todas as pessoas que ajudam direta ou indiretamente ou apenas dão inspiração para continuar lutando pela igualdade e pela conscientização. “Sem elas nada disso seria possível”, concluí.

NADA POP – E como está a participação das bandas? No primeiro evento rolou Mercenárias e O Inimigo, até o Edgard Scandurra deu uma palinha junto com as Mercenárias. Algo bem bacana, por sinal. Os espaços onde o evento é realizado parecem apoiar o projeto também, certo?

CAROLINE – A participação das bandas é realmente a cereja do bolo, pois é muito nítido o interesse de algumas bandas em especial, a participação foi completamente voluntária, nós criamos um grupo e deixamos as bandas se mostrarem interessadas em participar, nós apenas organizamos e deixamos a coisa acontecer. Gostaríamos de abraçar muitas outras bandas, também trazer bandas de outros estados, mas neste ano não foi possível, pois esta é uma iniciativa independente, nós nos organizamos e arcamos com as despesas dos eventos.
Os espaços são fundamentais, é muito importante ter a oportunidade de fortalecer com essas casas, como a Matilha que além da infraestrutura tem diversos objetivos comuns e propostas auto sustentáveis, e o Zapata, que está sempre com as portas abertas para gente.

NADA POP – E o público? Você acredita que a conscientização tem sido grande ou você acha que ainda falta interesse?

CAROLINE – Olha, realmente é muito delicado, eu sinto que as pessoas que contribuem estão envolvidas em muitas causas. Mas ainda falta muito arroz com feijão para que os pensamentos libertários saiam da garganta e se transformem em atitudes contínuas e de apoio mútuo.

Acho que essa é uma discussão eterna, porque sempre foi assim, há 10, 20 anos e hoje é assim. Existe uma falta de consciência coletiva e sabe… fazer o que, se com um evento nós conseguimos conscientizar 10 pessoas se pode voltar para casa sorrindo e muito satisfeito. Mas eu tenho esperança que isso mude com o tempo, a educação é um processo e para construir um senso leva tempo, muito tempo, isso para tudo, para a questão do machismo, do fascismo, do vegetarianismo.

Esse comportamento está baseado no sistema em que vivemos, onde tudo que acontece tem que ser super imediato, onde existe um turbilhão de informações digitais que as pessoas não conseguem (nem se quisessem) processar, por uma questão de sobrevivência e principalmente de opressão. Por mais que toda a informação esteja aqui na internet, o interesse é muito supérfluo, tudo está ligado a status e a ego.

Não existe como havia antes, aquele interesse em traduzir um som, ou como era difícil antes ter acesso, sentar para conversar sobre cultura, sobre música e dividir isso com os amigos. Acredito que isso possa melhorar se a qualidade da informação seja mais fluida e mais questionadora, com a disponibilização de atividades criativas e de estímulo ao pensamento aberto, isso funcionou muito em casas de cultura independentes como a Casa Mafalda, A Casa de Cultura Marginal, mas é muito difícil manter esses espaços enquanto o álcool é mais acessível do que um livro. É cultural e é independente.

Mas não dá para generalizar, pois eu vejo muita gente se movimentando em diversas ocasiões, mas ainda cada um em um núcleo, sem união, e dispersos somos muito celulares ainda, é isso que precisa mudar.

NADA POP – E como funciona a questão dos ingressos, quem apresenta carteirinha de doador ou comprovante de doação não paga o ingresso, isso? Todo o dinheiro arrecado é revertido em brinquedos para brinquedotecas de hospitais? Existe um hospital específico escolhido por vocês ou são vários (pode citar alguns?).

CAROLINE – A doação de sangue deve ser voluntária, sem nenhum tipo de benefício. Em nosso evento a verba dos eventos é revertida em brinquedos para os hospitais. Ainda estamos analisando os locais que serão beneficiados, mas a princípio vamos ajudar o Hospital Infantil Darcy Vargas. Mas ainda estou estudando outros locais que possam ter mais necessidade. A ideia é que ao término do evento seja divulgado o valor arrecadado e as fotos dos brinquedos, para que tudo fique transparente.

NADA POP – Caso alguém queira ajudar crianças nessas condições ou até mesmo ser voluntário, você indica algum site ou lugar de contato para mais informações?

CAROLINE – Um site bacana é o site da Pró-Sangue (clique AQUI), eles disponibilizam informações via site, tem uma central de atendimento telefônica gratuita e disponibilizam workshops para grupos de 20 pessoas, basta entrar em contato e dizer que gostaria de juntar um grupo e fazer o workshop, nele você pode ter acesso a mais informações possibilitando maior consistência na divulgação da informação.

NADA POP – Caso alguma banda tenha interesse em contribuir com o Punk Donation ou algum espaço queira receber este evento, como podem entrar em contato com você ou qual contato você poderia indicar?

CAROLINE – Basta entrar em contato, todas as bandas que tiveram interesse estão participando, como por exemplo O Inimigo que nos procurou voluntariamente e participou. Basta entrar em contato pelo e-mail: caroline.dinola@gmail.com. Quanto aos locais, procuramos apoio para o ano que vem, precisamos conseguir que o evento seja contínuo para que a gente possa unir bandas punks, hardcore, crust, straight edge.

Clique AQUI e confirme presença no próximo Punk Donation, que será realizado no dia 08 de novembro no Zapata.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop