domingo, 25 de agosto de 2019
Nada Pop

#03 – Os 5 shows de Bá Monteiro, guitarra e vocal da Wabi Sabi

Bá Monteiro – Foto: Rafal Chlapinski

Bárbara Monteiro, mais conhecida como Bá, desde 2002 é envolvida com o punk e hardcore. Ela é fundadora da banda WABI SABI, inspirada no punk e grunge que em 2014 lançou o EP “Demoiselle”. De acordo com a descrição da banda no Facebook, “é um som simples, orgânico, sincero, sem firula. Que reflete de forma muito clara e autoral quem é a Bá e tudo o que ela viveu. É resistência, superação e persistência. É não ter medo das suas imperfeições, se mostrar como verdadeiramente é e ter orgulho das marcas que o tempo deixou”.

Além de vocal, guitarra e compositora, Bá também é jornalista e colaboradora do site Audiograma. Em 2019, iniciou um trabalho de curadoria de shows com o Matheus Krempel, guitarrista e vocalista do The Bombers e dono do estúdio Porto Produções Musicais, para dar mais espaço para mulheres tocarem. “É um esforço nosso para tentar diminuir a grande desigualdade de oportunidades que infelizmente ainda existe para artistas devido a gênero”, explica.

Bárbara é a nossa terceira convidada para a série os cinco shows de uma vida, que busca apenas contar um pouco das experiências vividas em shows por músicos, entre outros artistas, mas de um outro ponto de vista. “Achei muito, mas muito difícil mesmo fazer essa lista, porque eu sou conhecida como ‘a louca dos shows’, já que costumo frequentar apresentações de música ao vivo pelo menos uma vez por semana e faz tempo que perdi a conta de quantos shows já vi. Mas escolhi os que mais me marcaram e inspiraram”.

Confira abaixo a lista do Bá Monteiro e não deixe de compartilhar e comentar o que achou dos escolhidos. Conhecia algum?

– Ecos Falsos (2009)

Em 2009 eu fiz 20 anos e organizei um festão em São Paulo. Eu queria fazer um festival de música, mas foi difícil conseguir um espaço cujo aluguel fosse “bancável”, além de alimentação, bebida e estrutura pra tocar, então a festa rolou em um restaurante na Faria Lima (a comida era maravilhosa, pelo menos). Dei o nome de “Aniverstock” e o convite era um CD (sim, gente, há dez anos ainda se usava CD!) com a capa inspirada no cartaz do Woodstock e uma playlist de músicas que eu gostava e que tocaram na festa (tudo rocão). Chamei bandas de amigos para tocar e também me apresentei com a minha banda da época. Daí, em um acesso de sandice, resolvi chamar os Ecos Falsos. Porque eu era MUITO fã da banda, doente mesmo (ainda sou, nunca parei de escutar), e, de tanto frequentar os shows deles e acompanhar tudo o que faziam, acabei conhecendo os caras e ficando amiga deles também. Chamei na ousadia, na cara de pau, achando que eles nunca fossem topar. Eu não tinha muito dinheiro, na real já tinha gastado toda a grana pra fazer a festa em si, então não tinha como pagar cachê pra ninguém, mas mesmo assim eles aceitaram e fizeram um show particular pra mim, meus amigos e minha família. Foi inesquecível, e serei eternamente grata por uma das minhas bandas preferidas ter feito essa enorme gentileza. Melhor presente de aniversário da vida! Até hoje imbatível. Quero até deixar aqui um “muito obrigada”, de coração, para Vini, Gustavo, Daniel, Davi, Rodrigo e todos os demais ex-integrantes.

– Blind Pigs (2003)

Eu tinha 13 ou 14 anos, não lembro que mês foi, estava na 8ª série e foi minha primeira vez no Hangar 110, o CBGB brasileiro. Eu já pirava em punk rock e foi o Rudá, meu melhor amigo da escola (com quem eu tive minha primeira banda, aliás), que me apresentou o Blind Pigs. Ele apareceu um dia na aula com o CD homônimo, aquele da capa de papel, que foi lançado em 2002. A gente era louco por esse disco, ouvia todo dia mil vezes seguidas, sabia todas as letras de cor (ainda lembro de cada palavra!) e então ficamos ansiosíssimos para ver o show deles. Naquele tempo eu nem tinha computador em casa e a internet era discada. A gente morava na zona sul (eu sou de Santo Amaro/Interlagos) e era muito moleque, então ir até o outro extremo da cidade, na Armênia, era uma saga e demorava quase duas horas de ônibus e metrô. Por sorte, meu pai também gosta de punk rock e nos deu várias caronas de carro para lá e de volta pra casa. Achei o Hangar o lugar mais legal do mundo, com os cartazes de shows colados pelas paredes e pelo teto, gente usando camiseta de todas as bandas que eu gostava, os punks no visu completo, de moicano e tudo. Entrei no bate cabeça, pulei do palco, me diverti demais. Na escola e na região onde a gente morava, era uma minoria que curtia essas coisas. A gente era meio nerd e deslocado, apesar de ter uma turma de amigos muito boa, então lá no show nos sentimos em casa, entre iguais, rolou uma identificação do tipo “achei minha galera e meu lugar”. A apresentação foi incrível e a banda até conversou com a gente depois do show! Foi muito inspirador ver uma banda local fazendo música tão boa quanto as bandas gringas que a gente gostava, e mais legal ainda por eles serem tão acessíveis e simpáticos com os fãs. Continuei frequentando o Hangar fielmente até a casa fechar, em 2017. Foram 14 anos de vários shows memoráveis e ótimos momentos, e até hoje sou muito fã do Blind Pigs e do Henrike, que sempre manteve uma postura coerente e íntegra e continua criando arte (respeito muito ele por isso).

– The Subways (2012)

Ver esse show foi uma verdadeira saga. O maior sonho da minha vida sempre foi morar em Londres, por vários motivos (e a música era um deles). De fato fui morar lá, mas alguns anos antes, em 2012, fui pela primeira vez (de férias) justamente para ver como era antes de mudar e me preparar melhor. No dia em que cheguei, de trem, desci na estação King’s Cross, botei “London Calling” do Clash para tocar e chorei muito. Nessa mesma viagem fui de ônibus até Birmingham de bate e volta só para ver uma das minhas bandas preferidas: The Subways. Eles nunca vieram para o Brasil, e gosto demais do grupo desde que era adolescente. Ver um show deles era outro grande sonho, e descobri que eles iam tocar enquanto eu estava por lá com ingresso a módicos 20 REAIS! Sim, custava só 5 libras a entrada e o câmbio na época era de 4 para 1. Dormi na rodoviária de madrugada depois do show, passando frio enquanto esperava o primeiro ônibus da manhã de volta pra Londres, e nesse show briguei com três minas locais de Birmingham que ofenderam a mim e meu namorado na época, que é negro, com agressões racistas e xenófobas (essa treta me inspirou a escrever uma música que se chama Birmingham Bitches, aliás), mas o show foi inesquecível, eles tocaram uma música que eu pedi via Twitter e desde então mantive contato com os integrantes, tendo entrevistado a baixista e vocalista Charlotte Cooper. Eles sempre foram super atenciosos e simpáticos com os fãs. No ano passado, o guitarrista e também vocalista Billy Lunn tocou uma música minha em um programa de rádio em Londres e eu quase tive um infarto ouvindo um dos meus ídolos elogiando meu trabalho. Para quem sempre achou que não era boa o suficiente e pensou inúmeras vezes em desistir, foi um tapa na cara e tanto. Quando morei na Inglaterra ainda tive a sorte de ver mais um show deles em Camden Town e o Subways é realmente incrível ao vivo, uma puta aula de presença de palco e energia. #pleasecometobrazil

– Blood Red Shoes (2011)

A escola de inglês Cultura Inglesa faz já há muitos anos um festival de música em São Paulo com shows gratuitos que é super bacana. Na edição de 2011 eles trouxeram a lendária banda Gang of Four e a dupla menos conhecida mas igualmente maravilhosa Blood Red Shoes para tocarem no Parque da Independência. Eu sou muito fã dessas duas bandas e pude ver os shows na grade, sem tumulto, com água grátis e ainda tendo a chance de conhecer o Blood Red Shoes pessoalmente (na moral, Cultura, eu te amo). Ainda fez parte da programação o Miles Kane, que tocava no The Rascals mas só ficou famoso por fazer dupla com o Alex Turner, do Arctic Monkeys, no projeto paralelo “The Last Shadow Puppets”. Naquele dia ele apresentou seu trabalho solo, que é muito bom, com um show bem legal. O Gang of Four também foi uma experiência seminal, mas quero falar dos Blood Red Shoes, porque ver a Laura-Mary Carter no palco tocando guitarra foi extremamente inspirador e motivador. Eu ainda pude conversar com ela e com o baterista Steven Ansell depois do show (eles até me deram autógrafo!). A Laura falou comigo sobre guitarras, pedais, composição e sua experiência como mulher na indústria da música, com todas as tretas de machismo que ela passou e como fez para superá-las. Ela sempre foi uma das minhas maiores referências como musicista e me incentivou muito. Acho que tive muita sorte de não me decepcionar ao conhecer meus ídolos – pelo contrário, só fiquei ainda mais fã deles. Essa experiência me fez enxergar o quanto é importante a representatividade, ver mulheres no palco tocando instrumentos e aumentar a participação feminina em festivais e qualquer outro tipo de evento ligado à música.

– Rancore (2008)

Esse show eu vi na finada casa Tribe House, em São Paulo. Semanas antes eu tinha tocado lá abrindo para o Soul Stripper, que eu amava e que também fez shows memoráveis (por favor, voltem!) – quase botei eles aqui na lista, mas tive que escolher o Rancore. Eu nunca tinha visto nada parecido com aquilo até então, mesmo indo a trocentos shows de todo tipo de banda e estilo musical. Essa foi a primeira vez que eu vi os caras tocando ao vivo. Depois, fui em todos os shows deles que consegui, porque era bom demais. O Rancore ao vivo parecia uma espécie de ritual mágico ou culto. O público parecia uma seita, extremamente fiel e apaixonado. Ficava todo mundo em transe, praticamente.

Era uma energia muito, muito forte, com uma massa de gente cantando cada palavra a plenos pulmões, fãs com tatuagens da banda, uma entrega gigante dos músicos e da plateia, muita interação e a energia típica de shows de punk e hardcore, mas sem a violência, como se todo mundo que estivesse ali fosse muito amigo ou até família. As pessoas cantavam, gritavam, choravam, abraçavam desconhecidos, faziam mosh e roda de bate cabeça sem se machucarem, um maluco pulou da bancada do segundo andar direto no pit e foi acolhido por todo mundo, não deixavam ninguém cair no chão. O Teco (vocalista) se jogou na galera, todo mundo parecia muito emocionado e estava sempre sorrindo, felizão. Era tudo muito forte e saí de lá me sentindo de alma lavada, acreditando num mundo melhor. Participar de um show do Rancore era extremamente terapêutico e não apenas divertido. As letras deles ajudaram e inspiraram muita gente, no show as pessoas eram legais demais umas com as outras, tinha muito respeito e empatia, como deveria mesmo ser. Você fazia amigos novos, todo mundo conversava. Era uma catarse coletiva imensa.

Não vou deixar de dizer que, assim como muitos fãs, também fiquei decepcionada com um recente posicionamento do Teco Martins sobre política. Afinal, para quem veio do punk e do hardcore e sempre passou mensagens tão fortes, reduzir toda a discussão nesse momento tão difícil que estamos vivendo a “esquerda e direita é tudo igual” me soa extremamente preguiçoso e incoerente. Mas admiro muito ele e acho que se expressou mal, que no fundo não pensa assim de forma tão simplista. O Teco é um cara legal, de coração muito bom. Infelizmente, hoje tem muito “punk” personalizando o Humpty Dumpty ou sendo completamente incoerente, já que “punk de direita” e “ancap” nem existe, pra começar. E esse episódio isolado jamais mancharia toda a relevância que o Teco e o Rancore tiveram. Só espero, de coração, que esse tipo de declaração infeliz não se torne rotina. Afinal, já pensou se o Teco vira o véio do Rancore que nem o Morrissey virou o véio do Smiths? Deus me dibre.

Bônus – The Biggs (entre 2007 e 2010)

Não consigo lembrar em que ano foi, só sei que na época eu ainda estava na faculdade, então o show aconteceu entre 2007 e 2010 na Outs, inferninho mais antigo da Rua Augusta. Vi muitos shows lá, até toquei na casa, mas minha cabeça explodiu foi quando eu vi a Flávia Biggs no palco. Eu me apaixonei imediatamente. Tinha ido ver outra banda que ia tocar com o The Biggs, não conhecia eles, então foi uma grata surpresa quando começaram a se apresentar. Eu fiquei vidrada no show, sem piscar, embasbacada e hipnotizada vendo aquela mulher tão talentosa e poderosa tocando guitarra. Depois disso fui atrás de tudo o que a banda fazia e descobri a pessoa incrível que é a Flávia, professora, ativista e que trouxe o Girls Rock Camp para o Brasil. Ela é maravilhosa e, desde aquela noite, sou muito fã. Realmente, ver mulheres no palco é extremamente motivador. Que continuemos tocando e conquistando cada vez mais espaço e respeito.

Agora gostaria de indicar a Camila Godoi, da banda Clandestinas, Carox Gonçalves, do Miami Tiger, e João Pedro Ramos, do site Crush em Hi-Fi, para listarem os shows deles.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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