sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Nada Pop

Uma gravadora de se encher os olhos

Uma boa capa não tem o poder de fazer um bom álbum, mas pense num ótimo álbum com uma ótima capa? Tudo fica melhor, pois nisso temos a arte para os olhos e para os ouvidos.

Com o lema “música para colecionar”, a gravadora independente Hearts Bleed Blue (HBB) parece pensar exatamente desta forma. Apresentando uma qualidade além das gravações dos álbuns, a HBB também procura manter um cuidado estético especial para os seus lançamentos.

Com origem em 2011, a HBB tem seu logo assinado pelo próprio Antônio Augusto, fundador do selo e designer gráfico com bastante experiência no ramo. Entre as artes produzidas pelo Antônio, é possível citar trabalhos com o Dead Fish, Parachamas e Clearview, incluindo também casas de show, como Hangar 110, e sites sobre música.

Atualmente a HBB conta com a colaboração de ilustradores, entre eles podemos citar o Paulo Rocker, André Catoto, Filipe Alonso e o casal Gustavo Magalhães e Carolina Maia, além do artista americano Ed Repka.

Nós batemos um papo com o próprio Antonio Augusto para falar sobre os cuidados da HBB com a parte visual dos álbuns. Em seguida, conversamos com o Paulo Rocker, ilustrador experiente e vocalista da banda Gramofocas. Confira abaixo:

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Capa do split entre Dead Fish e Zander, além do “Trilogia”, do Parachamas. Ambas desenvolvidas pelo Antônio Augusto.

ENTREVISTA – ANTÔNIO AUGUSTO (HBB)

NADA POP – Antônio, nos conte sobre a origem do nome da Hearts Bleed Blue e qual era o seu principal trabalho antes da HBB, como a arte e a música surgiu na sua vida e se você sempre prestava atenção nas capas dos álbuns.

ANTÔNIO AUGUSTO – Sempre fui fascinado por cores, formas e figuras. Não foi à toa que acabei desenvolvendo habilidades que me fizeram desempenhar a função de designer em agências de publicidade e estúdios de design por quase 10 anos. Também flerto com a música desde pequeno. Tenho lembranças de cantarolar versos de canções que meus pais me colocavam para eu escutar. Desde cedo tive referências de música clássica e música popular brasileira, respectivamente por influência do meu pai e da minha mãe.

A paixão não foi era só pelas capas, mas por tudo que está envolvido no meio, como cartazes, camisetas, adesivos… Então, em 2010, comecei a fazer cartazes dos eventos promovidos pelo site Zona Punk. Foi nessa época que saíram os primeiros trabalhos assinados como HBB. O nome veio de uma coletânea homônima lançada pela Deep Elm Records (EUA) em 2004, se não me engano.

NADA POP – Falando nisso, qual é a sua primeira lembrança de um álbum que chamou a sua atenção pela capa – independente da música – e o que você curtiu ou teve de impacto nessa imagem?

ANTÔNIO AUGUSTO – Quando vem esse assunto sobre capa de disco a primeira que vem na cabeça é a “When Life Comes To Death” do YAITW (Young and in the Way). Esse é um disco de 2014 e tem uma das capas mais bonitas que já vi. É uma capa forte, agressiva mas ao mesmo tempo sutil e harmoniosa.

Uma capa que lembro de antigamente é do álbum “Led Zeppelin IV” do Led Zeppelin. Por curiosidade foi o primeiro disco que tive nos formatos CD e LP.

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Capa do “Led Zeppelin IV”, do Led Zeppelin, e do “When Life Comes To Death”, do YAITW (Young and in the Way). Capas que marcaram o Antônio.

NADA POP – Cite, por favor, algumas das capas que você mesmo produziu antes da HBB. De todos esses trabalhos, existe algum que você tem mais apreço? Por qual motivo?

ANTÔNIO AUGUSTO – As primeiras capas foram feitas aqui dentro da HBB. Sempre tenho um carinho maior pelo último trabalho, que no momento é um que acabamos de fazer, o EP “Eu Venci / Teste” do Acidental. Entre outras que desenvolvi estão o split entre Dead Fish e Zander, V/A “Curto Circuito Vol.1”, Parachamas “Trilogia” e Clearview “Pure Mayhem”.

NADA POP – A impressão que temos é que, além da música, a HBB se preocupa bastante com a parte visual dos álbuns. Mas para você, qual é a importância dessa parte visual nos lançamentos da HBB e se há uma relação econômica relacionada nesse sentido, ou seja, você acredita que algumas pessoas podem compram um álbum só pela capa?

ANTÔNIO AUGUSTO – Antes de falar em arte de capa, o que importa é o conteúdo que está gravado no disco. Isso é o que vai fazer sentido para quem vai comprar um álbum. Num segundo momento, a embalagem que envolve essas músicas começa a ter relevância maior. Temos a felicidade de trabalhar com artistas incríveis no selo, e não precisamos nos preocupar com relação as músicas e composições. Assim, conseguimos focar para planejar todo esse projeto gráfico de lançamento do álbum. Mas claro, uma capa bem feita vai estimular as vendas, mesmo que as pessoas não conheçam o artista em questão. Aí depois vai da banda conquistar este possível novo fã.

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Capas do “Pure Mayhem”, do Clearview, e do EP “Eu Venci / Teste”, do Acidental.

NADA POP – No caso da HBB, como funciona a relação do artista (designer) com o selo e, posteriormente, com as bandas. Existem artistas contratados pela HBB ou são convidados? Há casos em que a própria banda seleciona o artista responsável pela capa?

ANTÔNIO AUGUSTO – Cada projeto é feito de uma forma única, não temos um padrão para a produção das capas. Hoje temos duas pessoas aqui que cuidam do material gráfico, o Tuti AC e eu. Algumas capas são feitas por nós e outras são feitas por artistas indicados pela própria banda.

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“Curto Circuito Vol.1”

NADA POP – E falando especificamente da composição da arte do álbum junto com a banda, como (na maioria das vezes) funciona essa relação? As bandas indicam um caminho ou o artista é livre para idealizar essa arte? Em alguns a capa também é criada em conjunto com a elaboração do álbum (da gravação até a finalização das músicas)?

ANTÔNIO AUGUSTO – Quanto a criação, isso também varia conforme o projeto. Tem bandas que já trazem uma ideia bem madura do que eles querem de arte, outras vezes nós ajudamos a construção do projeto desde o começo.

NADA POP – Você conseguiria indicar alguns dos trabalhos mais interessantes da HBB nesse sentido? Quais capas você destacaria e por qual motivo? Se quiser, podemos focar nos últimos lançamentos da HBB e características desses trabalhos.

ANTÔNIO AUGUSTO – Um dos projetos que estamos trabalhando com muito foco no design é a coletânea “Para Incomodar”, desenvolvida pelo designer Paulo Rocker. Lançamos o primeiro volume da série recentemente e já estamos ansiosos para ver o resultado das próximas capas.

NADA POP – Quais dicas são fundamentais para as bandas que almejam um bom trabalho visual de seus álbuns?

ANTÔNIO AUGUSTO – A melhor dica para quem quer desenvolver boas capas de discos é buscar referências, estudar o que já foi feito e trabalhar com bandas que querem ter uma trabalho bem feito embalando suas músicas.

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ENTREVISTA – PAULO ROCKER

Entre os trabalhos com bandas já assinados pelo Paulo Rocker, podemos citar o Blind Pigs, Autoramas, NX Zero, Gloria, Magaivers, Carbona e diversos outros. Além disso, o Paulo também assina a arte da coletânea de street punk “Para Incomodar”, lançada no ano passado pelo sub selo da HBB, Semper Adversus. Confere a entrevista com o Paulo e não deixe de visitar o seu site para dar uma conferida nas artes que ele produz, vale muito a pena.

NADA POP – Paulo, por favor, nos conte sobre o seu trabalho, como tudo começou? Além disso, alguma capa de disco serve como inspiração pra você até hoje?

PAULO ROCKER – O lance com capa de disco veio naturalmente, acho que por eu ser ilustrador e estar envolvido na cena, principalmente pelos Gramofocas. Aí você termina conhecendo um monte de gente de banda e selos…

Eu sempre curti muito capa de disco, sempre me deixei levar pela capa, o que as vezes é uma merda (haha). Lembro quando lançou o Heavy Petting Zoo, do NOFX, é uma capa muito sensacional né? Ainda mais quando você é moleque…

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Capas desenvolvidas pelo Paulo Rocker. Do lado esquerdo está “Capitânia”, do Blind Pigs, e do lado direito a coletânea de street punk “Para Incomodar”.

NADA POP – Quais trabalhos para a HBB você já realizou e como foi o processo de desenvolvimento dessas artes? Existe algum trabalho que você goste mais, e por qual o motivo?

PAULO ROCKER – Se eu não me engano, os trabalhos que eu fiz pra HBB foram por meio do Henrike, do Blind Pigs. Como a gente já faz coisa junto faz um bom tempo, já estamos acostumados a trabalhar um com o outro. Ele me passa a ideia que ele tem (e ele é BEM específico – haha) e eu tento entrar na onda dele. O resultado sempre fica legal pracaralho.

Gosto MUITO do Capitânia, do Blind Pigs, acho que ele é um trabalho que conversa em todas as mídias, ele foi todo pensado não só como uma capa de disco mas como um projeto inteiro. E saiu não só em CD mas em vinil, vinil picture, camiseta, adesivo, pôster etc.

NADA POP – Em sua opinião, qual a importância de uma boa capa para as bandas que pretende lançar os seus álbuns (vinil/cds de forma física?).

PAULO ROCKER – Hoje em dia ninguém precisa comprar música, né? O cara tem a opção de baixar tudo de graça e, se você vai comprar é porque vale a pena. O vinil principalmente, tem essa coisa de ser uma peça de arte, capa grande, encarte grande. É bonito de mexer e até mesmo de emoldurar. Um bom disco, que merece ser comprado, é um disco todo completo, da capa às músicas. Daqueles que você coloca pra ouvir e fica olhando o encarte cuidadosamente.

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Capas do The Squintz e Magaivers, arte por Paulo Rocker.

NADA POP – O que irrita mais um ilustrador durante o desenvolvimento da capa com a banda?

PAULO ROCKER – Hahah, que bela pergunta! Acho que o que mais me irrita é quando a pessoa não sabe o que quer mas finge que sabe. Manda um monte de referências, mas quando recebe o desenho pronto diz que não era nada daquilo e resolve mudar tudo.

Mas na real um monte de coisa irrita (haha). O que importa é o resultado ficar bom para as duas partes. É muito ruim fazer um trabalho que você não goste e esteja infeliz fazendo e, ao mesmo tempo, quando fica bom você até esquece das chateações.

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Arte desenvolvida pelo Paulo para a banda Autoramas.

NADA POP – É preciso ouvir o som da banda antes ou durante (ou nem precisa) para sacar o estilo de ilustração de um álbum?

PAULO ROCKER – Precisar não precisa, mas eu sempre acho importante. Acho que a banda funciona como um todo né? E a arte do disco tem que conversar com a banda. Quanto mais você conhece a banda melhor fica o trabalho. Mais íntimo e mais específico.

NADA POP – Quais sites, páginas ou qualquer outro link que seus trabalhos estão disponíveis para quem quiser ver?

PAULO ROCKER – Acho que a maioria das coisas tá aqui:

http://www.behance.net/paulorocker

http://paulorocker.deviantart.com/

NADA POP – Deixo o espaço aberto para que você possa acrescentar qualquer informação sobre o seu trabalho ou o que julgar necessário.

PAULO ROCKER – Obrigado HBB, pelo BELO trabalho que vocês andam fazendo. Pela preocupação com a qualidade do produto como um todo. Me sinto honrando em fazer parte dessa empreitada!

E valeu principalmente ao Nada Pop, é massa ver gente que ainda se preocupa com a música!

Abração.

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Matéria desenvolvida e inspirada em outra publicação, feita pelo site Daily Hardcore. Ela pode ser conferida clicando AQUI. Nossos agradecimentos para Antônio Augusto, Paulo Rocker e Paola Zambianchi.

Hearts Bleed Blue

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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