sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

Uma entrevista Devastadora sobre punk e hardcore feminino vindo do Sul

Devastadoras é uma banda de hardcore punk feminina de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, formada em setembro de 2012 com o objetivo de relatar e externar suas revoltas sobre toda a injustiça cometida e a banalidade com que a vida humana e tratada na sociedade. Com som direto e verdadeiro, as Devastadoras trazem em suas canções todo o peso e acidez feminina, com letras autorais e ao velho modo D.I.Y. essas gurias vem mostrando que não estão para brincadeira.

Em outubro de 2013,  a banda realizou seu primeiro show no Mutantes Bar,em Porto Alegre. No mesmo ano, gravaram uma demo ao vivo intitulado “Devastadoras Barulho Konsciente”, com cinco faixas. Com a formação consolidada por Rosa (vocal), Cami (guitarra), Tai (bateria) e Manu (baixo), espalham anarquia e hardcore por onde passam. A banda nesses quatro anos de correria já realizou diversos shows em Porto Alegre e em cidades da região metropolitana, como Gravataí, Santa Maria, Canoas entre outras, além de dividir o palco com as bandas Olho Seco (SP), Karne Krua (SE) e recentemente com a banda Armagedom (SP).

Em 2015, a banda participou da coletânea Contra Cultura Vol. I, abrindo a coletânea com duas faixas inéditas: Olhos Inocentes e A Paz não existe. Participaram desse trabalho também as bandas Katastrofe Social,  F.O.S., Suicídio Coletivo, Repudiyo, Nute, Condenados, Horda Punk, Funeral, Arquivo Morto, Dona Iracema, Corrosiva, Bloqueio Mental, Lobinho e os três Porcão, Atritos HC, Grotesque e Ruídos de Horror. O material foi lançado pela Contra Cultura Records. Para obter o material e saber de mais informações só entrar com contato com a distro.

A banda atualmente está em estúdio gravando seu primeiro CD, que está previsto para ser lançado ainda neste ano. Em um breve bate-papo com as gurias, elas nos contam um pouco sobre a trajetória da banda e expõem seus pontos de vista.

Ficaram curiosos? Então confira aí!

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Devastadoras – Crédito: divulgação

NADA POP – Gostaria de agradecer a disponibilidade de vocês em ceder ao Nada Pop esse papo. Como vocês se conheceram, como surgiu a ideia de formar a banda e por quê?

DEVASTADORAS – Lary, agradecemos pela oportunidade de falar um pouco sobre nós e a banda, ficamos felizes com este trabalho de expansão das bandas do cenário nacional. Obrigada Nada Pop! Bem, nos conhecemos de longa data, provavelmente há uns 15 anos ou mais… Provavelmente pelo acaso de estarmos em um rolê pelas ruas, gigs, morávamos em cidades diferentes, mas nossos encontros foram mais constantes e com isso nos tornamos amigas. A ideia de formar banda partiu da nossa guitarrista, a Cami, que começava a criar umas bases num violão junto com Briane (primeira baixista da Devastadoras), e assim de uma forma natural surgiu a ideia e o propósito da banda em sua essência: expressar, questionar e falar sobre a realidade do mundo sob nosso olhar.

NADA POP – Como surgiu a ideia do nome e o que ele representa para vocês?

DEVASTADORAS – Devastadoras surgiu de uma expressão, uma gíria jornalística: “Como a droga é devastadora”, “Essas tragédias foram devastadoras”. Esse tipo de coisa… O nome da banda tem um peso forte, pra mim (Tai) ele representa todas as ações relacionadas a destruição, a desvalorização das pessoas enquanto seres sociais, os desmandos causados pela ganância etc. No contexto sonoro o nome define o estilo da banda.

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Devastadoras – Crédito: divulgação

NADA POP – Quais são as principais influências da banda?

DEVASTADORAS – Temos muitas influencias sonoras diferentes, que vem de inúmeras bandas do hardcore como Kaaos, Discharge, Doom Extreme Noise Terror, Kaaos, passando pelas bandas do Brasil, como Armagedom, Ratos de Porão, Cólera. Ouvimos muitas coisas diferentes e atuais de vários países, mas o que grita mais vem do hardcore e do punk rock.

NADA POP – Como vocês veem a participação feminina no cenário musical hoje? E como interagem com as outras bandas femininas?

DEVASTADORAS – Vemos pouca participação feminina no cenário aqui no Rio Grande do Sul. Conhecemos algumas bandas de mulheres em atividade no Brasil, posso dizer que com essas que mantemos contato temos bastante afinidades, mas por enquanto não tivemos ainda a oportunidade de tocarmos juntas.

NADA POP – Hoje no cenário independente em que as protagonistas são as mulheres, muito se fala sobre a violência doméstica, abuso sexual e tantos outros tópicos voltados ao feminismo, mas a questão do aborto ainda é vista com um certo tabu. No Brasil milhares de mulheres morrem em tentativas frustradas de aborto e muitas vezes são expostas a diversos fatores de risco e desumanos ao se submeterem a essa prática. Qual é a visão da banda em relação  descriminalização do aborto?

DEVASTADORAS – Bem, (Tai) penso que o aborto seria um direito da mulher em caso de uma violência cometida contra ela ou ate mesmo por uma opção pessoal. É complicado nesse país dizer que as mulheres tem direitos para exercerem… Existem muitas coisas injustas e desiguais que interferem diretamente na vida de todas. No trabalho podemos observar isso também, mulheres produzindo o mesmo e tendo seu salário sempre inferior aos dos colegas homens. Agora voltando ao tema, creio que as mulheres tem que ter direito sobre seus corpos sim. Pois como podar a liberdade individual de cada ser se esse é responsável por si mesmo, por atos, decisões. Descriminalizar e não comprometer mais a saúde e o psicológico dessas mulheres e não apoiar mais a prática de clínicas clandestinas.

NADA POP – A mídias sociais vem assumindo um papel fundamental na formação de debates, tanto voltados ao feminismo quanto a diversos outros temas, na opinião da banda, como isso pode contribuir para a desconstrução do machismo na sociedade? Até que ponto isso pode ser visto com algo benéfico?

DEVASTADORAS – Debates podem ser construtivos desde que passem uma ideia de como o machismo é algo que oprime e diminui a mulher. Enaltecer a figura do homem como ser superior na sociedade colocando a mulher como figuração, objeto ou qualquer outra coisa que a denigra… Não somos feministas, mas também não apoiamos o machismo, achamos idiota essa pratica que e passada de geração pra geração, de pai pra filho, de mãe pra filha, de homem pra mulher… Isso só faz crescer a ignorância. O desenvolvimento das pessoas é retardado por esses ensinamentos retrógrados. Todo o debate é benéfico neste sentido, fazendo as pessoas se questionarem, saberem que isso é ruim e ver como se pode desconstruir isso, deste ponto de vista tranquilo.

NADA POP – Acreditam que uma banda formada só por mulheres atraí mais atenção ou gera mais preconceito por parte do público e/ou organizadores de eventos? E qual é a maior dificuldade hoje de se manter uma banda no cenário underground?

DEVASTADORAS – Acredito que uma banda feminina chama mais atenção sim por não ser muito comum. Preconceito ainda não enfrentamos, pois sempre buscamos nosso espaço e sempre fomos respeitadas por onde passamos mandando nosso barulho!!! Manter uma banda no cenário underground é difícil quando tu não consegue encontrar nenhuma pessoa com afinidade cultural, musical, ou ate mesmo comprometida com as atividades que uma banda underground precisa manter para continuar a existir… Vejo que a falta de comprometimento das pessoas que fazem parte das bandas são  razão das dificuldades na cena.

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Devastadoras – Crédito: divulgação

NADA POP – Os espaços e oportunidades ofertadas para as bandas femininas são os mesmo que para bandas masculinas?

DEVASTADORAS – Acredito que sim. Aqui nunca tivemos dificuldades por falta de espaço, somos muito incentivadas a continuar e quando surge uma oportunidade, nos convidam pra tocar!

NADA POP – Houve uma grande mudança comportamental no punk dos últimos anos para cá, com isso muita coisa se perdeu, a atitude, a essência, o faça você mesmo, tudo ficou digitalizado e perdido atrás de um computador, essa mudança de certa forma atingiu diretamente as bandas. Como isso afetou o trabalho de vocês? Como lidam com essa nova geração?

DEVASTADORAS – Tudo muda, ou está sujeita a transformações bem como deturpações… Percebo muita superficialidade, egocentrismo, falastronices, isso tudo em redes sociais… A cultura punk tem como proposta ser anti social neste sentido… Nos divulgamos através do Facebook, Youtube, mas usamos para isso, não para contribuir com polêmicas, violência, isso foge muito de atitudes coerentes. Mas percebo que muitas coisas mudaram, novas gerações vendo e usando o punk como escada para algum tipo de atitude que não seria punk na essência… Se promovendo ou querendo chamar atenção de alguma forma postando fotos com visual, mas não tendo nenhuma atitude, só conversas bobas sem sentido usando frases antigas do punk, como forma de exibicionismo. Acho que essa nova geração (que não são todxs), traz consigo um comportamento de uma era onde tudo está de fato mais fácil, mais acessível. Ouço amigos aqui que tem 20, 30 anos de punk dizerem que as coisas hoje são muito fáceis, como formar uma banda, comprar instrumentos e ate mesmo ouvir um som… É tudo mais acessível. Creio que essa facilidade faz as pessoas usarem a cultura pra se exibir, mas na real pagando uma de babaca por não sentir o quanto é essencial se ter uma ideia, uma vivência pra se auto afirmar punk.

NADA POP – Algumas bandas femininas já sofreram “ataques cibernéticos”, pessoas que se aproveitam do anonimato para atacar, ofender e atingir ou outros. Vocês já sofreram algo do tipo? Se sim, comentem.

DEVASTADORAS – Bem ainda não. Só muitxs babacas querendo falar coisas sem nexo, sem ter nada a ver com o trampo da banda, perguntam e falam muitas asneiras e ainda mandam bjs e bjs no final. Quando notamos isso já zoamos com elxs e boicotamos total!!!

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Devastadoras – Crédito: divulgação

NADA POP – Com a atual situação política/econômica do país, é impossível não mencionar e analisar os reflexos que isso tem tido na sociedade em geral, o aumento da taxa de desemprego e tantos outros problemas que geram mais desigualdades, desequilíbrio e conflitos violentos sociais. Vivemos tempos difíceis e preocupantes, vocês como banda utilizam da música como ferramenta de protesto e empoderamento social, como lidam com essas questões políticas/sociais? Como tudo isso afeta diretamente ou indiretamente o trabalho de vocês?

DEVASTADORAS – Fazemos um som expressando nossas ideias, enxergamos a realidade obscura das guerras, a cultura de morte que impregnou a sociedade, o primitivismo que a falta de inteligência causa, admitimos que o caos social está aí e que a corrupção e uma coisa bizarra e comum nesse país… (Tai) Não me lembro de nada  diferente desta cultura de miséria, nenhuma boa notícia. O que falamos nas letras é tudo o que vemos e vivemos!

NADA POP – Em nome do Nada Pop, gostaria de agradecer mais uma vez o bate-papo e dizer que o espaço estará sempre aberto à vocês e as bandas do nosso underground. Para encerrar, gostaria que fizessem suas considerações finais, divulgassem a agenda de shows da banda, projetos, passem sua mensagem/recado, enfim… Esse espaço é de vocês! 🙂 

DEVASTADORAS – Obrigada Nada Pop! Obrigada pelo espaço! Agradecimento especial as parceiras e amigas integrantes da Devastadoras (a nossa persistência)!!

AGENDA: Dia 06 de agosto em Canoas RS), com Kaos 64. É possível que em outubro vamos tocar em São Paulo, em novembro no Rio Grande (RS), mas com algumas datas a confirmar ainda para este ano. Estamos gravando e mixando as canções que serão entre oito e nove ao total, do nosso primeiro CD, totalmente autoral. Trabalhando também em parceria com um desenhista  que já esta compondo a arte da capa e que estará em breve concluído. Em resumo gostaria de dizer as pessoas que parecem estar mortas em vida: ACORDEM!!!

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Sobre o autor

Lary Durante

Formada em Comunicação e Marketing pela Universidade Cidade de São Paulo, além de baterista da banda de punk Ratas Rabiosas. Também é colaboradora da revista eletrônica Hi Hat Girls Magazine.

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