quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Nada Pop

Sertão Sangrento: de Caicó (RN) o encontro entre o horror punk e o sofrimento real

A excelente qualidade técnica da gravação, trabalho realizado por Paulo Medeiros no Estúdio Mente Aberta, já chega pra se unir aos inúmeros discos lançados nos últimos dois anos que colocam o material das bandas brasileiras no mesmo patamar das internacionais nesse quesito. Porém, essa é apenas a menor das virtudes de “Vidas secas”, primeiro álbum da banda potiguar Sertão Sangrento.

Os elementos típicos do horror punk, estilo declarado da banda, estão todos lá, assim como as óbvias influências dos gigantes do gênero, como Misfits e porque não, Zumbis do espaço (que parecem inclusive ter sido homenageados na faixa “Hoje é noite de halloween”, quinta do disco). Mas existe uma coisa única no som do Sertão Sangrento e que salta aos ouvidos já na primeira audição. É claro que não ficaram de fora as histórias sobre monstros da noite, psicopatas sanguinolentos ou zumbis insaciáveis. Só que aqui o horror também é real. O sangue que corre nas letras é o sangue sertanejo. As milhares de mortes não são causadas por monstros fictícios, mas pela seca brutal que castiga o agreste do país, pelo descaso das autoridades responsáveis e sua infinita ganância e egoísmo. Suas vítimas não se levantam dos túmulos do cemitério dos anjos, descrito na comovente narração durante a introdução da faixa “Vidas secas”, onde os próprios pais cavam as covas de seus filhos, mortos ainda na primeira infância. Cemitério clandestino, onde das 53 covas, apenas 13 são de adultos.

O desespero toma conta da sua mente
O suicídio é um desejo latente
Comendo o pão amassado pelo cão
Esse é o dia a dia de quem vive no sertão

Pesado. Tão pesada quanto a cena retratada com maestria pelo ilustrador Wendell Nark na capa do CD. Do tipo que já coloca o cabra em estado de reflexão antes mesmo de ouvir as músicas. A provocação pra te tirar o sono e te dar um motivo ainda mais forte pra prestar muita atenção neste trabalho.

Mas pode baixar a guarda que nem tudo são espinhos. No decorrer das 10 faixas do álbum há momentos românticos “felizes” como em “Seu coração é todo meu”, com uma levada deliciosa e até um country maroto (Maldito ritual). Também tem ô ô ô pra cantar junto, letra em espanhol cantada pelo baixista e a coisa toda!

Um discaço, pra deixar bem claro que o horror punk brasileiro está em muito boas mãos e que a cena na região nordeste é ainda mais quente que o clima por aquelas bandas. Mas que de seca não tem nada.

A banda é formada por Popeye (voz), Marcio Death (baixo), Ely Sangrento (guitarra) e Markim Sangrento (bateria). Compre pelo site do selo Microfonia, basta clicar AQUI.

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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