sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Nada Pop

Saí do Mato Grosso do Sul com a minha banda para tocar no Hangar 110. FOdA!

Um relato do Arthur Banzatto, baixista da banda Xupakabras, que destaca a experiência de ter viajado pela primeira vez como banda para tocar em São Paulo. Acompanhe!

Pé na estrada

Foi a primeira viagem de banda que fizemos de avião. Gostaria de escrever que somos caipiras pobres do interior, que nunca havíamos pisado em uma aeronave na vida e que estaríamos todos muito nervosos e assustados com isso, mas estaria sendo mentiroso. Todo mundo da banda já tinha viajado de avião pelo menos uma vez. Nos outros shows que fizemos fora do nosso estado (SC, RJ e DF), acabamos indo de carro mesmo para reduzir os gastos, mas dessa vez achamos passagens promocionais partindo de Campo Grande (também conhecida como Campo Grind), capital do Mato Grosso do Sul.

xupakabras_tam

Xupakabras com destino à São Paulo – Crédito: Arquivo da Banda

Saímos de Dourados na sexta-feira à noite (08/04) e pegamos umas 3 horas de estrada até Campo Grande. Em uma parada no meio do caminho encontramos um amigo das antigas que perguntou para onde estávamos indo. Após escutar que iríamos tocar roque em São Paulo, ele nos fez uma indagação muito pertinente: “Porra, vocês ainda estão nessa?”. Pois é, tem muita gente que não aprende com a vida e continua insistindo nos mesmos erros. Fazemos parte desse grupo!

Chegamos a Campo Grande no início da madrugada. Metade dos integrantes optou por tirar uma rápida soneca na casa de um camarada Everton Rodrigues. A outra metade optou por beber cerveja junto com ele em um bar. Achei a segunda opção a mais sábia. Embarcamos às 4h e chegamos em São Paulo às 6h30.

Aquecimento

Aparecemos no Hangar 110 por volta das 16h, no dia 09/04, para acompanhar a passagem de som do Cueio Limão e aguardar pela nossa vez de fazer o mesmo. A partir de determinado momento, começou a bater um nervosismo, pelo menos da minha parte. Não sou músico, não sei tocar nem regular meu instrumento direito. Talvez tivesse ido longe demais com isso. Pode ser que galera de São Paulo encare o Hangar com mais naturalidade, mas para mim era algo meio surreal. Com 12 anos de idade eu não tinha nem sinal de bigode na cara e já pirava em conhecer o lugar. Ficava acompanhando o site deles na internet discada, vendo os flyers e as fotos das bandas que eu curtia que tocavam por lá (Holly Tree, Carbona, Zumbis do Espaço, Blind Pigs).

Tive que me contentar em ver os shows apenas pelo Youtube até meados de 2013, quando eu e um dos guitarristas do Xupakabras, Victor Dejard, tivemos a oportunidade de ir para São Paulo e colar no famoso templo do underground pra curtir um evento foda em que rolou Mukeka di Rato, Leptospirose, Lomba Raivosa e outras bandas.

xupakabras_hangar_01

Xupakabras na frente do Hangar 110 – Crédito: Arquivo da Banda

Foi ali que conheci pessoalmente um sujeito chamado César Passa-Mal, que viria a ser o nosso “cinegrafista” por um dia. Além de ser responsável por filmar e editar nosso show, ele nos deu uma força na hora de regular o som e, o mais importante: liberou o decreto para iniciarmos os trabalhos no boteco do outro lado da rua. Alguns vários copos de cerveja foram suficientes para reduzir a ansiedade pré-show. Não existe remédio melhor!

Mão na massa

Depois de muitas cervejas, zueiras e retratos, era hora de voltar para o Hangar e executar nossa tarefa. Para a nossa surpresa, a galera não perdeu tempo e compareceu em peso desde o início do evento. Muito legal essa atitude de chegar cedo para prestigiar as bandas de abertura.

Xupakabras

A sensação de tocar no Hangar 110 foi foda em todos os sentidos. Público foda, estrutura foda e som foda. Não faz muito sentido eu ficar escrevendo sobre a performance da minha própria banda, então vou pular essa parte. Melhor deixar para uma resenha de verdade.

Destaco apenas a participação especial do Camilo (vocalista do Cueio) durante o medley Garota Sertaneja (autoral) / Pense em Mim (Leandro e Leonardo). O cara já tinha cantado com a gente na gravação do nosso primeiro álbum e agora repetiu a dose ao vivo. Na segunda metade do medley, o Mano (guitarrista do Cueio) não resistiu ao clássico sertanejo dos anos 90 e também se juntou a nós. Foi uma puta honra poder dividir o palco com nossos ídolos locais da juventude.

xupakabras_hangar_02

Já dentro do Hangar 110 – Crédito: Arquivo da Banda

Saímos com a sensação de dever cumprido e até mesmo com um pouco de orgulho, coisa rara na vida do Xupakabras.

Bad Flip

Os paulistas do Bad Flip se apresentaram logo depois da gente. Trocamos algumas ideias rápidas durante a mudança das bandas no palco. Não sei se era o efeito do álcool, mas eles me pareceram rapazes muito simpáticos. Não conhecia muito sobre a banda até então, mas tinha assistido um ou outro clipe e deu pra sacar que era um lance meio Pop Punk/ Hardcore melódico anos 90.

Logo no início do show eles mandaram uma música que eu tinha certeza que conhecia de algum lugar. Depois de tanto pesquisar na rede mundial de computadores, finalmente descobri que os caras se chamavam HIT antes de virar Bad Flip. A tal música saiu no volume 2 da coletânea do site Pop Punk Academy e se chama “Cronofobia”. Ouvi muito essa coletânea, que também conta com Xupakabras e diversas outras bandas maneiras. Mistério desvendado!
O resto da apresentação manteve o ritmo animado. Tinha uma galera que parecia conhecer bem o trampo dos caras, cantando e pulando durante as músicas. Em determinada altura do campeonato, percebi que um integrante da banda estava tocando um instrumento que de longe não deu pra sacar se era um cavaquinho ou um violão de brinquedo. Também não percebi se era apenas uma piada ou uma tentativa real de fazer um crossover com pagode. Fica a dúvida!

xupakabras_hangar110

Show da Xupakabras no Hangar 110 – Crédito: CTA

Cueio Limão

Sou meio suspeito pra comentar sobre os caras. Ouvi o nome da banda pela primeira vez no longínquo ano de 2002, quando descobri que eles iriam abrir um show do Charlie Brown Jr. em Dourados (MS). Não pude ir naquela oportunidade, mas fiquei surpreso com o fato de existir uma banda de hardcore autoral na minha cidadezinha pacata do interior. Fui pesquisar e consegui uma cópia emprestada da demo deles através do namorado da irmã de um amigo meu, que por sua vez era “amigo do Cueio”. Achei foda!

Passei a acompanhar os shows sempre que podia, desde apresentações em pátios escolares até eventos maiores em Dourados e Campo Grande. Foi legal perceber como a banda ascendeu rápido no cenário independente. A partir de determinado momento, Cueio Limão passou a ser referência quando eu conhecia alguém de outro estado: “Dourados? Não é a cidade do Cueio Limão?”.

Sobre o show do último sábado, o que mais me chamou atenção foi o carinho da galera pela banda. Ingressos esgotados de forma antecipada, não apenas pelo público paulistano/paulista, mas por gente de várias outras cidades/estados do Brasil. Galera cantando em peso todas as músicas do setlist, que abrangeu todos os três álbuns de estúdio, com destaque para o segundo, “Ainda Sou Um Rockstar” (2006), que estava completando 10 anos de lançamento.

xupakabras_cueiolimao

Xupakabras junto com o Cueio Limão – Crédito: CTA

Invasões de palco; fãs tomando os microfones da banda; rodas de pogo e mosh foram cenas recorrentes enquanto o Cueio Limão estava se apresentando. Os caras mandaram bem pra caralho, puta energia e entrosamento, nem parecia que estavam há anos sem tocar juntos. Houve um momento em que eu cogitei ir ao banheiro e buscar mais cerveja, mas não surgia a oportunidade adequada. Não tinha uma música ruim ou mais ou menos pra fazer esse tipo de coisa. Acabei mudando de plano.

No final do show, eu estava embriagado demais para lembrar se teve BIS, mensagem para os fãs ou alguma promessa de retorno.

Fim de noite, hora de tomar a saideira e se despedir da galera. Foi bom enquanto durou. Voltamos para Dourados e para a nossa realidade com contas a pagar, mas também com novas amizades, experiências e memórias. Nos divertimos pra caralho e é isso o que importa. Pode parecer papo de hippie, mas não tem dinheiro que pague isso. Missão cumprida. Tchau!

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Nada Pop

Nada Pop é um espaço sobre punk, hardcore e alternativo.

%d blogueiros gostam disto: