quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Rock na floresta

Confira como foi o III Independência e Rock no Simplão de Tudo nos dias 06 e 07 de setembro

Texto por Thamara Bogolenta

São Paulo, estação Pinheiros, 6h30 da manhã. Minha cabeça nem funcionava direito e eu já estava com a mochila nas costas e o Vans marrom no pé esperando parte da galera e contando os minutos para sentir a grama úmida do Simplão nos meus pés. A viagem aconteceu assim, tudo muito rápido e desorganizado, não tinha barraca para todo mundo, faltou coberta e principalmente comida – mais quem liga pra isso quando no lugar se pode ter amigos, música e um lugar capaz de levar pra bem longe todo e qualquer caos mental normalmente ocasionado por uma vida de cidade grande. Põe tudo nas costas, pega o trem por toda vida, desce em Rio Grande da Serra, bebe água da torneira porque a verba é pouca, racha o transporte com a galera e aproveita pra dormir no carro por que vêm dois dias de grama, água fresca e muita música. Dormir então seria a última coisa que daria tempo pra fazer.

Dez e alguma coisa da manhã já estávamos chegando e sabíamos disso porque a música alta no meio do nada nos mostrava o caminho. Chegando lá, encontramos a galera que havia chego no dia anterior, abraçamos a Cris, trocamos o tênis surrado por um chinelo qualquer e bora dar uma volta, sentir a água fria e cristalina das cachoeiras e o sol da manhã massagear o rosto, porque afinal de contas, “a vida é tão mais vida de manhã…”.

A tarde foi chegando, todo mundo estava na mesma sintonia. Alias, o Simplão tem esse poder sobre as pessoas: unifica tudo e da a sensação de que aquele é realmente o nosso lugar. A Cris deixou seus tão amados vinis à disposição para que a galera escolhesse a playlist – o que foi feito com louvor. A cada troca de música, era como se aquela fosse a música da minha vida. O sol se pôs assistindo a libertação de espírito de todos que estavam por ali. Não havia preocupações, problemas e nem tempo ruim: a vida acontecia de fato.

Banda Sangoma – Foto por Thamara Bogolenta

Tô no Simplão e quero o quê? Banho frio na cabeça relaxa. Coloca o moletom, pega o tênis sujo de barro e vamos assistir ao documentário de uma das maiores bandas de rock’n’roll do mundo: Rolling Stones com produção do próprio Jagger. E agora, querer mais o que? Música, dança, calor da fogueira e das pessoas. Quero, neste momento, deixar de “querer” qualquer coisa para aproveitar qualquer coisa.

Os shows começaram (e a vida sorriu), só quem é apaixonado por música sabe a emoção de ouvir o primeiro riff de uma música ao vivo. O coração vibra no mesmo ritmo. Era um festival de bandas independentes e autorais, não conhecia nenhuma delas, mas foi rápido perceber que os acordes da primeira banda eram familiares, o bom e velho hardcore californiano nunca morre, Bad as People tocou muito e muito bem, mais foi o grupo Sangoma que fez com que eu, meus amigos e todo mundo que estava lá enlouquecer: o grupo chegou com músicas autorais que misturam rap e soul e ainda mandaram trechos do Planet Hemp, Chico Science e Nação Zumbi. O sorriso na alma era tão grande que esse foi um daqueles momentos que seu inconsciente esbanja o pensamento de “se o mundo acabar agora, tá tudo bem, tudo certo”.

Flyer do festival no Simplão de Tudo

Depois disso foi fácil sentir que estava em um festival com minhas bandas favoritas. A Star 61 pulou no palco de madeira velha do Simplão e deu um banho de alegria, energias boas e cores, muitas cores, e aquele vocalista? Doidão! De micro shorts listrados e luzes vermelhas envolta do pescoço – ele era com certeza filho bastardo do David Bowie e todos os integrantes dos Secos e Molhados.

Nessa altura do campeonato eu já estava toda suja de barro e meu cheiro era fruto de uma mistura de vinho, suor e fumaça vinda da fogueira. O rock na floresta estava dando tão certo que ao respirar podíamos sentir o infinito do universo nos acolhendo, éramos filhos de um mundo sem fronteiras. “Leva meu corpo, alma e sangue te acalma é vida e trauma, sinta minha alma” essa é a única frase do último show da noite que consigo me lembrar. Pra ser sincera, já não sabia direito se o que estava ouvindo era real, ou estava na minha imaginação alias, só sei que era o show da Johnnybox porque os integrantes da banda e seus agregados estavam alojados ao meu lado, tudo gente de boa qualidade.

Era hora de estender a canga em um pedaço de grama qualquer e contar as estrelas, sentir o ar puro entrar no pulmão e descansar os pés sujos e suados, saber que a natureza está sempre disposta a nos abraçar é um alivio e tanto para uma menina nascida e criada em cidade de gente que não é gente de verdade. Pisquei e vi o sol nascer. Aliás, esse é um dos únicos conselhos que posso dar sobre a vida: contemple o sol. Aproveite a massagem que ele faz, aplauda-o, desfrute da imensidão que ele representa. Agora, já era tarde demais para dormir e cedo demais para acordar. Joga água gelada no rosto, escova esses dentes e vai – vai pra onde? Vai pro mundo.

O Simplão de Tudo tem, entre outras tantas coisas, uma característica singular: um riacho corre por ali, traz água fresca e forma uma hidromassagem natural para os pés – quanto luxo não? E ai, aproveita. Deita na pedra, conversa com os amigos, ouve um som qualquer, canta uma música qualquer, abraça um pessoa que nunca foi qualquer, dá espaço pro corpo se movimentar sem que haja pudor ou medo, apenas deixa. O sol estava forte e brilhante no céu, “que horas são?” “eu quero mais é que o relógio pife e o tempo pare”. Pronto, o tempo foi injusto com a gente, correu nos deixou pra trás, nos deu a sensação de que o infinito era nosso mais depois jogou a conta do tempo na nossa cara. Pelo menos não era o fim (se é que ele existe mesmo).

Banda Star 61 – Foto por Thamara Bogolenta

Eu que havia amanhecido na grama tive que correr para arrumar as coisas que estavam na barraca – dobra aqui, desmonta ali, senta na mochila pra caber tudo de novo. Os últimos shows do festival estavam pra começar e ninguém em sã consciência tinha interesse em “deixar pra lá” alguma coisa.

Os meninos do Rock Rocket chegaram e imediatamente a famosa roda de HC se abriu. Frequento shows independentes desde os meus (pasmem!) 12 anos – e poucas vezes vi algo tão alucinante quanto aquilo. Eram umas 20,25 pessoas que abriram espaço em seus corpos para deixar a música entrar, e assim foi. A banda ainda prestou homenagem a Cris, uma música intitulada “Mamusca” fez com que os pelos do meu braço se arrepiassem e eu desejasse secretamente que um dia alguém escrevesse uma canção pra mim. Para minha felicidade, quem fechou o festival com chave de ouro foi o grupo Sangoma que conseguiu pela segunda vez, em menos de 24 horas, fazer meu coração explodir e o fôlego faltar. Estão agora na minha playlist.

Banda Bad as People – Foto por Thamara Bogolenta

As mochilas cheias de folhas secas estavam conosco quando o carro que nos levaria embora para a realidade chata chegou e ninguém tinha vontade, e muito menos coragem pra voltar. Dei um abraço apertado na Cris e afirmei que assim que possível estaria de volta.O caminho de quase uma hora até a estação de Rio Grande da Serra serviu para agradecer o presente que o mundo me deu. É entrar no trem agora, acomodar as mochilas no chão, encostar nos amigos e dormir até sentir o cheiro de poluição no ar, esse é o sinal de que chegamos na cidade grande. Estação Tamanduateí, integração para linha amarela, desce na Paulista, pega o ônibus lotado de gente chata e vem pra casa.

Agora deixa, espera pra viver de novo. Esse é só o começo do fim das nossas vidas.

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Links de todas as bandas que tocaram no evento (clique no nome para ser direcionado para a página da banda):

Não deixe de curtir e, principalmente, conhecer o bar do Simplão de Tudo. Clique AQUI para curtir a página do bar no Facebook. O Simplão está localizado em Paranapiacaba, visite-os!

Sobre o documentário citado no texto, o mesmo se chama Crossfire Hurricane e conta a história dos 50 anos dos Rolling Stones.

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Sobre o autor

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