sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

Riot Grrrls: trajetória das mulheres no rock (parte 2 de 3)

CHEGADA NO BRASIL

Algumas bandas all female já existiam por aqui, caso das Mercenárias de 1983, Menstruação Anarquika e Kaos Klitoriano de 1993, Cosmogonia de 1994 e Toxoplasmose de 1995, porém o movimento riot chegou no final de 1995, através de uma revista que falava sobre a Courtney Love e Riot Grrrl. Foi então que as irmãs Elisa e Isabella Gargiulo, já angustiadas com o comportamento machistas que viviam na pele, resolveram montar a primeira banda nacional reconhecida como riot: a Dominatrix.

Inicialmente, as meninas tiveram apoio da cena straight edge. O primeiro show aconteceu numa Verdurada em 1996, pois era um espaço considerado “libertário”, pois alguns straight edges se envolveram em causas feministas, como a luta pela descriminalização do aborto.

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Cena extraída de uma das entrevistas do DVD “Dominatrix 15 anos”

Essa relação com a cena sxe e anarcopunk foram rompidas por causa da conduta reacionária e conservadora de muitos envolvidos no sxe e por causa da “falsa liberdade” passada pelos anarcopunks brasileiros.

“Quando elas começaram “a tocar mesmo” era muito comum ouvir reclamações quando, entre uma música e outra, elas liam ou faziam longos protestos nos shows. Os caras aceitavam que elas tocassem, mas não queriam ser questionados” (Elisa Gargiulo para o documentário Bella Donas – Meninas da Cena Punk).

As mulheres daqui, assim como as americanas, enfrentaram grandes represálias dos machos da cena punk-hardcore (maioria sxe e anarcopunks). Além disso, por serem livres sexualmente, encontravam resistência de suas família, amigos, na rua, escola e etc.

Se mostrar contra esse sistema opressor foi a forma que o Dominatrix encontrou de amplificar a mensagem para as mulheres brasileiras e demonstrar resistência dentro desses espaços.

Assim como na cena americana, as brasileiras começaram e se falar, se encontrarem na galeria do rock, trocar fanzines, correspondências e assim se fortalecerem enquanto movimento. Todas elas tinham em comum a revolta com o sistema patriarcal e a vontade da libertação sexual. Assim foram pipocando bandas como Pin Ups, Lava, Miss Junkie, Cosmogonia, TPM, Bulimia que é um dos principais nomes do riot nacional. É delas a música “Punk Rock não é só pro seu namorado!”, tida como um hino das riot brasileiras, lançada no álbum “Se julgar incapaz foi o maior erro que cometeu”, lançado em 2001.

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Flyer do evento Lady Fest

Nesse mesmo momento, as anarcopunks e outras mulheres que estavam organizadas na esquerda revolucionária foram acusadas de sexistas, separatistas, de não olharem para a causa maior. Na cena, elas eram vistas como “as minas dos caras”. O machismo enrustido foi amplamente questionado por essas mulheres que também as dividiam as mesmas temáticas das riots: violência contra as mulheres, menstruação, gravidez, hormônios, assédio, aborto…

Após a participação da Dominatrix no LadyFest Holanda em 2003, elas trouxeram a primeira edição do festival para o Brasil no ano seguinte. O festival contou com 8 bandas, 5 workshops e 3 exposições. Foi sucesso de público, graças a cena riot que então já havia se consolidado.

O festival ainda teve edições em 2005, 2006, 2007, 2009 e em 2010 rolou a comemoração de “10 anos de feminismo jovem radical” com a banda Team Dresch. Em 2014, teve a última edição. No LadyFest brasileiro houve abertura para mulheres do hip hop – uma resposta direta ao racismo e classismo do movimento.

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Leia a primeira parte do artigo clicando AQUI. Leia a terceira e última parte AQUI.

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Sobre o autor

Cintia Ferreira

Cintia Ferreira é feminista, riot grrrl, militante da coletiva Chega de Assédio e vegan, além de integrante da banda In Venus.

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