terça-feira, 14 de agosto de 2018
Nada Pop

Riot Grrrls: trajetória das mulheres no rock (parte 1 de 3)

Riot Grrrls: trajetória das mulheres no rock e o rompimento com a misoginia da cena anarco-punk-hardcore

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Ilustração de Julia Scheele

Nos anos 90 iniciou-se uma nova vertente feminista que saiu do movimento punk nos Estados Unidos. Era o início do movimento Riot Grrrl, que mudou todo o rumo da história do rock mundialmente.

Todas as mulheres que levantavam bandeira “sexo, drogas e rock’nroll” eram tidas como vadias (sluts) ao tentarem subverter esse status até então visto como masculino.

Após anos enfrentando difíceis caminhos machistas que artistas como Patti Smith e Suzy Quatro e bandas como Runaways e Girlschool enfrentaram para conseguirem fazer o bom e velho rock’n roll, as Riots invadiram a cena do rock alternativo e criaram uma nova forma de fazer música.

ANOS 90 E O GRITO DAS MULHERES

Nos anos 80, com o movimento punk em ascensão, comportamentos misóginos foram muito presentes, e algumas mulheres que faziam parte dessa cena começaram a expressar sua posição contrária à conduta machista.

Revoltadas com as imposições dos homens que até então “dominavam a cena” e com as inúmeras formas de violências sofridas no meio punk/libertário, grupos de mulheres começaram a se organizar como formas de resistir, enfrentar o machismo e outros fascismos existentes dentro e fora deste movimento, em especial direcionado às dykes (consideradas como “o outro gay”).

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No final dos anos 80, Kathleen Hanna fez parte da banda Viva Knievel, que foi a percursora do movimento Riot Grrrl. O objetivo principal da banda era direto e político: mostrar como as mulheres dentro do movimento estavam às margens do rock e do punk.

Hanna identificou que os espaços para mulheres deveriam ser expandidos, pois o número de homens na plateia e nas bandas era significativamente maior. Nessa mesma época, Kathleen começou a se corresponder com a Tobi Vail por causa do zine Jigsaw, fanzine escrito por Vail sobre o movimento punk visto da ótica feminina. Desde então, se juntaram à baixista Kathi Wilcox e ao guitarrista Billy Karren e formaram, em 1990, o Bikini Kill. A primeira apresentação do Bikini Kill foi numa casa Straight Edge em Washington DC, em 1991, na mesma época em que lançaram o fanzine o Revolution Girl Style Now. Desde o primeiro show, as pessoas se chocaram com a postura firme de Kathleen, que tirou a camiseta e em sua barriga estava escrito “Slut” (vadia).

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Kathleen Hanna – Crédito: divulgação

Mulheres das cidades de Olympia e Seattle, em Washington, e em Portland acompanharam o desenvolvimento da banda, e começaram a se movimentar, indo a shows, criando fanzines, agitando shows e autogestionando o rolê das minas: nascia o riot grrrl.

Influenciadas pelo Bikini Kill, Allison Wolfe e Molly Neuman formaram a banda Bratmobile e publicaram o fanzine Girl Germs.

No mesmo mês do show de lançamento do Bikini Kill, cerca de 20 garotas se reuniram no centro de Washington dando origem à primeira reunião riot. Além de reuniões onde discutiam sobre o cotidiano feminino, shows, festivais, ações diretas, começaram a se desenvolver artisticamente criando exposições de desenhos e pinturas, fotografias, performances, poesias e filmes, sempre no esquema do it yourself.

Um novo discurso feminista se formou graças às troca de correspondências entre mulheres de vários países. Elas distribuíam fanzines e escreviam sobre suas experiências como mulheres numa cena construída por e para homens.

“Bikini Kill é mais do que apenas uma banda ou um fanzine ou uma ideia, é parte de uma revolução. (…) Minhas amigas me ajudam a parar de chorar e procurar o que é importante (revolução) minhas amigas conhecem a revolução (sexo) minhas amigas não são uma posse minha (…) MINHAS AMIGAS QUEREM REVOLUTION GIRL STYLE NOW.”

EMPODERAMENTO DIANTE DA INSEGURANÇA

A liberdade estava como um dos pontos centrais da luta das mulheres. Para elas, não importava se iam transar com um homem, com uma mulher, a três ou com vários homens e mulheres ao mesmo tempo. O importante era que as mulheres pudessem ter espaço e liberdade de escolha para qualquer forma de ter prazer.

Desde então, o movimento foi demonizado pelos veículos de mídia mainstream, que chamaram as riot grrrls, vadias, elitistas e que não eram um movimento de verdade, então ficou estabelecido que nenhuma riot falaria à imprensa. As mulheres começaram a explorar a “rebeldia” como forma de lutar pelo espaço e contra a exploração de seus corpos.

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Fanzine Revolution Girl Style Now

Kurt Cobain era o melhor amigo de Kathleen Hanna e por isso o Nirvana era uma banda bem-vinda no role das minas por serem apoiadores da causa. Kurt sempre se colocou como homem disposto a romper com o rock como coisa de macho.

kurt_smellsApesar disso, as Riot Grrrls foram (e são vistas hoje em dia) como man haters:

“Parece que na maioria das conversas sobre sexismo os homens querem, imediatamente, tirar o foco de como o sexismo afeta as mulheres e focar em como o feminismo os afeta. (…) Ao invés de ficar me dizendo que a minha fúria é sinal de sexismo reverso, porque não pergunta o porquê deles nos oprimirem ao invés de sempre perguntar por que nós resistimos? É óbvio que nós iremos resistir e é óbvio que estamos putas, cara! (Kathleen Hanna e Tobi Vail – Bikini Kill #2).

Nessa fase, as minas da cena eram completamente excluídas. Segundo Tobi Vail: “Cada show era uma guerra. Os caras tentavam bater na gente”. – A famosa insegurança de perder o posto de “eu sou mais foda que vocês”.

Grrrls foram e são chamadas de sexistas por terem reuniões exclusivas para mulheres e exigirem espaços exclusivos, como por exemplo, na beira do palco nos shows das minas. Os machos iam aos shows das riots para bater, cuspir, ameaçar e jogar objetos no palco.

O movimento foi enfraquecido pelos que incentivavam as mensagens de que essas mulheres eram neuróticas e se reuniam num grupo de auto-ajuda. Muitas bandas acabaram até 1997. Ainda assim, rolou uma grande resistência das mulheres ao se manterem firme na cena: Hanna montando o Le tigre com Johanna Fateman. Corin Tucker, da Heavens to Betsy, e Carrie Brownstein, da Excuse 17, tinham uma banda nova: Sleater-Kinney.

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Leia a segunda parte do artigo clicando AQUI. Leia a terceira e última parte AQUI.

 

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Sobre o autor

Cintia Ferreira

Cintia Ferreira é feminista, riot grrrl, militante da coletiva Chega de Assédio e vegan, além de integrante da banda In Venus.

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