sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Nada Pop

Resenha: “Mártires”, do Rejects S/A

Sem conhecer a banda, sem ouvir o som e sem imaginar o que estaria por vir ao colocar o álbum “Mártires”, da banda Rejects S/A para tocar, confesso que acreditava ter em minhas mãos algo que me faria não ter escolha: ou odiava o álbum e nem me daria ao trabalho de fazer uma resenha, ou curtiria o som a ponto de fazer um faixa a faixa do disco.

Não é preciso dizer qual foi a escolha, certo?

Mas antes de começar, é preciso dizer que não há como ouvir Rejects S/A sem lembrar de Blind Pigs. Isso é um fato, goste você ou não. O Henrike, dos Porcos Cegos, talvez tenha percebido um certo DNA do Blind no Rejects, portanto, nada mais natural que o álbum “Mártires” tenha sido lançado pelo selo do Semper Adversus. Vale citar, para não cometer erros, que o lançamento do álbum também foi realizado pela Hearts Bleed Blue (HBB) e Piá do Corte Records. Cito ainda a qualidade gráfica do digipack – sem firulas, direto e reto, sem bizarrices abstratas que tornariam o conceito visual do disco sem qualquer relação com as músicas. Além disso, um pôster da banda incluso, para quem quiser emoldurar ou tacar direto na parede com fita adesiva.

Outra coisa, a banda não é nova de estrada. São mais de 10 anos de existência, ou seja, o rolê não começou agora e por isso não venha criticar o street punk da banda sem saber do que isso se trata de verdade. Guarde seu “mimimi” pra você, ouça o disco (caralho!) e crie sua própria opinião – não dependa só de resenhas, combinado?

Faixa a faixa do álbum “Mártires”, da banda Rejects S/A

1. Mártires

Há tempos que uma música não me arrepiava desse jeito. O baixo e bateria começam num ritmo frenético e quando todos começam quase não senti falta da letra. Mas quando começam a cantar “nesse mundo enfermo/ violência e covardia/ nunca faltarão razões/ protesto e rebeldia”, se percebe as razões claras da escolha da música para dar título ao álbum.

2. Ideias Curtas

A música questiona a mídia, alfinetando também àqueles que acreditam ter uma opinião formada, mas formada por quem, formada onde? Boatos são a sua base de opinião? Imagens e textos de Facebook também? Não, por favor, não…

3. Bem Comum

O seus esforços para sobreviver diante do capitalismo, interesses mercadológicos, impostos e juros. O seu futuro ficou ultrapassado, não há bem comum nessa sociedade e todos por si. Não há verdade mais profunda, o capital determina nossas vidas.

4. Onde os fracos não tem vez

Os Garotos Podres, do tempo que o Mao ainda era o vocalista, talvez estejam homenageados nessa música. Não consigo pensar em “Onde os fracos não tem vez” sem pensar em “Subúrbio Operário”.

5. Sai do Sufoco

Conhecemos bem um tipo comum de pessoa que reclama e reclama, reclama mais um pouco e como não bastasse, reclama mais uma vez. Mas não faz PORRA NENHUMA para mudar e resolver seus problemas.

Saia do conforto, saia do sufoco. No final das contas, amanhã é um novo dia. Melhor do que viver na agonia da cidade, certo?

6. Conhecer e Combater

Quantos “protestos” ou “manifestações” você vê por aí com pessoas sem o mínimo de conhecimento da história? Não que a gente precise de doutores em história, longe disso, mas uma manifestação sem o mínimo de senso crítico se torna em uma manipulação de interesses, onde o repressor se torna aliado de uma inquietação pueril, controlando seus pensamentos e usando sua “revolta” em benefício de outros (que você deve imaginar que são).

Talvez tenha viajado e ido além do que a própria música queria dizer. Mas foda-se, a resenha é minha (risos diabólicos, seguido do sentimento de repugnância de mim mesmo).

7. Sem futuro, nem passado

A letra de “Sem futuro, nem passado” é uma história quase comum. Os inadequados, os antissociais, os rebeldes que recebem um fim trágico e que nem sempre são lembrados. A música, mesmo não sendo uma referência desse assunto, me fez lembrar da história de Johni, punk que foi assassinado na Zona Oeste de São Paulo no ano de 2011.

8. As contas não vão fechar

Não, não é uma música para a Petrobrás (apesar do título). É uma música que te faz pensar no quanto você pode ser considerado apenas um número, que pode gerar lucro ou prejuízo. Na verdade, você é um número. Se for gerar lucro para alguém, que tal ser para você mesmo?

9. Trilha sonora de um filme marginal

Achou que não citaria novamente o Blind Pigs, né? Errado, mas o que me chama a atenção nessa bela música do Rejects é uma curiosa experiência. Pegue o clipe da música “Antro de Trastes”, do Blind Pigs (eu te ajudo, clique aqui). Abaixe o volume do clipe, depois aperte o play para ouvir “Trilha sonora de um filme marginal”, do Rejects, com o clipe do Blind rolando sem som. Veja que combina quase que perfeitamente a música com o clipe, quase feitos um para o outro.

10. Matar um leão por dia

A melhor música que poderia resumir o Rejects S/A e possivelmente o street punk nacional em sua atual fase. Não à toa que essa música faz parte da coletânea “Para Incomodar”, sendo a primeira música do álbum, encabeçando uma lista de várias bandas representando o street punk brazuca.

Para saber mais sobre o Rejects S/A e acompanhar o trabalho da banda basta clicar aqui. Ouça o álbum no site da HBB acessando este link: http://migre.me/pB33V.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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