quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Nada Pop

RAP Feminino – Entrevista Odisseia das Flores

Formado por Jô Maloupas, Chai e Letícia, o grupo de rap Odisseia das Flores desde 2008 foca seu trabalho pela luta à valorização da mulher na sociedade. Usam o slogan “Mulheres pensantes que não usam o corpo e sim a mente”, e junto com o DJ Dog fazem um som característico e com influências não só de RAP, passando também por reggae, maracatu, MPB e até blues.

Além da música, presente quase 24h por dia na vida de suas integrantes, a Odisseia das Flores também realiza trabalhos sociais voltados para as comunidades da periferia de São Paulo.

Abaixo você confere uma entrevista bem interessante com o grupo.

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Odisseia das Flores

ENTREVISTA ODISSEIA DAS FLORES

NADA POP – Como cada uma de vocês se envolve com o RAP?

ODISSEIA DAS FLORES – Nos envolvemos diariamente com o Hip Hop, pois a luta e resistência não para.

A Chai é arte educadora na Fundação Casa e a Jô desenvolve oficinas em parceria com o espaço São Mateus em Movimento. Ambas trabalham com a arte da palavra.

A Leticia já ministrou oficinas de grafiti e o DJ Dog dá aulas de discotecagem.

NADA POP – Sobre o nome do grupo, de onde vem a ideia de “Odisseia das Flores”?

ODISSEIA DAS FLORES – Odisseia vem de um som que a Jô escreveu, o refrão da musica era : “Odisseia do RAP que chega e gera – camélia que faltava pra primavera – abelha que zela e protege sua colmeia – passa a mensagem sempre sentinela”.

As meninas gostaram do nome e do significado (uma aventura, uma experiência, uma viagem), pois tinha tudo a ver com que elas viviam e cantavam. Tinha tudo a ver com a proposta do grupo que era cantar e contar suas historias e de quem estiver junto.

NADA POP – Como vocês avaliam o RAP atualmente, dos anos 2010 até hoje? Há muita diferença com o RAP dos anos 90? Vocês identificam uma queda de interesse por questões políticas e sociais?

ODISSEIA DAS FLORES – O RAP de hoje não é o mesmo de antigamente. Passou por uma transformação, na verdade ele acompanhou a evolução geral (das pessoas, da arte, da educação) a partir da tecnologia avançada.

E a diferença com o RAP dos anos 90 é gritante. Hoje os jovens querem curtir, dançar, badalar… Não querem protestar e revolucionar. Há sim uma queda pelo interesse político-social, hoje os interesses são outros. Os jovens querem ostentar, querem mostrar o poder e liberdade de expressão.

Na verdade, os jovens de 20 anos atrás, sofreram para conseguir conquistar este espaço que os jovens de hoje estão usufruindo.

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Odisseia das Flores

NADA POP – Aproveitando, muitas mulheres do hip-hop fazem bastante críticas ao machismo dentro do rap nacional, em relação a letras, posturas em eventos, esquecimento de mulheres importantes para a história do RAP, etc. Na opinião de vocês como anda essa questão? Houve algum avanço em relação a esse problema?

ODISSEIA DAS FLORES – Sim, houve um avanço, mas não o suficiente. Na verdade vivemos em um mundo patriarcal e essa emancipação das mulheres nem sempre é vistas com bons olhos. Dentro do movimento ainda existe uma resistência por conta da luta feminista contra a Opressão Machista.

As pessoas desconhecem o significado de machismo e feminismo e acreditam que eles sejam semelhantes e que se relacionam, mas na verdade não tem absolutamente nada a ver.

Machismo = poder do homem sobre a mulher;
Feminismo = a luta pelos direitos iguais.

Estamos batendo firme nesta tecla de inclusão, porque a representatividade feminina é de extrema importância, dentro do movimento, dentro das quebradas, dentro da política. Mas mesmo com tantas mulheres metendo o pé e invadindo, ainda somos esquecidas. É cultural. Não é só dentro do Hip Hop, são em todos os lugares.

Querem as mulheres em casa, servindo seus maridos, querem silenciar nossas falas e nossos sentimentos. Mas enquanto houver vida, haverá esperança e quanto houver mulheres dispostas a mudar este quadro, pode acreditar que haverá luta e militância. Não é fácil, mas não desistiremos.

NADA POP – Dentro do RAP desde a escolha dos Racionais de não aparecer na Rede Globo e serem extremamente seletivos em relação as mídias com as quais eles conversam, esse tema sempre é discutido e muitas vezes gera algumas polêmicas. Após a experiência de vocês de terem participado do programa da Fátima Bernardes, na Rede Globo, como vocês enxergam essa relação dos grupos de rap e a grande mídia? E já aproveitando, como foi essa experiência? Rolou algum tipo de crítica ou polêmica em relação a escolha de vocês?

ODISSEIA DAS FLORES – A relação com a mídia sempre é polêmica. Sabemos da manipulação massificada, não somos tolas. Temos que saber assimilar o bom do não bom. Mas também acredito que há muitas pessoas que precisam ouvir nosso som, nossas mensagens. Não podemos ficar escondidas.
Ir pra TV sim, mas sem perder a essência saca? Fomos convidadas a participar do programa da Fatima e fomos na maior, metemos a cara e fomos nós mesmas. O que fizemos no “Encontro” é o mesmo que fazemos em todas nossas apresentações.

Fomos convidadas, não ficamos correndo atrás da Rede Globo e aceitamos sim e fortalecemos vários dos nossos. A produção veio gravar em São Paulo, lá em São Mateus, e convocamos geral pra chegar junto com a gente e divulgar seu trabalho.

Fomos muito bem recebidas e tratadas com muito respeito. Mas infelizmente, muitos do movimento não entenderam e as críticas vieram. Acharam que Odisseia virou POP (risos)… Lamentável. Porque continuamos em nossas quebradas com nossas lutas e desafios e com nossas contas para pagar.

NADA POP – Estamos num momento em que, em Brasília, partes dos políticos fazem de tudo para aprovar a Redução da Maioridade Penal, e outra parte que critica essa redução e ao mesmo tempo encapa o projeto de lei que entre outras coisas aumenta para mais que o dobro de tempo da internação dos/as adolescentes. Gostaríamos de saber qual a opinião de vocês sobre o encarceramento de jovens? E aproveitando a pergunta, Chai fale pra gente um pouco sobre a experiência com o ensino de poesia na Fundação CASA.

ODISSEIA DAS FLORES – Vivemos em um país machista, racista, homofóbico e misógino. Partindo desse pressuposto podemos imaginar quais ações os nossos políticos tramam para nossa sociedade.

Prender é mais fácil que educar. Acordos com construtoras/ empreiteiras e licitações vão bombar com a “redução”. Manobra política, onde todo mundo ganha, menos o pobre, preto e favelado.
SOMOS CONTRA A REDUÇÃO!!

Não temos escolas dignas, hospitais descentes, saneamento básico e querem cobrar do menor um erro do sistema??? Sistema prisional não educa e nem resgata ninguém.

NADA POP – Em relação às composições, quais as temáticas abordadas e o que as motivam no momento da criação dos sons e letras? Em relação às influências, quais as principais de vocês?

ODISSEIA DAS FLORES – Letra é muito subjetivo. Vai muito do momento de cada uma. No geral, nossas letras abordam nosso cotidiano: lutas, tristezas, amor, amizades, perdas, ganhos, vitórias.

Também abordamos as questões sociais e de gênero, como dissemos antes, precisamos de representação. Tão bom ouvir outra mulher cantando aquilo que a gente queria ouvir… De saber e entender o universo feminino.

E dentre nossas influências podemos destacar: Dina Di, Negra Li, Rubia RPW, Sharylaine, Lauren Hiil, Nekka, Deadly Venoms, Pitty, RZO, Racionais, Sabotage, Damien Marley, Criolo, Rael entre outros.

NADA POP – Sobre novos trabalhos musicais no Brasil e no mundo, o que vocês têm escutado atualmente? Teriam novos grupos ou pessoas para indicar para a gente?

ODISSEIA DAS FLORES – Escutamos um pouco de tudo, independente do estilo musical, vamos do moda de viola ao punk rock, o que importa é a mensagem, a poesia, o conteúdo.

Indicação sempre tem várias, bora lá: Tarja Preta, Issa Paz, Tabata Alves, As Lavadeiras, Rimação, D’origem, Tassia Reis, Karol de Souza, Lua Rodrigues, Tai Botelho, Sara Donato, Yaszlu, Audio Zumbi, Negotinho Rima fatal, Skip Mc, Dragoes de Komodo, Deloná, o Mandruvá, Rincon Sapiencia, Haikass, A Rapa do Sindicato… Muitas e muitos.

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NADA POP – Pensando no histórico da Odisseia das Flores, qual o balanço em relação aos trabalhos do grupo, como o videoclipe, a recepção do álbum “As palavras voam”, os shows e eventos, etc? Quais os projetos futuros da banda, o que o público de vocês pode esperar nos próximos trabalhos?

ODISSEIA DAS FLORES – Por ser uma banda independente, sem patrocínio e sem padrinhos acredito que estamos na direção certa. Tudo tem seu tempo e o sol brilha pra todos, não adianta atropelar. Se você esta correndo atrás do seu sonho sem pisar em ninguém, pode acreditar que Deus ira abençoar. Estamos com muitos projetos para este fim de 2015 e inicio de 2016. A galera pode ficar de prontidão que iremos chegar com muita novidade!

Neste ano lançaremos mais um vídeo clipe e algumas singles:

#SOLTEAPANELA
#AVOZQUESOA
#BOLEIUMBOBNARADIO
#SUAVENANAVE

Fora os sons acima, estamos finalizando um projeto com o LC Mago dos Beats, intitulado: Fábula, no qual iremos lançar em torno de 8 músicas inéditas;

Nosso CD “As palavras voam” ainda está quentinho, foi lançado em 2013, mas sentimos a necessidade de compor sons novos e cantar também. Podem aguardar que vai vir muita parceria forte e ideias de progresso.

SAUDAÇÕES ODISSEIANAS

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Sobre o autor

Suna

Suna é colaborador do Nada Pop.

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