segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Nada Pop

Queercore com a banda Teu Pai Já Sabe?

Em 2008 nasceu em Curitiba, no Paraná, a banda de queercore Teu Pai Já Sabe?, formada pelo Mamá (vocal), Hugo (bateria), Felipe (baixista) e Sete Metros (guitarra).

Com apenas cinco anos de existência, pois a banda terminou em 2013, deixou um legado de luta e discurso queer muito importante para a época e que ainda se torna relevante nos dias de hoje.

Com um hardcore simples, mas muito bem executado, a banda tinha influências de Limp Wrist, entre outras bandas, e até semelhanças com o Gorilla Biscuits (li no blog Cabeça Tédio – AQUI – e tive que concordar).

Para falar sobre o queercore, homofobia e até sobre o machismo no punk, conversamos com o Felipe, Mamá e Hugo. A entrevista você confere abaixo.

Flyer - Primeiro show da Teu Pai Já Sabe

Flyer do primeiro show da TPJS? em 2008, na Verdurada de Curitiba.

ENTREVISTA – TEU PAI JÁ SABE?

NADA POP – Pra vocês, o que é o Queercore? Qual a importância desse estilo dentro e fora dos palcos?

Felipe – Para mim é a presença LGBTQIA dentro do punk/hardcore, com críticas não apenas à norma heterossexual presente em nossa sociedade, mas também ao próprio movimento LGBT mainstream. A importância é se afirmar, mostrar que lésbicas, bissexuais, transsexuais e gays sempre existiram dentro do punk e continuam existindo mesmo hoje. É importante também para questionar algumas ações afirmativas de cunho mais assimilador e pouco têm de horizontais ou críticas. É criar uma alternativa para quem acha o punk hetero demais e o movimento LGBT brando demais.

Mamá – Ao meu modo de ver queercore é música punk com militância gay/queer. Bandas, coletivos, zines ligados diretamente com o punk gay, punk queer. Acho importante dentro e fora dos palcos. Nos palcos conseguimos expressar para o meio em que frequentamos, às vezes feito de muita gente com certa consciência sobre a luta, e fora dele também acho importante para que se crie uma visibilidade, questionamento sobre o assunto.

Hugo – É um estilo de vida que luta por políticas horizontais de direitos. É tudo o que não faz parte das normas padrões impostas da nossa sociedade e inclusive do meio mainstream LGBTQIA como o Lipe disse. É o questionamento da heteronormatividade, o rompimento da supremacia patriarcal ou/e qualquer norma opressora presente dentro de nossa cena punk/HC. É uma conexão com a sexualidade + musica, e ao mesmo tempo, uma parte de ideias que me representa. Fora dos palcos, tem uma importância crucial, porque isso é política pública e as ideias devem ser expandidas e ocupar outros espaços para haver mudanças reais. É uma ferramenta que podemos usar pra questionar os privilégios Heterossexual/Branco/Macho/Cis e nossos próprios privilégios.

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Foto por Felipe Mertens Brancher.

NADA POP – Como a banda surgiu? Como os integrantes se conheceram?

Mamá – A ideia surgiu através do baterista (Hugo), ele me encontrou numa boate em Curitiba e me disse que gostaria de montar uma banda e tocava bateria, depois disso falando com o Felipe (baixo) que também topou, e logo chamamos o Carlos (sete metros) para fechar a banda com chave de ouro.

NADA POP – O punk é machista? Quais dificuldades vocês enfrentaram?

Felipe – O punk, assim como a sociedade em que vivemos e o resto do mundo, é machista. Tem punk homofóbico, tem banda punk famosa com letra machista, tem punk anarquista que bate na namorada… Tudo o que você encontra fora do punk, você encontra dentro do punk. Felizmente, tem mudado: tem surgido resistência dentro dessa resistência do punk, pessoas e bandas que se posicionam e tentam mudar ainda mais esse meio. Acho que a dificuldade que enfrentamos é a de tentar se somar a essa resistência e ajudar a reduzir o machismo e a lesbo/homo/bi/transfobia dentro do punk.

Mamá – Como em tudo quanto é meio, existe gente bacana e muita gente escrota também. No punk não iria ser diferente, mas acho que nunca tivemos muitas dificuldades ou problemas não.

Hugo – O Punk é uma reprodução do que a sociedade é… O punk é heteronormativo/heterossexista/Machista… Com certeza, é bem obvio. Já passei por algumas dificuldades e a banda me ajudou muito.

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Felipe (esquerda) e Mamá (beijando o muro). Foto por Alvaro Sasaki.

NADA POP – Quais eram as influências durante a existência da banda, existiam outras bandas de queercore brasileiras que vocês poderiam citar? E atualmente, quais vocês indicam?

Felipe – No TPJS? havia desde integrantes que escutavam música tradicional gaúcha até Björk e Lady Gaga, passando por todas as bandas de queercore que adoramos: Limp Wrist, Pansy Division, Team Dresch, Tribe 8 etc. Das bandas brasileiras queers que estão ou não em atividades, posso citar Solange Tô Aberta, Anti-Corpos, Textículos de Mary, Nerds Attack, Dominatrix, Política & Purpurina e Gay-o-Hazard (que eram bandas do Mamá e ele sempre esquece de falar) etc.

Mamá – Temos gostos musicais diferentes, mas acho que tem algumas bandas que todos nós gostamos e que nos influenciou sim, tipo Limp Wrist, Pansy Division, Gayrilla Biscuits e por aí vai. Aqui no Brasil, acho que o Textículos de Mary de certa forma foi uma influência também.

NADA POP – Vocês acreditam que a nossa sociedade ficará livre algum dia do preconceito e até do ódio aos homossexuais? Vocês já enfrentaram alguma situação de agressão física por causa da sexualidade de vocês? Como foi?

Felipe – Não acredito que qualquer tipo de preconceito acabe por completo um dia. Faz mais de 500 anos que o Brasil luta contra o racismo, por exemplo. Mas acredito que a gente possa diminuir bastante esse tipo de comportamento ao se posicionar contra e bater de frente com esse tipo de situação. Sobre agressões que sofremos, não teve qualquer em particular. Teve um Queerfest, no Espaço Impróprio, em que um grupo de carecas apareceu jogando garrafas vazias de cerveja contra a porta do local. Algumas pessoas tiveram ferimentos leves. Como banda, felizmente, as agressões que sofremos foram mais de trolls da internet, algo que nem vale a pena considerar como agressão. Outrxs amigxs já não tiveram a mesma sorte e foram agredidxs nas ruas.

Mamá – Sinceramente não consigo ver o fim disso tudo não, sabe? Não dá nem para ter muita esperança em um país que nem laico é, entende? Nunca tivemos nenhuma situação de agressão física, mas muitas pela web, de anônimos ou gente que não aceita. Mas usamos isso como inspiração para letras e para deixar os shows mais divertidos.

Hugo – Só sei que lutar toda hora às vezes cansa, por isso é importante participar de coletivos como forma de empoderamento e resistência, porque tem atitudes de uns, que me brocham terrivelmente. Quando as pessoas se colocam no lugar umas das outras e se apoiam mutuamente, eu vejo mudança sim. Não tivemos situação de risco com a banda, porém já fui agredido na rua e baixei porrada também. Acho tenso comentar…

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Show em Brasília, foto de Alvaro Sasaki.

NADA POP – Existiram espaços que barraram o som de vocês? Quais e como foi?

Felipe – Não.

Mamá – Que eu me lembre não….

Hugo – Não, mas a gente costumava tocar com amigos e gente querida, fazer shows em lugares que eram mais seguros e foi só diversão e alegria.

NADA POP – Por que a Teu Pai Já Sabe acabou? O que motivou o fim?

Felipe – Distância e cansaço, basicamente.

Mamá – Acabou por estarmos todos um longe do outro e por falta de tempo e dinheiro para se deslocar pra tocar, ensaiar, produzir…

Hugo – Foi um pouco de tudo, estávamos sem energia, sem criatividade e tempo hábil pra fazer novas musicas, a distância e a falta de grana ferrou um pouco também. Ficamos ocupados com outras atividades e ao mesmo tempo tocando com a banda.

Flyer - Show em GoiâniaNADA POP – Acreditam que a banda foi pioneira nesse estilo no Brasil, o punk rock ainda faz parte da vida de vocês?

Felipe – Acho que não fomos pioneiros no sentido banda punk gay. Apesar de diferentes no estilo e na proposta, o Textículos de Mary se posicionava como gay na década de 90, por exemplo. Talvez a gente tenha algum mérito da forma como fizemos: todos os integrantes bi ou gays, as letras bem LGBTQIA, com uma tentativa de pensar na linguagem que estávamos usando, para evitar preconceito até dentro da luta contra o preconceito (algo bem comum), e também pela vivência como amigos e como bi/gays que ia muito além da banda.

Mamá – Olha, de banda assim como a nossa acho que sim… Na minha vida o punk rock vai sempre estar presente, não consigo me ver fora dele, tenho outros projetos, voltei com uma banda antiga minha aqui de Maringá, enfim, enquanto tiver voz tô cantando…

Hugo – Acredito que fomos pioneiros em Curitiba. Tinha várias bandas QueerPunk surgindo em algumas cidades nas décadas de 90 e anos 2000, não da pra dizer que fomos pioneiros no brasil porque não temos controle disso e também isso não importa. Sabe, uma banda foi inspiração pra outra e é desse modo que eu percebo. Talvez fossemos a banda mais influente. Aliás, o Mamá foi uma inspiração pra eu dar o ponta pé inicial pra TPJS? sair do armário. Acho que enrolamos quase um ano pra começarmos a ensaiar, e mais alguns meses pra fazermos shows… Era ele quem tinha os contatos do Lipe e do Sete. Eu conhecia o Felipe só de vista. O punk faz parte da minha vida, muito. Os gostos estão mais refinados, mas a essência continua aqui.

NADA POP – Acreditam que a homofobia se tornará crime de fato no Brasil, onde o Governo tornará esse crime parte do código penal?

Felipe – Não sei. Há muita reação raivosa dentro do governo. Mas tenho muita esperança de que seja aprovado e apoio essa e outras mudanças.

Mamá – Esperamos que sim… Não confio muito no governo não, muito menos em políticos, mas sei que há uma minoria que luta pra isso.

Hugo – Espero que sim, não só a homofobia, como a lésbofobia a transfobia e outrxs!

Flyer - RvivrNADA POP – Como vocês enxergam o queercore hoje no país, acreditam que está forte ou atualmente está fraco?

Felipe – Tem acontecido muita coisa bacana e cada vez mais gente tem se posicionado e ajudado a construir um punk menos homofóbico e machista. Há divergências até mesmo entre essas pessoas, mas de alguma forma, acho que estamos caminhando para frente. Também dá para pensar em manifestações queers que estão por perto, mesmo que se declarem fora do punk: rap, funk, universidades, coletivos, imprensa alternativa.

Mamá – Acredito que cresceu muito, hoje em dia vemos muitxs queerpunx espalhadxs por aí, montando coletivos, zines,bandas… Acho demais.

Hugo – Acredito também que cresceu muito. Aqui em Curitiba, acho fraco ainda, é o que eu posso dizer. Hoje tenho duas bandas nada declarado QueerPunk, porém com influências. As duas além de mim tem pelo menos mais umx integrante gay/lésbica pq é o que me representa. Mistinguett Live e Dias de Mal Estar. E nesta ultima fiquei muito feliz em dividir espaço com o Augusto, um brodinho diva fodástico.

NADA POP – Peço que deixem uma mensagem para os leitores, pode ser o que quiserem. Obrigado!

Felipe: Acho que vale sempre a pena questionar os próprios privilégios. Será que eu, gay, branco, homem, não enfrento menos agressões do que minhas amigas negras, lésbicas ou transsexuais? Como é que eu me comporto em relação a isso? Parece ridículo (e é), mas o que tem de gay machista, elitista e bi/lesbo/transfóbico por aí… Fora isso, sigamos com todos os sonhos do mundo.

Mamá – Montem bandas, façam zines, sintam-se vivxs!

Hugo – Não acredite no mundo da forma como ele está.

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Atualmente o Mamá toca no Proletas, de Maringá. O Hugo toca no Mistinguett e no Dias de Mal Estar, em Curitiba. O Felipe tocou no Como Todo Mundo antes do TPJS?, mas hoje não toca mais em bandas. O Sete Metros tocou no Through the Storm e outras bandas, mas não tivemos até o momento a informação se continua tocando ou não.

Para saber um pouco mais sobre a banda Teu Pai Já Sabe? basta clicar nos links abaixo:

Facebook
https://www.facebook.com/teupaijasabe?fref=ts

Bandcamp
http://teupaijasabe.bandcamp.com/

Blog Cabeça Tédio
Entrevista: Teu Pai Já Sabe?
http://ansia2.blogspot.com.br/2009/08/entrevista-teu-pai-ja-sabe.html#.VNleovnF8rU

Blog O Caralho do Rock
Entrevista com Mamá
http://www.cdorock.com/2008/11/mam.html

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.