segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Nada Pop

Queens of Noise com Maria Maier, a dona do beat do que é Eterno

Quando fui convidada para escrever um artigo para o Nada Pop, reuni material suficiente para uma série de entrevistas, que deu origem a este espaço, como muitos já devem saber. No finalzinho de 2015, comecei a entrar em contato com mulheres da cena independente do ABC Paulista que eu já admirava e tive a oportunidade de conhecê-las um pouquinho melhor. Na lista das meninas que eu não poderia deixar de entrevistar, estava Maria Maier, então baterista do Eterno, um trio grunge da região, respeitadíssimo pela galera. Aliás, é só clicar aqui para entender melhor a essência da banda e conferir a resenha do álbum que traz o mesmo nome.

Agora, já estamos no mês de abril e muita coisa rolou, como o último show do Eterno. Eu não poderia demorar mais para publicar a entrevista da Maria – embora seu talento não se resuma ao seu papel na banda – e, então, várias coisas me passaram pela mente, como a importância da representatividade, como quão especial é para nós, mulheres, vermos outra mulher tocar, e quantas vezes Maria foi mencionada por várias outras meninas da cena ao longo das minhas pesquisas para o tal artigo. Ela me fez lembrar de musicistas como Sandy West (The Runaways), Régine Chassagne (Arcade Fire), Maureen Tucker (The Velvet Underground), Meg White (The White Stripes), Meyal Cohen, Cindy Blackman, Maria Berila (Bulimia), Pitchu Ferraz (As Mercenárias), Nina Pará, entre tantas outras que, injustamente, não citei aqui.

Conclusão: desejo que Maria continue vivendo experiências incríveis, agora, em outro continente. Por aqui, ela sempre despertará pensamentos tão bons quanto esses. Quanto à banda, costumam dizer que “nada é Eterno”, mas, pessoalmente, acredito que algumas coisas nasceram para ser! Por enquanto, fica a – ótima – entrevista da Maria abaixo:

mariamaier_02

“O rock entrou na minha vida de verdade como elemento de contestação, de rebeldia, de protesto, de conscientização”, diz Maria Maier – Crédito Fernanda Gamarano

NADA POP – Como é a sua história com a música? E com o rock? Qual o significado de tudo isso?

MARIA MAIER – Não tenho músicos na família, mas meu pai sempre ouviu bastante música, tinha muitos LPs, compilações de músicas em fitas k7s que ele mesmo fazia, e depois CDs. Então, cresci ouvindo Beatles, Pink Floyd, The Police, Stones e os nacionais Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Rita Lee, entre muitos outros. Mas o rock entrou na minha vida de verdade como elemento de contestação, de rebeldia, de protesto, de conscientização.

Com meus 12, 13 anos, fiquei fascinada com o conceito do rock: a rebeldia era tudo pra mim, tanto visual, quanto de espírito e no som. Eu precisava fazer parte daquilo. Quis cair de cabeça e o mais óbvio foi ter uma banda. Combinei com algumas amigas e logo escolhi que seria a baterista (achava que era o mais diferente possível). Na semana seguinte, com 13 anos, fiz minha primeira aula, sem nunca ter nem chegado perto de uma bateria antes e sem nem fazer a menor ideia de como funcionava. Fiz seis meses de aula e depois nunca mais fiz (sinto falta de técnica as vezes).

NADA POP – Como você enxerga o cenário underground de forma geral? Como funciona? Quais são os perrengues? Quais são os valores e conceitos?

MARIA MAIER – Acho que o cenário underground está um pouco mais movimentado hoje do que a uns três anos atrás, mas mais parado do que há dez anos. Espero que seja um processo, um ciclo natural de motores voltando a esquentar para a cena crescer um pouco mais. Tem ótimos lugares para tocar no ABC e em SP, mas há pouca valorização das bandas, falando financeiramente mesmo.

O público não está disposto a pagar por ingressos, merchandising ou discos, e os donos das casas também não se dispõem a compartilhar os ganhos de alguma forma (salvo raras exceções). Eu acho isso triste, porque só sobrevivem as bandas de quem tem algum dinheiro, que podem se manter e não dependem financeiramente daquilo, e com isso acabamos perdendo de ter na cena muitos artistas incríveis, mas que não têm condições de investir em suas carreiras. É uma cena bem contraditória nesse ponto.

mariamaier_01

Maria diz que existem “ótimos lugares para tocar no ABC e em SP, mas há pouca valorização das bandas, falando financeiramente mesmo”. – Crédito: Fernanda Gamarano

NADA POP – Como você enxerga o underground como mulher? É diferente para a mulher tocar/cantar/se expressar? Você já sentiu alguma resistência? Já vivenciou ou já viu algum caso de abuso, preconceito, discriminação?

MARIA MAIER – É totalmente diferente para a mulher. Ainda somos uma minoria muito pequena, então causamos estranhamento, não somos levadas a sério, ainda dependemos de amigos/namorados para montar as bandas. Só duas vezes (contando com o Eterno), eu fui chamada para tocar numa banda só com meninos e sinto que não é só por conta de acharem que não toco tão bem, é, sim, porque sou mulher. Meu marido, que nem é baterista, já foi chamado para tocar bateria em muito mais bandas do que eu. E não é só por questão de amizade, pois tem muita banda aí que não é montada em cima disso, é questão de eu ser mulher e não ser levada a sério mesmo.

Mas, no geral, acho que felizmente meu círculo de amigos homens é bastante esclarecido (e melhoraram muito especialmente depois do ano lindo de 2015 para o feminismo) e não costumo sentir muita resistência ou ter desgostos nos shows. Pode ser que os comentários ruins não cheguem até mim, mas prefiro pensar que eles não existem mesmo.

NADA POP – Quais mulheres te inspiram?

MARIA MAIER – As maiores bandas de rock são formadas por homens e admiro muitos deles também, mas sempre fui fascinada por garotas no palco e lembro que quando vi isso no Brasil – Dominatrix, Bulimia, Same, Bigs – virou uma chave dentro de mim que não desligou nunca mais, um clique de “É isso!” que foi importantíssimo na minha adolescência e continua sendo até hoje na minha trajetória de mulher, de empoderamento mesmo. Hoje, escuto atentamente tudo que a Clara Averbuck – escritora feminista brasileira – tem pra falar, dou muito valor para as minas que fazem a diferença na cena, com a Mariângela Carvalho, do Distúrbio Feminino, e a Cintia Ferreira e cia, do Chega de Assédio, e principalmente minhas amigas, que me inspiram muito por serem mulheres incríveis e reais, com toda maravilhosidade complexa que existe nisso.

mariamaier_03

Maria explica que mulheres ainda são uma minoria muito pequena no rock. “Então causamos estranhamento, não somos levadas a sério, ainda dependemos de amigos/namorados para montar as bandas”, diz. – Crédito: Fernanda Gamarano

NADA POP – Alcançar o mainstream com a música é algo que importa pra você? Como você enxerga essa ideia?

MARIA MAIER – Não, eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer de verdade. Não faço questão de sucesso, do fundo do coração. Tocar é algo que faço 100% por prazer, por diversão, sem querer nada em troca. Ao mesmo tempo, respeito totalmente quem almeja esse caminho, e torço muito para que consigam!

NADA POP – Se tiver mais alguma coisa que ache bacana acrescentar, sou toda ouvidos!

MARIA MAIER – Acrescentaria apenas que, apesar de não ser perfeita, acho que a cena tem melhorado muito e que a presença das meninas como agentes, e não mais como coadjuvantes, tem crescido bastante. É um processo, é questão de insistência, repetição, forçar um pouquinho ali e aqui, chocar um pouquinho lá, e, aos poucos, ir tomando nosso espaço. Viva as minas!

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Bruna Neto

Jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo, feminista, orgulhosa por residir na cidade de Santo André e admiradora de toda a cena independente do ABC.