segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Nada Pop

Que Miras Chicón – A banda mais cowpunk do Brasil

Imagine um cara enrolado, multiplique por dois e você terá como resultado esse que vos escreve. Há mais de dois meses que ando querendo falar sobre essa banda que é a mais original e sensacional dos últimos anos no país. Acredito que, desde o período do manguebeat, com o Chico Science sendo o maior representante deste movimento contracultural, era quase impensável que algo novo realmente surgisse e que fosse capaz de trazer tanta riqueza para a música nacional.

Tudo bem, você pode me chamar de exagerado, entendo. Mas ao ouvir a banda Que Miras Chicón fui invadido por um sentimento de alegria e satisfação. Quase que literalmente a minha cabeça explodiu, desde então venho repensando em tudo o que acredito em relação a arte, principalmente em relação ao rock. Pois se apenas duas pessoas, vindas de Monte Azul Paulista, um lugar que até então nem imaginava que existia dentro do Estado de São Paulo, foram capazes de revolucionar o que acredito ser o punk rock, o que um cara como eu ainda pode pensar que realmente seja considerado diferente? Não sei não…

A Que Miras Chicón é formada pelo Danilo (voz e banjo) e Thaysa Zuccherato (bateria), e sim, eles são casados e tem um filho. É claro que as comparações com o White Stripes (ou Country Stripes se preferir) existe, mas é claro que nem de perto é possível compará-los. A Que Miras Chicón é muito melhor (sim, estou falando sério).

Eu poderia continuar falando deles, mas tive a oportunidade de falar com eles, o que é muito melhor. Por isso apresentamos o bate-papo que tivemos com o Danilo Zuccherato, onde conversamos sobre a origem da banda, sons e sobre a cena de Monte Azul Paulista. Esperamos que vocês gostem tanto quanto nós gostamos por aqui. Todos os links da banda você encontra no rodapé da entrevista.

Nada Pop entrevista Que Miras Chicón

NADA POP – Antes de tudo, nos contem como é morar em Monte Azul Paulista, principalmente para um cara urbanóide como eu. O que tem de bom aí?
DANILO ZUCCHERATO – Rsrs! Aqui o que tem de melhor, é o sossego e os causos que nos inspiram 😀
Monte Azul tem 18 mil habitantes apenas, mas é bem legal pra morar e criar nosso moleque. Quanto a cena aqui rola duas ou três vezes ao ano o Rodoviária do Rock que é um fest feito por nós mesmos totalmente DIY e já tamo indo pra oitava edição. Cola uma galera bacana!

Que Miras Chicón

NADA POP – Contem como surgiu essa bela parceria musical, ou seja, nos contem como vocês se conheceram sem entrar ainda na origem da banda, pois essa será a próxima pergunta. Aliás, há quanto tempo vocês são casados?
DANILO ZUCCHERATO – A gente já se conhecia de se cruzar aqui pela cidade, mas começamos a namorar mesmo em 2009, pois eu sempre dei umas “bizoiadas” com interesse na Thaysa, mas nunca a encontrava em algum lugar pra poder conversar direito, ai em 2009 a encontrei em uma festa aqui em Monte Azul e conseguimos finalmente nos encontrar de verdade :D, nos casamos em 2010.

NADA POP – Agora sim, como surgiu a ideia de montar uma banda? Ainda mais com o surgimento de um filho (!). Não que um filho seja um problema, pelo contrário, mas é uma mudança e tanto na vida de uma pessoa. Vocês levam o pimpolho nos shows?
DANILO ZUCCHERATO – O filho e a banda vieram juntos. Foi na gestação do nosso filho que resolvemos montar o projeto, pois nós dois já tínhamos tido bandas antes mas nunca formamos uma juntos, e durante a gestação fomos compondo o que é o primeiro EP do Que Miras Chicón intitulado “Não Adianta Nem Dançar”, começamos a ensaiar após o nascimento, nosso filho nasceu em novembro de 2010 e o Que Miras em janeiro de 2011. Brincamos aqui que o Que Miras é um filho nosso também! Praticamente gêmeos 😀

NADA POP – Quantos álbuns, EPs ou coletâneas a Que Miras Chicón possui? Fiquei meio perdido nas contas aqui, são quatro EPs? Seriam esses EPs esses aqui: “Não Adianta Nem Dançar”, “Em AM”, “Tortilha” e “Interior Treta”, fora a “ColéTânia”, certo ou errado? 
DANILO ZUCCHERATO – É isso ai mesmo cabrón! 4 EP’s oficiais e desde outubro do ano passado tamo numa pilha de lançar um trupé/som por mês através de TosCowClips no youtubis, e essas canções vão entrando no ColéTÂNIA?! Que é um disco que vendemos nos shows a qualquer troquinho que o cabra que tá ali curtindo puder dar.

NADA POP – Para quem não conhece o som de vocês como vocês explicariam a Que Miras Chicón? 
DANILO ZUCCHERATO – entón… Nós somos um casal doido do mato que demos conta de misturar a música caipira do sul dos EUA com a nossa música caipira do sudeste do BRA e tudo isso bem influenciado pelo punk. Chamamos nosso som de COWPUNK!

NADA POP – Vocês se consideram a primeira banda CowPunk do Brasil? Confesso que não me lembro de nenhuma outra, nem atualmente e nem antes de vocês no país. 
DANILO ZUCCHERATO – Acho que do Brasil sim, aqui tem boas bandas de pegada caipira americana, mas elas são bem mais fiéis ao estilo de lá, nós temos o pé bem afundado no punk, tanto é que o público que mais vai aos nossos shows são os rockers  😀
Mas se você pegar as bandas cowpunks lá de fora também vai reparar uma diferença bem grande da nossa, nosso som ficou uma coisinha de louco!

NADA POP – Em outras entrevistas vocês mencionam que as influências da banda são Lomba Raivosa e Rolando Boldrin. Entendo a influência do Boldrin, mas o mau gosto em relação ao Lomba Raivosa não (zoeira!! Rs – a gente fez um podcast com eles bem bacana, que quiser ouvir basta clicar AQUI). Mas digam, quais são as outras bandas que vocês escutam?
DANILO ZUCCHERATO – Além da Lomba e do Boldrin curtimos pra caramba THE FUCKING BUCKAROOS, HANK WILLIANS III, HOLY MOLY, RENATO TEIXEIRA, ALMIR SATER, MUKEKA DI RATO, MERDA, GALINHA PRETA e O LENDÁRIO CHUCROBILLYMAN.

NADA POP – As histórias da banda são inspiradas em casos da cidade de vocês, certo? Mas acredito que a criatividade de vocês conta bastante também, mas alguém alguma vez reclamou de ter a sua história cantada pela Que Miras Chicón, ou ao contrário, chegou a reclamar que vocês ainda não fizeram uma música para determinada pessoa?
DANILO ZUCCHERATO – Cabra! Os donos dessas histórias lindas nem sabem que elas estão sendo cantadas e cantigadas rsrsrsrs! A maioria da galera deve tá até morta 😀
Muitos desses causos são histórias que nossos pais e avós contavam, é uma cultura de uma cidade caipira sentar num butéco e contar uns causos, e como não há registro de quase nada a parada vai aumentando e se estendendo de uma forma da hora pra caceta 😀 Apenas no disco INTERIOR TRETA que são B.O.’s registrados na polícia mesmo, e a maioria da galera ainda tá viva mas até hoje não vieram até nós.
Tá rolando muito de chegarmos nas cidades pra tocar e a galera contar os causos de lá e pedir pra fazer músicas! Massa demais.

NADA POP – Gostaria que vocês falassem como é o esquema de shows da Que Miras Chicón, como são duas pessoas (banjo e bateria) que equipamentos vocês usam e como é essa estrutura de vocês. Deve facilitar bastante em viagens e shows em outras cidades, não?
DANILO ZUCCHERATO – Facilita pra caramba. Nem é por causo dos equipos, mas por ser só nós dois mesmo, é mais fácil de confirmar um show, de viajar, de dormir, comer, etc. De equipo geralmente levamos as ferragens e pratos da batera, o banjo e um pedalzinho equalizer pra deixar som belezura aonde quer que for plugado, até diretão numa mesa de som a parada rende 😀 e um mic pra voz, casco da batera, essas coisas geralmente tem nos locais. Acabamos de adquirir uma caixa de som de 350w que funciona com uma bateria recarregável e não precisa ser plugada na energia, e com isso vamos começar a tocar mais nas ruas por ai o/

NADA POP – Vocês organizam na cidade de vocês o Rodoviária do Rock, como funciona esse festival, quando surgiu quantas bandas tocam em média em cada festival. Rola três vezes por ano, isso mesmo?
DANILO ZUCCHERATO – Rola de duas a três vezes ao ano e cola uma cinco ou seis bandas por vez. Nós víamos fests acontecendo muito em estações de trem, de metrô e pensamos “em Monte azul não tem dessas coisas mas tem rodoviária” e experimentamos fazer o primeiro e já tamos indo pro oitavo 😀
O fest é bem massa, é uma baita interação do público que vai ali pra ver as bandas e dos transeuntes que por ali passam. Massa pra caramba!

NADA POP – Quais são as outras bandas de Monte Azul que vocês indicam, ou pelo menos as outras bandas mais próximas de vocês que merecem ser ouvidas?
DANILO ZUCCHERATO – Cabra! Aqui na cidade de autoral além da gente tem a MARCH OF HATE que é uma banda da thrash bem bacana.

 
NADA POP – Quantos clipes vocês possuem, confesso que perdi as contas. Vocês estão lançando um clipe por mês?? Cara, como funciona essa loucura e quem edita, que faz, deem nome aos bois!!

DANILO ZUCCHERATO – Até agora são dez toscowclips e no fim do mês de maio tá saindo mais um.
Somos nós mesmos que editamos, gravamos nosso som, atuamos quando é preciso. É UMA BELEZUUUURA! Só em Baita Pentelhada que foi produzido pela Peróba Discos.

NADA POP – Por favor, contem uma roubada, mas roubada mesmo na qual vocês já se meteram. E para equilibrar, uma história bacana da banda. 
DANILO ZUCCHERATO – Teve UMA roubada UMA vez que UMA banda nos chamou pra tocar com eles num bar, não tinha muita gente e isso é normal, mas quando foi nossa vez de tocar nem os caras que nos convidaram ficaram pra ver, tocamos pra ninguém literalmente, e tipo… a cidade era uns 350km daqui. Bando de FDP do carai!

E na maioria das vezes a parada rola bem legal, mesmo quando não há público nós curtimos pra kct, conhecer pessoal de bandas e que organizam esses rolês é muito da hora, e nesses rolês a gente tem a oportunidade de conhecer a galera que nos influencia. Conhecer o Lomba Raivosa, o Mozine, O Chucrubillyman, foi meio que surreal pra gente, sério mesmo, e ainda temos o prazer de as vezes dividir o palco e as prozas. Muito fuedaaa!

NADA POP – Fala-se muito que a cena independente anda dispersa, mas na visão de vocês, como está?
DANILO ZUCCHERATO – É. Falta a galera parar com lance de só frequentar subgêneros, se você curte punk rock você vai curtir assistir também o show de uma banda de hard, o subgênero serve apenas pra esclarecer o que vai se ouvir antes de ouvir entendeu, o rock vai ser bom de qualquer maneira, isso serve pra galera que tem banda também, se você não tá tocando vai assistir a banda do parça po! As bandas também tem que começar a querer fazer mais eventos, juntar outras bandas, amontoar os equipos e mandar ver.

NADA POP – Como andam shows, toda semana ou é esporádico? Tem muita coisa programada para este ano? Quando vocês irão vir para São Paulo???
DANILO ZUCCHERATO – Não dá pra pegar todo fim de semana por conta da grana e do nosso filho, mas tentamos um fim de semana por mês marcar uma tourzinha de uns 2 shows no mínimo. Estaremos em SP dia 14/06 no Estúdio MK com a Lomba Raivosa, vai ser lindeza de lindo de bonito!

NADA POP – O que vocês fazem além de tocar em Monte Azul e como funciona o Rancho Vegano? É um restaurante, um site apenas de receitas e informações sobre vida saudável? Explica pra gente isso.
DANILO ZUCCHERATO – Temos uma loja de móveis de escritório que é nosso ganha pão, o Rancho Vegano por enquanto é apenas um site, mas nossa meta é abrir algum tipo de mercearia vegana, tamo estudando certinho os caminhos.

NADA POP – Antes de encerrar, digam qual o lugar que não pode deixar de ser visitado em Monte Azul Paulista? 
DANILO ZUCCHERATO – Segundo a Lomba Raivosa tem que experimentar os Pastéis daqui, mas seria bem legal se o cabra vem num fim de semana de Rodoviária do Rock ou também num fim de semana que rolar um jogo do Atlético Monte Azul, é o orgulho da cidade aqui 😀 VAI ATRÉÉÉÉTICO!

NADA POP – Deixamos o espaço livre para vocês acrescentarem o que vocês quiserem e mais uma vez agradeço a entrevista. Continuem com o som de vocês e, por favor, não percam jamais essa belezura de som do rancho sô!
DANILO ZUCCHERATO – Cabras, cabritos e cabritónes que leem o NadaPop… Continuem lendo o NadaPop!

E quem quiser fazer um barulho de rua com nóis entra em contato. Valeuuu!

Abaixo você confere todos os links da Que Miras Chicón.

 

 

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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