quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Parigi/Perugia – parte 4

Percebi que ela deixou o messenger dela aberto no meu celular. Juro que tentei deslogar, não queria ver as coisas dela, mas depois de tentar tirar várias vezes sem conseguir, acabei vendo as mensagens. E foi uma puta bad trip. Vi ela em ação abertamente chamando um DJ para sair (e tomando um fora; o cara disse que seria difícil porque morava longe e era casado), trocando mensagens quentes com um francês com quem ela já tinha se envolvido, inclusive com um encontro no dia anterior à minha chegada, e convidando um brasileiro com quem ela saia antes de mim em São Paulo para visitá-la em Paris. E sempre que eu perguntava para ela era “não, bobinho, não aconteceu nada ainda, não tenho nada para te contar”. Não contei a ela e continuei vendo suas mensagens, por mais que sentisse culpa. Era mais forte do que eu. Ela não tinha cumprido a parte dela do que combinamos.

Foi difícil, ao continuar o contato diário com ela, fingir que eu não sabia, tentar não transparecer raiva e desânimo. Começamos a intercalar brigas chatas e longas e trocas de mensagens quentes, com fotos e videozinhos. Num dia triste desci com o ukulele e fiquei tocando sentado na esquina. As pessoas passavam e olhavam, aquilo me levantou o astral um pouco. No térreo do prédio tem uma osteira. Depois de algumas canções um senhor aplaudiu, mandou um ‘bravo!’ e me chamou para tocar sábado na Osteria, que era dele. E fui. Fiz uma série de versões ukulele e voz para canções de punk e rock em geral, para um público composto de famílias jantando, e gostaram, haha, foi divertido. A amiga Sheila contou que fazia eventos na pastelaria, com músicos tocando. Me deu a ideia de fazer busking, comentei com a Elena e ela botou pilha grandão, e entrei nessa. Montei um repertório com mais de cem canções; Beatles, Lucio Battisti, Velvet Underground, My Bloody Valentine, Modern Lovers, John Lennon, Verdena, Black Sabbath, Raul Seixas, Legião Urbana, Elvis Presley, Black Flag, Modena City Ramblers, Flaming Lips, Motorhead, The Smiths, Tribalistas,Tiromancino, Jorge Ben, Bob Marley, Johnny Cash, New Young, Bob Dylan, The Doors, Queen, Kraftwerk, Tom Jobim, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Led Zeppelin, The Cure, Neil Young, Supremes, Ronettes, Temptations, Louis Armstrong, Beirut, Nina Simone, Simon and Garfunkel, Afterhours, David Bowie, Lou Reed, Beach Boys, Tim Maia etc.

Agora faço busking. Sento no chão, boto o estojo do ukulele aberto na minha frente, toco e canto; tenho três lugares preferidos no centro histórico de Perugia para tocar: perto das escadas rolantes na Rocca Paolina (em cima ou dentro) e em duas alturas do Corso Vannucci (na esquina com via Mazzini e quase na Piazza Italia). Conheci os outros artistas de rua da cidade, que diariamente tocam ou expõem e vendem pelas ruas do centro, cada um em seu ponto, como por exemplo o basco que toca violão e canta, o cigano que dança freneticamente e rindo, a loirinha que toca harpa, o cabeludo que toca acordeão, o paquistanês que toca um instrumento enorme húngaro que parece uma mistura entre arpa e vibrafone, o introvertido careca de olhos azuis que toca free fazz no clarinete, o bonachão pançudo e de barba longa e branca que toca violão por entre as mesas dos cafés, o doutor em filosofia que passa o dia a ler em frente a seus quadros, o argentino que vende artesanato, dentre tantos outros. Toquei várias vezes na pastelaria também, com vários amigos novos que cantam e tocam comigo. Ensinei ao Gilberto, filho mais novo da Sheila, a tocar o cajon que um parente deixou pra trás e de tanto em tanto ele se junta a mim. Uma alemã e duas polonesas, da mesma faixa etária de meu filho, universitárias como eu, que cantam muito bem, também se juntam a mim de vez em quando, de forma intercalada. Às vezes passantes se juntam a mim, dentre os quais uma vez um italiano tocou percussão, outra um nigeriano cantou e outra um angolano tocou violão. Com as moedas e raras notas que depositam no meu estojo, e com os eventuais freelas de tradução, venho sobrevivendo e sigo procurando um emprego.

Numa das brigas, já farto, acabei contando para a Elena que eu li as trocas de mensagens dela no messenger. E o fiz daquele jeito, com sarcasmo. Ela ficou puta e desde então nosso contato se deteriorou de vez. Depois de um período de silêncio passamos a trocar poucas mensagens curtas e espaçadas.

Já estou no alojamento, no campus, as aulas já começaram. Ao fim deste semestre acaba meu intercâmbio e devo voltar ao Brasil para prosseguir minha graduação na USP. Preciso rever minha filha, mas se não por ela sinto que no Brasil eu não tenho mais nada. Se eu voltar como e quando previsto, não terei onde morar. Não sei se mantenho essa ideia de finalmente terminar uma graduação (já iniciei quatro vezes e nunca pude me formar), ou se mais uma vez largo os estudos. Não sei se vou para o norte da Itália ou para a Inglaterra procurar um emprego.

Tem aquilo de não saber se, como e quando poderei conhecer outra pessoa que me desperte como aconteceu em relação à Elena. Tem outra também, que é se e quando acontecer, serei correspondido? Ainda sinto falta dela, só não sei bem o que isso significa, estou aprendendo a lidar com isso. Nem parei para pensar sobre o quanto cheguei a conhecer dela.

– Você reclama de barriga cheia, haha. Bem que eu queria ir no Le Bataclan. Depois te conto uma, agora tenho que ir embora. – Já vai? Beleza, a gente se fala. Sabe, ao contar isso aqui percebi que estou melhor agora. Preciso correr para terminar a tradução aqui, a entrega é para daqui a poucas horas. – De boa, foi bom também escutar sua história. Ó, ‘tá acabando, a Nico está perdendo a voz mas ainda assim é demais. – Agradeço por ter botado o show pra gente escutar, coisa linda mesmo.

Como foi que enquanto eu estava ali nem tenha passado pela minha cabeça sobre o tanto de show bom que já teve no Bataclan? Como eu posso ter ido até lá e nem ter feito uma foto? Onde eu estava com a cabeça?! Assim que encontrar um emprego vou ver um show lá, pode crer.

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Sobre o autor

Cesar Zanin

Nascido em São Paulo, em 1975 numa família de origem italiana, é tradutor (En-Br/It-Br/En-It), músico (no momento busker), escritor (vivendo o “sonho” como Bukowski ou Fante), estudante (atualmente em intercâmbio universitário na Itália). Amante de carinho (sempre mais), do vinho (barato), da erva (com moderação), de cosmologia e de mochilar. Humanista/progressista, fisicalista/naturalista. Orgulhosamente amador.