quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Parigi/Perugia – parte 3

De Roma fui direto para Gatwick e de lá peguei o trem para Brighton, para visitar meu primeiro filho, de 21 anos, que me esperava na estação. Foi emocionante. Éramos muito próximos até os 15 anos de idade dele. Tocamos muito juntos, tivemos pelo menos três bandas e fizemos uma turnê com 14 shows nos EUA e Canadá em 2009 e outra na Europa em 2010, tudo na base do DIY. Em 2011, quando eu e a mãe dele nos separamos eu mochilei por 9 meses e então voltei ao Brasil, enquanto ele continuou na Inglaterra morando com ela. A partir de então nos tornamos distantes. Fui visitá-lo em 2012 com a Luciana e em 2014 quando ajudei a mãe dele a adquirir a cidadania italiana. Agora ele mora com a namorada, faz faculdade, toca com bandas, é um adulto, enfim.

Passei 10 dias fazendo couchsurfing em Brighton para não gastar mais dinheiro. Eu ia até meu filho diariamente para passamos algumas horas juntos. Ele me levou a parques, à praia e caminhamos pela cidade. Me apresentou hash e 25-i, tive momentos incríveis com ele, em que viajamos juntos ao som de dub, psych, soul, do Bitches Brew, do Os Mutantes, do In the Court of the Crimson King e fazendo jams com violão, cítara e ukulele. Eu tinha muito pouco dinheiro, estava preocupado e sabia que precisaria encontrar trabalho assim que chegasse na Itália. A essa altura o contato meu com a Elena era um vai-e-vem de brigas, pazes e despedidas. Mas tudo com consideração e até um certo carinho mútuo, muito dolorido. Decidi ir mesmo assim a Paris. No ônibus que me levou de Londres a Paris conheci uma francesa com a idade do meu filho, loirinha de dreads, que tinha acabado de voltar de um intercâmbio em Camarões, conversamos por horas a fio e foi muito agradável.

Nem mesmo sabia se a Elena me receberia mas na manhã do dia do aniversário dela assim que desci do ônibus na rodoviária em Paris lá estava ela e nosso reencontro foi com beijo na boca. Me sentia estranho. Fomos meio calados da estação de ônibus até o apartamento onde ela mora, entramos no quarto e direto para a cama, por horas sem parar. Quando já estávamos exaustos ela fez uma foto nossa na cama, estávamos sorrindo, mandou para um amigo contando do nosso reencontro. Então fomos comer e instantaneamente voltamos a conversar e fazer igual a como era em São Paulo.

Fiquei cinco dias em Paris e ficamos juntos por todo o tempo. Muita cama e passeios vários de dia ou de noite; Sacre Coeur, museus, parques, cafés, sorveteria, com o ukulele fomos na beira do Sena, desesperados caminhamos pela noite de farmácia em farmácia atrás de alguém disposto a vender anticoncepcional sem receita. E também houve mais duas ocasiões com conversas sobre como ela ainda amava o ex francês, sobre meu perfil errado para ela e que deveríamos seguir amigos plus. Uma dessas ocasiões foi justamente a visita ao Bataclan, onde houve o atentado terrorista em que o amado ex dela quase morreu porque tinha o ingresso e só na ultima hora teve de desistir do show etc.

Um dia antes da nossa ida ao Bataclan vi no metrô um cartaz com a banana do Wharol, era uma exposição sobre o Velvet Underground e fiquei empolgado, estava vestindo esta mesma camiseta da banana aqui, a Elena identificou, eu disse a ela que queria ir, ela disse ok. Fomos. A expo era grande e tinha muito material, em vários formatos, um verdadeiro parque de diversões para fãs de VU. Uma instalação estilosa transmitia os filmes da Factory com as pessoas assistindo em camas coletivas, enquanto eu assistia Elena dormia a meu lado.

Ainda arrumamos tempo para falarmos sobre a tese dela e ela me convidou para uma entrevista, queria me botar na tese, fiquei contente. No meu penúltimo dia em Paris ela voltou ao trabalho e no horário de saída dela nos encontramos no metrô para passear. Cheguei a sentir como se estivesse morando lá. Até que a coinquilina dela surtou pesadamente deixando bem claro que o quarto não era de casal e eu fui embora. Elena me acompanhou até a estação. Saímos da casa dela com tempo de sobra e antes passeamos num parque, passamos aquelas horas numa calma aparente batendo papo como se fossemos nos reencontrar na semana seguinte. Quase perdi o ônibus, corremos feito loucos. Na estação ela chorou de novo e o ônibus partiu para o local de meu intercâmbio, Perugia, onde já estava meu primo que, sabendo da minha vinda e querendo fazer o processo da sua cidadania italiana e se estabelecer na Itália, veio do Brasil.

Por mais que eu tenha feito meu melhor para arrumar um emprego qualquer em Perugia, não encontrei. Então fui à assistência social e passei a comer na Caritas. Eu e meu primo fizemos alguns bons amigos brasileiros, uma família composta de mãe e dois filhos adolescentes, donos de uma pastelaria, que nos acolheram com alegria e deram muitas dicas. O alojamento no campus (que não seria grátis pra mim) só estaria disponível dentro de um mês. Com o dinheiro cada vez menor, eu e meu primo rachamos o aluguel de um quarto num apartamento no centro histórico e deixamos o hostel. Quando consegui minha primeira entrevista de trabalho numa agência em Perugia, contei para a Elena e ela se mostrou contente, me parabenizou e o papo acabou em morarmos juntos. Cogitamos um relacionamento, ela me disse que deixaríamos de ser amigos plus para enfim construirmos uma história juntos somente se e quando vivêssemos juntos, mas logo disse que não deixaria Paris e me sugeriu de eu mudar meu intercâmbio para lá. Por minha vez eu disse a ela que nunca tive muita vontade de morar na França e que não sei falar francês, além da impossibilidade de mudar meu intercâmbio.

Continua…

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Sobre o autor

Cesar Zanin

Nascido em São Paulo, em 1975 numa família de origem italiana, é tradutor (En-Br/It-Br/En-It), músico (no momento busker), escritor (vivendo o “sonho” como Bukowski ou Fante), estudante (atualmente em intercâmbio universitário na Itália). Amante de carinho (sempre mais), do vinho (barato), da erva (com moderação), de cosmologia e de mochilar. Humanista/progressista, fisicalista/naturalista. Orgulhosamente amador.