sexta-feira, 28 de julho de 2017
Nada Pop

Parigi/Perugia – parte 2

No primeiro encontro fomos ao CCSP ver Onde os Fracos Não Têm Vez e rimos juntos com o velhinho adorável ao nosso lado que repetia a última palavra de cada fala durante o filme todo; não nos tocamos. Então a levei no porão da São Francisco num evento do Dubversão, eu estava doido pra fumar um mas tudo bem pois ali todos eramos fumantes passivos; só então descobri que ela nem beber bebia, haha. Dançamos, dançamos e comecei a avançar, ela me rejeitou, dançamos mais um pouco e nos despedimos. Pensei que a história acabaria ali. Mas voltamos a sair nos dias seguintes: uma vez fomos à pinacoteca, outra fomos na Funarte ocupada e ali mais um soundsystem e nos deparamos com a Erundina, fomos também ver shows de música experimental. Ela estava comigo inclusive quando eu toquei com a Luciana e nossa filha na Trackers. Voltei a avançar, agora pelo whatsapp, e então ela começou a considerar a ideia, mas deixando claro que estava numa fase indefinida (saindo com outros), que me achava legal etc mas que de mim não queria nada além de amizade e eventualmente sexo. Me convidou para jantar, pediu para eu não escolher um dos lugares toscos onde eu comia, fomos ao Ramona e ela fez questão de pagar a conta, foi um jantar mezzo romântico, de lá voltando à pé para a quitinete acabamos parando no bar Brahma para um chope e eu paguei, então fomos até a quitinete e acabamos indo para a cama. E a cama foi para onde seguimos indo, muitas e muitas vezes a partir de então. Aliás camas. E banheiros. E também lugares menos usuais.

Elena morava num apartamento dividido perto da USP e intercalávamos dias e noites entre o Centro e o Butantã. Estudamos juntos no CCSP, andamos de bicicleta no Villa-Lobos, fizemos piquenique no Ibirapuera, passeamos em vários lugares de São Paulo, inclusive com minha filha. As duas se davam bem demais e brincávamos os três juntos. Elena vivia me pedindo para tocar o ukulele, para cantarmos juntos. O ukulele era o único instrumento disponível na quitinete. Passamos a tocar e cantar canções lindas do Lucio Battisti. Ela cozinhava para nós, me ensinou a cozinhar, a fazer chá de gengibre com limão e mel, que fazia sempre para combater o frio e nosso resfriado (cozinhei e fiz chá para ela também). Dançamos, cantamos, realmente praticamos muito nossas línguas. Ela implicava com os atendentes das padarias por não conseguirem fazer o cafè como esperado. Passou a lavar a minha roupa. Chegamos a imaginar como seria nosso filho, lavávamos um ao outro no banho. Passei a dizer a ela que a amava. Expliquei que não queria reconhecimento nem retribuição, que considero amar algo bonito e que não significa nada além disso. Ela dizia que não se pode dizer isso facilmente, mas chegou a deixar escapar uns três ‘eu te amo’ em ocasiões diferentes e em público se referia a mim como seu ‘ragazzo’. Era carinhosa, alegre e afetuosa, na cama era gostosa e segura. Dizia que estava muito satisfeita comigo, me disse que eu seria capaz de fazê-la uma esposa feliz; gostava desta minha camiseta aqui, da banana. Por outro lado me dizia que eu não fazia seu perfil, nem tanto pelos meus quase dez anos a mais, mas por já ter tido duas famílias; vivia me contando do ex que a deixou em Paris pouco antes dela vir ao Brasil e do recente ex brasileiro. Que estava confusa, que achava que iria acabar sozinha. Eu dizia que apesar de a amar não toparia um relacionamento à distância. Falei do livro que escrevi contando a descoberta da minha italianidade e ela ficou muito interessada pois a pesquisa do mestrado dela era justamente sobre a literatura de italianos emigrados no Brasil e seus descendentes, dei a ela a última das cinquenta cópias da tiragem independente que fiz. Viajamos para Brasília onde minha banda com a Luciana tocou e depois passamos quase uma semana na chapada dos Veadeiros. No total foram quase dois meses que ficamos juntos vinte e quatro horas por dia. E apesar de às vezes ter batido um clima triste quando lembrávamos que logo aquilo tudo acabaria, me senti muito bem.

Acabei guardando menos dinheiro do que o mínimo que eu tinha previsto. A Elena também gastou mais do que esperava, inclusive bancou um pouco mais do que eu os custos da nossa viagem à chapada dos Veadeiros, estava preocupada com seu retorno. Antes de Paris ela iria passar duas semanas com a família na Sardenha. Me contou que seu aniversário seria menos de uma semana depois do retorno a Paris e que provavelmente o passaria sozinha. O intercâmbio dela no Brasil chegava ao fim e o meu na Italia iria começar um mês e meio depois. Decidi chegar antes em Perugia, para procurar um emprego. Eu disse que iria visitá-la em Paris para passar o aniversário dela com ela. Ela disse para eu me limitar a pensar nas passagens pois na minha hospedagem pensaria ela.

No dia em que ela foi embora, sentados num café no aeroporto de Congonhas, combinamos que seríamos amigos pra sempre. Ela disse que sempre que nos reencontrássemos a cama seria inevitável, que seríamos ‘amigos plus’, a não ser que um de nós tivesse tido a sorte maior de encontrar um par. Pediu para não nos afastarmos, para continuarmos em contato, mas me pediu para não contar sobre meus novos flertes e encontros, pois sentiria ciúmes. Eu pelo contrário pedi para ela me contar sobre seus novos flertes e encontros, ela perguntou se eu teria estômago, respondi que sim pois acredito ser esse o preço da intimidade. Aperto de mão para selar o “acordo”, sorriso e beijos na boca, no pescoço até o ombro, e um longo abraço. A acompanhei até onde pude e nos abraçamos e beijamos, de frente às esteiras do raio-x. A última imagem dela no Brasil, chorando e me mandando beijos. Só chorei depois, saindo do aeroporto, de volta para a quitinete.

Eu ainda tinha uma semana antes da minha partida por Cumbica e os dois dias seguintes à partida da Elena foram para mim uma autêntica síndrome de abstinência. Tipo cena de Trainspotting mesmo, choro compulsivo, hibernando na cama, risada seguida de choro e vice-versa. No terceiro dia fui buscar minha filha. E minha filha me tirou daquela, ficamos grudados nos meus últimos dias no Brasil.

Eu e Elena mantivemos contato diário, não éramos mas parecíamos namorados. Era estranho. Ela me contava dos dias dela na Sardenha com a família e eu contava de mim com minha filha, trocávamos fotos. Disse que se eu não levasse o ukulele não me aceitaria em Paris. Chegou o dia da minha partida. Estourou a guerra civil na Turquia e descobri só no check-in que meu voo com a Turkish Airways foi cancelado, então me botaram num hotel cinco estrelas perto do aeroporto e me encaixaram num voo Alitalia do dia seguinte. Me senti o Bill Murray em Encontros e Desencontros e publiquei um post no facebook contando a experiência. No dia seguinte Elena surtou e a poucos minutos da minha entrada no avião as mensagens que ela estava me enviando diziam para eu não me iludir pois nunca tivemos nem teríamos um relacionamento.

Continua…

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Sobre o autor

Cesar Zanin

Nascido em São Paulo, em 1975 numa família de origem italiana, é tradutor (En-Br/It-Br/En-It), músico (no momento busker), escritor (vivendo o "sonho" como Bukowski ou Fante), estudante (atualmente em intercâmbio universitário na Itália). Amante de carinho (sempre mais), do vinho (barato), da erva (com moderação), de cosmologia e de mochilar. Humanista/progressista, fisicalista/naturalista. Orgulhosamente amador.