sexta-feira, 28 de julho de 2017
Nada Pop

Parigi/Perugia – parte 1

– Bestia. – O que foi? – Achei muito legal mas estou enrolado com esta tradução aqui. – O que é? – É o roteiro de um documentário sobre um grande cordelista. – Literatura de cordel? – Isso, então já viu, eu que sou paulista empaco a cada duas linhas para processar os modos regionais, a pontuação diferente… Saca transcriação, tradução literária, de poesia? – Sim. – Pois é, não é a minha área…

– Tua camiseta da banana me inspirou, vou botar um show aqui pra gente escutar. – Que show? – Lou Reed, John Cale e Nico em Paris no Le Bataclan em 72. Eles tocaram canções do Velvet Underground e das carreiras solo de cada um. Só os três no palco, clima intimista e público em sintonia, o Lou Reed até se concede agradecer os aplausos, rara beleza.

– Espera, Le Bataclan? Aquele mesmo em que houve o ataque terrorista? – Sim, esse mesmo, quando aconteceu essa barbaridade eu fui ler sobre o Le Bataclan, e mano, ali já foi palco para muito show de rock bom; Jerry Lee Lewis, Captain Beefheart, New York Dolls, The Clash, The Fall, My Bloody Valentine…

– Puta merda. – O quê? – Eu fui lá faz menos de dois meses! – Haha, você durango desse jeito foi a Paris? – Sim, fui e nem saberia bem te dizer o motivo; seria descolado se eu dissesse que fui a Paris por putaria? – Haha. – Em parte foi, mas não, não sei mesmo. – Eita, entendi foi nada, me conta?

– Conto. De boa. Como fui me meter com a Elena, uma sarda que mora em Paris e estava em intercâmbio estudantil no Brasil; minha ex-colega de classe na USP. Dá um pega, passa aqui e relaxa, lá vou eu.

O ano de 2016 mal começou e meu casamento acabou. Não nos suportávamos mais. Fiz a inscrição para um edital de intercâmbio da USP e fui morar numa república no Butantã. Trampando durante o dia como professor de inglês e tradutor freela, assistindo as aulas de noite, puta cansaço e uma dureza de foder. Depois do espaço cultural, aliás, dureza nem era novidade; eu e a Luciana engravidamos e logo depois do nascimento da nossa filha fechamos as portas. Combinamos de evitar aquele ritmo de vida em que a criança tem menos contato diário com os pais do que com outros e enquanto a Luciana voltou para o emprego antigo dela, eu fiquei em casa cuidando a tempo integral de nossa filha. Até os dois anos e meio dela foi assim. Então nos separamos e de repente minha filha passava o dia na creche e eu procurando emprego, amargurado e perdido.

Minha ideia então foi levantar a auto-estima, entrei no tinder; houve algumas novas amizades, legais, algumas presepadas e algum sexo também. Aos 41 anos de idade me deparei com a novidade que era perceber as diferenças, negativas e positivas, entre a vida de casado e a de solteiro no Brasil. Mas a sensação de confusão só diminuiu quando vi que fui selecionado para o intercâmbio. Seis meses em Perugia, sem bolsa de estudo. Ao invés de confusão, agora era correria, eu tinha que guardar dinheiro. Deixei de pagar as merdas todas no banco e até dependi da caridade da Luciana e fui morar na quitinete dela que estava desocupada, no centro, onde morávamos quando nossa filha nasceu. Ali fiquei sem máquina de lavar, sem fogão, sem geladeira, sem coberta. Um frio do cão em São Paulo. Nunca comi em tantos restaurantes e tantas lanchonetes diferentes na vida (na busca pelo mais barato). Mas era por pouco tempo, logo eu estaria de volta vivendo na Italia, depois de quase oito anos. A Luciana me deixava lavar roupa na casa dela e eu podia ver nossa filha tranquilamente. A única outra opção pra mim seria passar esses últimos dois meses e meio com meu irmão Pedro, mas ele morava longe, no interior. Na quitinete eu podia ficar com minha filha. Era demais.

Logo no meu primeiro dia de aula, literatura italiana, assim que bati os olhos nela, sentada em meio aos outros poucos alunos naquela classe minúscula, a percebi. Eu a olhava durante a aula toda, a Elena, mesmo que disfarçadamente, mas não puxei papo, nem ela comigo. Ela parecia ter um corpo muito bonito. Sempre ia às aulas vestida como se estivesse em casa, de moletom, sem maquiagem. Fazia anotação de tudo o que a professora dizia. E quieta, só falava o indispensável, quando a professora perguntava e ninguém mais respondia, ou quando se dirigia a ela. Achei que fosse timidez, a aula era em italiano. Vi que seu italiano era perfeito. Deixei para lá.

Perto do fim do semestre começou a greve na USP e as aulas foram interrompidas. Foi a professora que nos meteu em contato, creio por obra do acaso, para passarmos o material de leitura para o trabalho final aos demais alunos. Ela foi buscar o material na quitinete, eu terminava de vestir a laura no sofá-cama, que era o único móvel ali. Eu e minha filha íamos ver uma sinfônica alemã com espetáculo dedicado às crianças, no Ibirapuera. Conversamos por alguns minutos e acenamos um pouco sobre nós, aquilo de se apresentar. Ela não vestia moletom, era jeans. Pela primeira vez sorrimos um para o outro e a despedida foi com abraço. Foda, senti vontade dela. Depois escrevi a ela propondo de nos encontrarmos para praticar nossas línguas. Ela topou.

Continua…

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Sobre o autor

Cesar Zanin

Nascido em São Paulo, em 1975 numa família de origem italiana, é tradutor (En-Br/It-Br/En-It), músico (no momento busker), escritor (vivendo o "sonho" como Bukowski ou Fante), estudante (atualmente em intercâmbio universitário na Itália). Amante de carinho (sempre mais), do vinho (barato), da erva (com moderação), de cosmologia e de mochilar. Humanista/progressista, fisicalista/naturalista. Orgulhosamente amador.