quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

Para onde foi o rock? Um documentário quer saber

Atualizado no dia 18 de setembro, às 16h

Há poucos dias teve início no Kickante – site de financiamento coletivo – um projeto interessado em fazer uma reflexão sobre o rock no Brasil, envolvendo desde a sua profissionalização até o seu afastamento atual das rádios e tevês. Os interessados em saber o que significa fazer rock em nosso país talvez tenham um material que possa responder algumas perguntas, ou pelo menos ampliar o diálogo de como o rock se enfraqueceu, ficou mais apolítico e, consequentemente, menos relevante e transgressor.

O documentário “Uma banda sem qualidades” é idealizado e produzido pela banda Vespas Mandarinas com direção de Paulo Marchetti. Com depoimentos, testemunhos e até performances de artistas, o projeto também promete um bate-papo com jornalistas, escritores e produtores, entre eles André Barcinski e Marcelo Yuka, além dos integrantes da própria Vespas Mandarinas.

O projeto possui recompensas exclusivas separadas entre o download do filme antes de sua estreia e uma première do documentário na presença da banda e diretor. As colaborações pode ser feitas a partir do valor de R$ 10.

Para saber um pouco mais sobre o projeto, conversamos com o músico Thadeu Meneghini, da Vespas Mandarinas. Leia abaixo:

NADA POP – Thadeu, antes de tudo obrigado pelo papo. Gostaria de começar a conversa perguntando sobre o título do documentário. O nome de “Uma banda sem qualidades” surgiu como e em qual contexto?

THADEU MENEGHINI – O nome tem relação com a música “Um Homem Sem Qualidades” que recentemente lançamos na versão em inglês (A Man Without Qualities) no compacto “o o v o e n j a u l a d o”, com Mark Arm vocalista do Mudhoney cantando.

O nome “Uma Banda sem qualidades” tem essa auto-ironia que reflete também os nossos atuais questionamentos sobre a percepção do que é reconhecido como qualidade na música hoje. Vivemos numa época onde os artistas tem sido mais valorizados que a sua obra. A partir do momento em que o artista se ‘estabelece’ minimamente, ou já é ‘famoso’ no Facebook, ele já se torna maior, mais importante que sua obra. O efeito disso tem sido bom ou ruim? O que eu percebo é que pouco se fala sobre o que o artista produz efetivamente. A imprensa discute muito pouco isso. A impressão que se tem, na verdade, é que pouco importa o que Criolo ou Emicida, por exemplo, estão dizendo.

Muitos artistas acabaram se tornado apenas símbolos, que foram rapidamente aceitos, assimilados ou cooptados. A discussão é ampla: curtir determinado artista hoje em dia significa muito mais uma forma de status social? Se você ‘curte’ um som você está ‘adquirindo uma cultura’ mais pra se diferenciar das pessoas que se apegam aos artistas ditos como ‘populares’? Que qualidades você identifica nas músicas que gosta? É possível encontrar essas mesmas qualidades em artistas de diferentes estilos e status? Quais as possibilidades/dificuldades do rock se tornar mais popular no nosso país? Porque o sertanejo hoje é a música mais popular do Brasil?

NADA POP – O rock no Brasil ficou de fora nos últimos anos de grandes questões sociais, pelo menos diante da grande mídia. Você acredita que o papel do rock como transgressor na década de 80 e 90 no Brasil foi substituído por interesses mercadológicos e comandado mais por empresários do que pelo próprio artista?

THADEU MENEGHINI – Não acredito! Creio mais no efeito nocivo de uma sociedade tomada pelo fenômeno da celebridade e do consumismo. Moçada hoje monta Supla Sertaneja ou mesmo uma banda de rock pra ser super aceita, pra ficar famoso mesmo. Existe pouco questionamento e confronto. Até mesmo no RAP tem muito artista que sucumbiu a onda do consumismo.

O Marcelo Yuca, na entrevista que deu pro documentário, disse algo sobre isso: esqueceram do FODA-SE! Os artistas que mais admiro sempre disseram FODA-SE com muita classe: Heitor Villa Lobos, Roberto Piva, Herbert Vianna, Edgard Scandurra, Renato Russo, Cazuza, Marcelo Yuka e Marcelo Mirisola. Todos eles fizeram isso. É tempo de dizer FODA-SE. Mas não basta só dizer FODA-SE. É preciso propor caminhos.

NADA POP – Ao mesmo tempo em que as tecnologias e o avanço da internet trouxeram benefícios para as bandas, ampliando a possibilidade de auto divulgação, ao mesmo tempo, o público parece não conseguir absolver tanta quantidade de informação. Assim, o quanto a internet foi benéfica para as Vespas Mandarinas e se você enxerga algum erro no uso da internet pelas bandas e, neste caso, qual?

THADEU MENEGHINI – Não sei dizer. Acho que nesse sentido nós sempre tentamos, na medida do possível, nadar numa direção contrária. No auge do pensamento corrente de que o rock deveria ser independente e que as gravadoras seriam extintas, nós assinamos contrato com a DECK e focamos em tocar nossas músicas na rádio. Não deixamos de estar na internet obviamente. Ainda é difícil de avaliar.

Mas me parece ridículo, e até uma certa DITADURA , pensar que uma banda hoje não possa existir sem ter uma página no Facebook. E o que dizer do monoṕolio do Itunes? Também não estou cem por cento de acordo com a cultura digital gratuita. Nem nunca fui adepto do conceito de ‘artista igual a pedreiro’.

Acho que o caminho tinha de ser o inverso. Pedreiro deveria sim ter muito mais dignidade na nossa sociedade. Temos que lutar mais por uma sociedade equilibrada. Isso sim! Não vivemos numa sociedade livre do dinheiro. Por que só a distribuição da música tem que ser gratuita? Acredito na função social do artista. E no trabalho diário pra cumprir essa função. Cada vez está mais difícil sobreviver.

NADA POP – O crowdfunding vem sendo um caminho utilizado por muitos artistas para o financiamento de seus trabalhos. O quanto você considera o crowdfunding importante e se você acredita em outros caminhos de financiamento alternativo ou formas de contribuição voluntária utilizada recentemente por muitas bandas em shows, conhecidos como “pague o quanto quiser”. Já pensaram em fazer isso (ou já fizeram) com algum show do Vespas Mandarinas (o pague o quanto quiser)?

THADEU MENEGHINI – Já fizemos isso bem no começo. Num show chamado “Quanto Vale uma Canção”. Acredito que o Crowdfunding não serve muito para artistas que estão se estabelecendo. Acompanhei o processo sofrido do Vivendo do Ócio e estamos passando pelo mesmo processo agora com o financiamento do documentário “UMA BANDA SEM QUALIDADES” e sinto que essa não é a melhor alternativa pro artista novo hoje.

Acho que não vamos procurar essa alternativa quando formos gravar o novo álbum. Logicamente que existem as exceções e tem artistas novos que surpreendem usando essa ferramenta, mais isso não necessariamente reflete um sistema que vai se estabelecer.

NADA POP – Para encerrar, agradeço o papo e deixo o espaço aberto para que você acrescente o que quiser. Mas antes, gostaria de saber se vocês pretendem abordar no documentário também o papel do público em relação ao rock. Afinal, o público também pode ser considerado responsável pelo afastamento do rock da grande massa? Em qual contexto?

THADEU MENEGHINI – Com certeza o público é muito importante. Não poderíamos deixá-los fora do contexto. Muitos dos nossos fãs estão participando do documentário. Fizemos entrevistas com eles nos últimos shows e eles farão parte do documentário. Tem muito depoimento emocionante!

Gostaria de conclamar a todo o público de São Paulo e cidades próximas a estarem com a banda no dia 10/12 no Museo da Imagem e do Som para juntos assistirmos ao documentário “UMA BANDA SEM QUALIDADES”.

Estamos vendendo os ingressos antecipadamente (até o dia 11/10) como uma forma do público ajudar no financiamento deste documentário que mostra uma banda questionando e propondo caminhos para o novo rock brasileiro. Precisamos mesmo da sua ajuda.

Quem não puder ir na estreia pode contribuir com um valor simbólico com direito a um download. Em retribuição daremos ao público uma carreira sólida, agarrada aos princípios e ideais que abraçamos desde o começo, que irá produzir canções inesquecíveis repletas de entrega, vida e paixão. Muito obrigado!

Acessem o link: kickante.com.br/vespasmandarinas

Página da Vespas Mandarinas no Facebook: fb.com/vespasmandarinas

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CANCELAMENTO: Em nota encaminhada nesta sexta-feira, 18 de setembro, o Vespas Mandarinas informou que cancelou a campanha no Kickante e que seguirá com a produção do filme de uma nova forma e com outros moldes. Afirmaram que o dinheiro das contribuições será devolvido pelo próprio Kickante aos que participaram da campanha.

A banda aproveitou para agradecer a participação de todos que acreditaram no documentário de “Uma Banda Sem Qualidades” por meio da campanha ou por mensagens de incentivo e aos que também ajudaram compartilhando e divulgando a campanha.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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