quinta-feira, 24 de Maio de 2018
Nada Pop

O Terceiro Mundo Vai Explodir | Desacato Civil

O Nada Pop conversou dessa vez com a banda Desacato Civil, banda de São Paulo formada por Léo Garcia (bateria), Diego Jandoza (guitarra e voz), Rude (guitarra), Felipe Sunaitis (baixo e voz) e Xandi (vocal).

Para ficar claro, a entrevista foi realizada por e-mail e o responsável por intermediar a conversa foi o Felipe Sunaitis. Não sei dizer o quanto me diverti lendo as respostas e as histórias da banda, que são bem bacanas. Mas tenho certeza de uma coisa, os caras levam o hardcore com muita paixão. Ficará bem claro na entrevista que a banda, ao contrário de muitas outras que vemos por aí, possui argumento forte em relação a sociedade atual e sobre a cena independente em si.

Inicialmente formada por Felipe Sunaitis e Luiz Bejota, o Desacato passou por mudanças na formação e até de nome, o som inspirado no começo por Ramones se tornou mais rápido e pesado. A banda assume uma postura de contestação a qualquer discurso dominante, apoia à desobediência civil, o desacato às autoridades, a ocupação do espaço público, o poder popular, a arte e cultura underground, o futebol de várzea, entre outras coisas relacionadas.

Uma banda que particularmente conheci há pouco tempo, mas que traz toda uma força e história imprescindível ao atual cenário independente. Antes do início da entrevista, vale dizer que a banda lançou em 2013 o EP “Humano Mercadoria” com cinco faixas além de uma introdução ao EP. A banda possui influências de Flicts, Black Flag, Cólera, Circle Jerks, além de outras que serão citadas na entrevista.

Recomendo a leitura ao som da coletânea Sub, de 1983. Para ouvir basta clicar AQUI. Se preferir, e recomendo também, ouça o EP do Desacato clicando AQUI.

Desacato Civil no Hangar 110 – Foto por Marcelo Shina

A banda surgiu em 2008, mas como foi isso? Como vocês se conheceram e por que só em 2013 vocês lançaram um EP? 
A gente ainda não decidiu se podemos considerar o início da banda em 2008 ou em 2012. Quando surgiu em 2008 a banda tinha outro nome, outros integrantes e o som era mais próximo do punk rock, com muita influência de Ramones. Conforme o tempo foi passando, por diversos motivos foram entrando e saindo vários integrantes, e com isso a cara da banda foi mudando e incorporando influências até chegar à formação atual. O nome inicialmente era Oponentes, mas resolvemos mudar de nome pois descobrimos que já existia uma banda de hardcore chamada Oponente HC, então como os caras existem desde 1994 achamos que não tinha sentido manter o mesmo nome.

Depois de muita gente passando pela banda, acreditamos que dá para pontuar três momentos importantes que nos levou a chegar nessa pegada mais hardcore: primeiro quando fixou cinco integrantes na banda; depois quando o Xandi entrou nos vocais com sua influencia da banda anterior; e finalmente quando um dos antigos bateristas, o Cani, sugeriu que acelerássemos o som. Após essa passagem para um som mais acelerado com cinco integrantes, foram trocados mais dois bateristas (Cani e o Ceará) até chegar ao Léo, que faz parte da formação atual. Foi nesse momento que sentimos firmeza no tipo de som que queríamos tocar e que a formação não seria modificada tão cedo, dessa forma resolvemos gravar o EP e sair pra tocar por aí.

Todos nós nos conhecemos de fazer bastante shows juntos há alguns anos, cada qual com sua banda antiga. Algumas das bandas antigas acabaram e outras ainda existem, mas tocando com uma frequência bem menor – os “refugos” (nós) montaram uma banda nova (haha). O Xandi e o Jandoza tocavam em bandas de hardcore (Sanitarium e Dickstar), o Sunaitis e o Léo tocavam em bandas de punk rock (Unripes e Conxhas) e o Rude fazia parte de uma banda de Ska Punk (Skamaradas Trio). Pra finalizar essa confusão, a banda com essa formação e estilo de som não data desde 2008, mas sim de 2012! Uma hora a gente decide! (haha)

Falando no EP (Humano Mercadoria), digam onde e como foi esse processo de gravação, em quanto tempo vocês gravaram?
Iniciamos as gravações no início de 2012 em um estúdio no Tatuapé. De cara foi notável que o processo começou a atrasar mais do que o normal e percebemos que os caras estavam enrolando (se pá para aumentar as horas) e fazendo as coisas “nas coxas”. Perderam partes de gravações, mendigaram horários para gravação no estúdio, jogaram o trampo na mão de terceiros (visivelmente aprendendo o trampo), etc. Sacamos isso a tempo, pegamos o aproveitável do material e saímos fora. Foi quando o pessoal da Lomba Raivosa! nos sugeriram o estúdio onde eles fizeram suas gravações. Era o Estúdio do Junião, em São Bernardo do Campo. Além de gravação de bandas ele faz vários trampos de audiovisual (não sabemos se mudou o nome, mas na época era MondoCão Filmes). Quando chegamos lá, para nossa felicidade, o cara (Junião) era meio ninja no manuseio das ferramentas do seu estúdio (rs).

Terminamos em uma noite todos os instrumentos de corda e as vozes. Mais uma vez, assim como a formação da banda, não decidimos ainda o que dizer, se demoramos o mês inteiro que levamos só pra gravar as baterias no primeiro estúdio, ou uma noite que levamos para gravar todos os instrumentos (haha).

Capa do EP “Humano Mercadoria”

A banda possui influências de Ramones, Flicts, Black Flag, Cólera, Olho Seco, entre outras. Mas gostaria que cada integrante citasse as bandas que mais gosta, que fizeram e fazem parte do estilo de cada um, tudo bem? Vamos lá:
Rude: Falar das bandas que eu mais gosto é muito complicado, pois escuto muita coisa, muitos estilos, bandas e cada uma com suas influências e particularidades. No geral eu escuto muito Ska e Early Reggae, desde Desmond Dekker, Skatalites, Laurel Aitken, Alton Ellis até Reel Big Fish. Gosto muito de hardcore Nova Iorque, principalmente Sick of It All. Também gosto bastante de Biohazard, Madball, entre outras. Tem também o lado mais Califórnia como o Bad Religion, Suicidal Tendencies, NOFX, passando pela Inglaterra com Cock Sparrer, Cockney Rejects, The Clash, etc. Também escuto alguns sambistas das antigas, e assim como os outros da banda, gosto muito de RAP que fez parte da minha formação quando comecei ouvir música e nessa linha tenho escutado muito o Z’África Brasil, que aliás, é foda pra caralho! Pra fechar tem as bandas brasileiras como Cólera, Ratos de Porão, Flicts, Olho Seco, Invasores de Cérebros, Restos de Nada e por ai vai…  É difícil fazer uma lista com bandas e influências, é praticamente sem fim, mas é mais ou menos por ai.

Léo Garcia – Bateria

Felipe: Minhas influências variam conforme a época. No geral, minha maior influência nesse momento são as bandas de punk e HC nacionais, tanto as primeiras quanto as recentes. Curto bastante as bandas punks espanholas, quase todas elas tem letras politicas anticapitalistas muito bem feitas (Sin Dios, Escorbuto, Los Muertos de Cristo, Reincidentes, Ska-P, etc). No mais, eu costumo ouvir – além de punk e hardcore de todas as épocas e regiões – sons jamaicanos, RAP e os sambistas das antigas. Normalmente gosto de músicas com letras que tem algum tipo de desobediência e crítica ao que é tido como “normalidade” pelas convenções sociais, por isso ultimamente tenho ido atrás dos funks cariocas porque eles são os que mais estão incomodando, tô querendo ver de onde eles conseguem isso pra tentar fazer igual (haha).

Xandi: Cara meu estilo predileto mesmo é o hardcore, nos moldes dos anos 80, um pouco mais acelerado e com os vocais potentes, além das citadas acima como Ratos de Porão, Dead Kennedys, Circle Jerks, Bad Brains, Los Crudos e outras. Minhas raízes, vindas do bairro onde nasci, fizeram com que eu criasse um vinculo muito forte com o RAP também, e obviamente com o punk rock que é quase como uma disciplina de tudo que escuto (rs). Em geral mesmo, me influenciam todos os ritmos que tenham em suas letras algum tipo de contestação e insatisfação.

Diego: Minhas influências já mudaram muito, começou no punk rock (Flicts, Black Flag, One Way System, Dead Kennedys, Cólera, The Casualties), depois passou para o hardcore (tanto o hardcore rápido com vocais rasgados e rápidos tipo Mukeka Di Rato, Ratos de Porão, Agrotóxico, como também bandas como NOFX, Bouncing Souls, Anti-Flag, The Suicide Machines e outras que seguem uma linha mais Califórnia). Ouço também muitos sons e estilos diferentes dos citados, que vão do samba raiz, reggae roots, ska, punk, hardcore, blues até qualquer outro que tenha alguma ideia a ser passada ou que me inspire na hora de criar um riff. Fora isso ouço muita coisa do meio underground.

Léo: Difícil responder cara, mas desde quando comecei a curtir um som, as bandas nacionais sempre foram as preferidas pra rolar nos fones de ouvido! Posso citar algumas como Cólera, Ratos de Porão, Sepultura, Dead Fish, Flicts, Gritando HC, Zumbis do Espaço, Mukeka di Rato, Muzzarelas, Grinders, Carbona, entre outras.

Desacato Civil em Brasília – Foto por Querolx

Há pouco tempo vocês viajaram para Brasília para tocar, como surgiu essa oportunidade e descrevam um pouco como foi esse “rolê” pela capital do país. Com quais bandas vocês se apresentaram por lá?
Surgiu a oportunidade por intermédio da Lomba Raivosa! que já tinha ido lá. Tinham marcado um novo rolê por lá e perguntaram se a gente não estava a fim de ir junto. Na hora aceitamos a ideia e pra lá a gente foi. Os que foram nossas “babás” nos guiando por lá foi o pessoal do Beer and Mess e do DF147. O rolê foi muito louco, a galera de lá estava animada pra cacete nos sons – pelo menos aqueles dias estavam (haha). Foi um dos melhores shows nosso até hoje!

A gente curte bastante tocar em lugares fora de SP, achamos muito importante esse intercâmbio de bandas. Isso dá um fôlego para todos/as, pois lhe tira da rotina de tocar nos mesmos lugares, fazer os mesmos caminhos. Essa rotina acaba fazendo com que os vícios e defeitos fiquem normais, e por outro lado as qualidades e os pontos positivos correm o risco de não serem mais reconhecidos, o que acaba deixando as ideias e ações um pouco estagnadas. A gente tá respondendo essa entrevista logo após o fim de semana que o Beer and Mess vieram para SP para tocar com a gente. Fizemos três sons num intercâmbio SP, Brasília, Várzea Paulista e ABC – sendo as bandas: nós, a Lomba Raivosa (SP), Sentimento Carpete (ABC), Perturba (Várzea Paulista) e a Beer and Mess (DF).

Diego Jandoza – Guitarra e Voz

Em Brasília tocamos com a Beer and Mess, DF147, The Squintz, Penteando o Macaco, Excrebanho, além do Lomba. Era para tocarmos em dois lugares, um em Brasília e outro em Goiás. O de Goiás acabou não rolando porque deu uma zica na luz do pico e por motivos de segurança não rolou o som (haha). Mas mesmo assim ganhamos umas garrafas de pinga e um caldo verde! Ficamos cantando clássicos do punk com o dono do pico tomando cachaça e comendo um caldo! A gente vai voltar lá com certeza e esperamos tocar e ganharmos aquele caldo novamente! (haha)

Muitos shows de vocês estão acontecendo junto com a Lomba Raivosa, como funciona essa parceria? Vocês pensam em gravar coisas juntos também?
Acaba sendo uma parceria meio que natural. Se pegar os membros das duas bandas, ou tocávamos juntos direto no passado com as bandas antigas ou tocavam (e tocam) na mesma banda até hoje (O Ítalo, batera da Lomba e o Xandi tocam juntos no Sanitarium). Por sermos amigos acaba que um vai chamando o outro para shows, organizamos coisa juntos, pois o tempo acabou gerando uma confiança. Um vai puxando o outro, seja para melhora, seja para o buraco (haha). Sobre gravar coisas juntos não pensamos em nada ainda que sejam só as duas bandas, porém tá rolando a organização de uma coletânea na qual além das 2 bandas vai rolar mais 22.

Já existe um novo álbum previsto? É possível contar um pouco de como vai ser e onde pretendem gravar?
Tem sim. A gente pretende começar a gravação do álbum em maio com a intenção de lançar em agosto. A ideia é gravar uns 12 sons, fazer CDs prensados, etc. Claro que isso é só um planejamento porque sabemos que sempre acaba atrasando por algum motivo (rs). Onde? A gente ainda não sabe. O Junião foi para a Argentina e nos deixou órfãos! (haha). Não sabemos onde vamos gravar mais sabemos aonde NÃO vamos (haha).

Desacato Civil em Brasília – Foto por Querolx

Gostaria de saber se existe alguma história engraçada de algum show da banda, algo que ficou marcado, seja pela bizarrice dos fatos ou apenas porque foi algo inesperado mesmo.
É difícil dizer por que em todos os shows a gente faz alguma merda engraçada (pelo menos pra gente – haha). Tem as clássicas: quando fomos tocar em Indaiatuba, uma parte foi embora de carro e a outra ficou pela rua esperando abrir a rodoviária para comprar passagem de ônibus para voltar. Os que ficaram resolveram entrar em uma lanchonete para passar o tempo. Um dos rapazes (não sei se falamos que foi o Jandoza) resolveu ir ao banheiro e depois disso não o vimos durante umas 2 horas. De repente, começou a aglomerar gente na porta do banheiro e o pessoal dizia que tinha um cara trancado lá dentro. Quando a porta foi aberta descobrimos que o cidadão entrou no banheiro e resolveu tirar uma soneca na tampa da privada por uns 10 minutos para passar o sono e acabou ficando lá por 2 horas trancado! (haha).

Em Brasília teve um (ainda não decidimos se falamos que foi o Jandoza) que saiu rolando a rampa do planalto igual o Vampeta, teve o hotel que ficamos que parecia um cativeiro, não tinha nem sifão na pia, você cuspia a pasta de dente na pia e ela caia no seu pé (haha). Teve um pico que a gente tocou que tinha um cara pogando na ponta do pé igual balé, no Guarujá um cara veio falar que só descobriu que o nosso som era hardcore depois que começamos a tocar, pois a gente parecia um grupo de funk devido como estamos vestidos. Tem a própria história do show que não teve em Goiás e ganhamos pinga e caldo verde. Enfim, podíamos ficar aqui só falando de bizarrice que aconteceram em cada show (haha).

De inesperado acho que foi a gente vender camisetas da banda. A gente achou que só nossos amigos e parentes iam usar para dormir (haha). Foi bastante inesperado as pessoas que não conhecíamos terem comprado. Claro que teve umas que vendemos dizendo ser outra banda, mas não é uma porcentagem considerável nas estatísticas! (haha).

Qual foi a música que virou a cabeça de cada um de vocês e que fez ter a vontade e certeza de tocar hardcore?
Rude: Essa é outra pergunta complicada pra caralho de responder, mas um lance que me marcou muito foi ler uma entrevista do Cólera numa revista, não faço nem ideia de que revista era porque faz muito tempo, mas eu lembro que era uma revista dos meus primos da década de 80, acho que era lançamento do “Pela Paz em Todo Mundo”. Claro que li essa entrevista muitos anos depois e não quando ela saiu, porém tudo que os caras falavam ali ainda fazia muito sentido e isso me causou um grande impacto. Outro lance foi a demo do Flicts – “Apesar das Aparências Ainda Somos a Escória” – que tenho em fita K-7 até hoje! Essa demo eu ouvi muito e também foi foda na época que eu a conheci.

Felipe: Para tocar o tipo de som que toco hoje, com certeza foi quando parei para prestar atenção nas letras e na história do Cólera. Pontualmente o disco “20 anos ao vivo”. E tem o Flicts também que eu escutava o dia todo, desde quando tomava um pé na bunda até antes de ir para algum protesto na rua (haha). Comecei a me empolgar com a possibilidade de a sua música ser importante para ajudar na autoestima de alguém, e comecei a pensar no fato que um disco tem o poder de modificar sua vida, libertar seu pensamento, etc.

Xandi: Impossível responder sua pergunta, eu já tenho dificuldade em escolher a banda predileta o que dirá a música que iniciou essa bagaça toda (rs!). Mas tenho algumas certezas, para fazer o que faço hoje o SUB, com todas as bandas que o compõe, e as bandas de hardcore de fora da década de 80 são diretamente 70% das responsáveis.

Diego: Se não me engano foi algum som do Flicts, não sei ao certo. Lembro que foram muitas descobertas (bandas) ao mesmo tempo, mas vou citar alguns como o CD “Homem Inimigo do Homem”, do Ratos de Porão; “Canções de Batalha”, do Flicts e o “Punk In Drublic”, do NOFX (tem muitos, mas esses são os que lembrei agora rs).

Léo: Não foi uma musica cara, foi um álbum! LOCO LIVE dos RAMONES, eu já tinha ouvido Ramones, mas esse disco tem um poder destruidor! A energia que esses quatro desgraçados conseguiam passar com o som foi o que me faz até hoje querer tocar.

Rude – Guitarra

Como estão os shows de vocês, em quais locais vocês já tocaram (cidade) e quais gostariam de tocar? Estão com algum outro show previsto para fora do estado de SP? 
A gente tá tocando bastante em vários lugares, com bastante banda diferente, de vários estilos diferentes. A gente tocou em Mauá, Judiapeba, Indaiatuba, Várzea Paulista, Brasília, quase em Goiás (haha), São Caetano, Diadema, Guarujá. Daqui duas semanas tocaremos em Sorocaba. Esperamos tocar em mais lugares, ainda nada confirmado além de Sorocaba, mas com certeza vamos atrás de tocar em outros lugares. Pessoal de outras cidades e estados chamem a gente que a gente vai! Se não gostar do som pelo menos vocês darão risadas (haha).

Além das influências que vocês citaram, quais as bandas da atualidade que vocês curtem? 
Felipe: Eu acho que tá rolando bastante coisa nova (ou nem tão nova assim) muito boa. Além das que sempre ouvi e que estão lançando coisas novas tipo Flicts, Deserdados, Invasores de Cérebros, Agrotóxico, Juventude Maldita, estou indo atrás de conhecer bandas nacionais mais recentes. Todas as bandas muito boas que não são valorizadas como deveria porque existe, na minha opinião, uma síndrome de nostalgia no punk rock em que as pessoas só valorizam coisas que tem mais de 20 anos. Se vier a tia do Joey Ramone ou algum cantor de bengala caçar uns níqueis, todo mundo vai nem que seja pra pagar bem caro. Quando são bandas novas ou o pessoal trazendo bandas de fora (sejam conhecidas como o Rattus, sejam menos conhecidas, pelo menos pra mim, como o Alarm) na base do DIY, a galera reclama de tudo, isso quando vai! Se pá é porque não tem glamour no Instagram postar foto em show de três conto! (haha) Na verdade que se foda também, cada um vai onde quer! Eu tenho ouvido bastante Kob 82, Anti-Corpos, Asfixia Social, Teu Pai Já Sabe?, Perturba, Test, Vingança 83, Rota 54, Ferramenta, No Skill, Ódio Social, Seek Terror (que não sei se posso dizer que é nova), Ratas Rabiosas, etc. De rap: Z’Áfrika Brasil, Suspeitos da Norte, Ktarse, Extremo Leste Cartel, Liberdade e Revolução, Odisseia Das Flores, etc.

Xandi: A cena hoje é gigantesca, e eu fico cada dia mais feliz em escutar bandas que estão fazendo um puta som, e que tem uma ideia legal pra passar, aquilo que nos faz refletir tais como (vai ficar até repetitivo porque o Felipe citou as mesmas, mas faço questão de repeti-las): Kob 82, Anti-Corpos, Asfixia Social, Teu Pai Já Sabe? (Uma pena ter acabado), Perturba, Cristo Bomba, Test, Vingança 83, Rota 54, Ferramenta, Ódio Social, Lomba Raivosa, Beer and Mess, Veneno Lento e Sweet Suburbia. De rap Z’Áfrika Brasil, Suspeitos da Norte, Ktarse, Extremo Leste Cartel, etc. E as não novas, mas que estão com CDs novos foda, Flicts e Deserdados que ando escutando muito.

Rude: Putz, não vou falar tudo de novo, mas além de muitas das bandas que o Xandi e o Felipe já citaram eu tenho ouvido muito uma banda de ska punk turca chamada Athena, a banda não é nova, mas eu descobri não faz tanto tempo, então para mim ainda é novidade. Tem o álbum solo do Funk Buia que é bem foda também, e tem um rapper alemão chamado Chaoze One, que parece que também não é tão novo, mas conheço há pouco tempo. Eu estou sempre procurando conhecer coisas novas e bizarras, ultimamente tenho procurado coisas de países diferentes e que às vezes nem imaginamos que role algo legal. Conheci umas bandas punks da china bem fodas recentemente.

Diego: Tenho ouvido muito a nova cena do underground como Asfixia Social, Teu Pai Já Sabe?, Lomba Raivosa, Surra, DF-147, Chicken’s Call (Hardcore francês muito foda), Same Flann Choice, Artany, In Fuga, Reprogresso, Deserdados, Agrotóxico, Flicts, entre outras. Sempre gostei muito de descobrir bandas novas que fogem da “normalidade musical” que é imposta pela mídia.

Léo: Atualmente dou um nó no meu cérebro, dividindo meu tempo em ouvir bandas de trash/crossover e musica jamaicana.

Felipe Sunaitis – Baixo e Vocal

O que a banda mais repudia atualmente, aquilo que tira vocês do sério, com raiva mesmo e por quê? Pode ser uma resposta geral ou por integrante, como preferirem. 
Acho que no geral o que repudiamos são as covardias e injustiças que são bastante presentes não só por aqui como internacionalmente falando. Repudiamos o racismo velado que há no Brasil, a violência contra a mulher, a homofobia que vem crescendo a cada dia, seja nas ruas ou dentro das instituições. Somos contra o autoritarismo, totalitarismo e/ou qualquer resquício de fascismo. Somos contra as instituições religiosas (lembrando que acreditamos na liberdade de crenças, porém somos contra a institucionalização disso para utilização da fé das pessoas como ferramentas para motivações políticas e financeiras). A ação descarada da Polícia Militar do Estado de SP. A desigualdade social presente e justificada por imbecis. A mercantilização da humanidade.

São muitas coisas que a gente com certeza vai colocando nas letras dos próximos sons. Em geral nos irrita a violência dos privilegiados para se manterem como tal, contra quem não tem as mesmas condições de se defender.

Como vocês observam a cena underground de São Paulo, para vocês existe algo a se criticar e o que seria? 
A cena de São Paulo é bastante fragmentada em várias tendências. Em um fim de semana terá muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e isso na maioria das vezes faz com que tenha várias micro cenas quase sempre com poucas pessoas (isso não necessariamente é ruim). Acho que isso entre outras coisas acontece pela ausência de mais mídias alternativas para divulgação do que acontece  e a divulgação da voz com a opinião de quem participa desse espaço. Tem aumentado (timidamente ainda) novamente o número de fanzines impressos, e isso é muito bom, favorece o contato entre as pessoas e que as deixam um pouco distante dos computadores!

Xandi – Vocal

Acreditamos que é saudável existir várias iniciativas de mídia independente, para que seja fomentada a diversidade de pensamentos e a solidariedade entre todas. Não vemos com bons olhos quando se centraliza toda a mídia em poucos lugares, pois isso necessariamente acaba levando a um centralismo em que esse centro acaba sendo o lugar que atribui valores as coisas, diz quem é bom ou ruim. E isso propicia a divulgação somente de interesses próprios, seja divulgação de amigos ou de clientes (que pagam uma grana).

Além disso, tem também a preguiça das pessoas em ir assistir coisas novas. Tem a nossa preguiça de organizar shows em outros lugares que não casas que tem como motivação principal o lucro. Você paga 25 conto para entrar, paga sete em uma cerveja, gasta três conto de condução para ir e voltar (isso na melhor das hipóteses), é tratado no pico como se tivessem fazendo um grande favor para você. Nisso tudo, se você escapar de tudo, não vai sobrar um centavo para comprar um CD, uma camiseta das bandas. Acredito que esteja mudando, porém a gente chegou a um momento que estamos fomentando mais empresários de casas noturnas do que as bandas, espaços autônomos, estúdios alternativos e outros artistas.

Bandas precisam gravar CDs de madrugada para pagar mais barato, artistas precisam usar tintas mais baratas pra pintar, etc. Isso acaba influindo também na longevidade das produções realmente independentes. Não somos unidos, e empresários sentem cheiro de desunião e ganham com isso. Quem acaba indo aos shows fica sendo um pessoal mais de classe média com condição de bancar a noite e naturalmente as bandas, e os eventos vão ficando cada vez mais cooptados pela “normalidade” vigente, qualquer rebeldia e forma alternativa de expressão é dissolvida (que para nós deveria ser inseparável do punk e do hardcore) e acaba caindo numa cena que reproduz a mesma lógica do mainstream. Tipo a categoria de base pro Loolapalloza (haha).

E quando falamos em rebeldia, isso não está no tema que você aborda, sim no seu proceder, na sua atitude. Só ver a diferença de uma letra de amor do Hüsker Dü comparada com uma letra com teor social dessas bandas enlatadas (parece aqueles protestos panacas de caras pintadas com placas contra a corrupção – haha).

O primeiro videoclipe de vocês se chama “Paixões de Mercado”, como foi para vocês essa gravação, saiu do bolso de vocês ou foi uma parceria mesmo. Contem como foi isso, desde a ideia até a finalização do vídeo. 
Esse clipe a gente não gastou nada nele. Passamos o dia inteiro tomando cerveja e até levaram um rango para alimentar a gente (haha). O Maty e o Escobar são amigos do Léo e na época eram estudantes de audiovisual da ETEC. Precisavam fazer um trabalho e nos propuseram gravar o nosso clipe. A gente não pensou duas vezes e aceitamos essa oportunidade. O trampo ficou muito louco, na época era o pessoal que estava para se formar em uma turma da ETEC, hoje os caras são a Olho de Cabra produções e os recomendamos porque além de levarem tortas gostosas para a gravação, de quebra ainda trampam muito bem (como vocês poderão conferir)! Assim como o Junião, são ninjas no trampo. Só a gente que não é ninja em som, mas os outros conseguem ajudar! (hahaha)

Antes de encerrar, sabemos que nem só de música são feitas as influências de uma banda, por isso gostaria que cada integrante fizesse uma recomendação, seja literária, filme, revista ou mesmo quadrinho. Claro, pode ser qualquer outra coisa também, como um show.
Léo: Acho que a maior influência é o próprio rolê, é o que a gente vive e vê por ai, sendo isso bom ou ruim. Recomendo pra galera sai pra dar um rolê na rua e não ser um babaca.

Xandi: Mano, vou recomendar coisas que vem sendo cada vez mais mercantilizadas, culturas populares da rua que se não nos mobilizarmos podemos acabar perdendo o direito de estar dentro das mesmas. Alguns de nós participamos de um time de futebol de várzea que faz parte do conjunto de times amadores que pretendem ser o mais democrático possível nas formas de organização, em condições técnicas, etc. A ideia desses times é tentar se distanciar do futebol de “papel” globista e elitista, questionar o endeusamento de ídolos pré-fabricados como o Neymar, o maior exemplo nos dias atuais.

A ideia é se distanciar dos diversos tipos de preconceito a quem gosta de praticar o esporte, recebendo a todos, independente da sua habilidade, todos participam da administração até a atuação em jogo da mesma maneira, abrindo pequenos debates internos sobre o real sentido do FUTEBOL, de sua essência até seu atual momento. Um desses times, o que participamos se chama CATADÃO e você pode colar junto se quiser, bater uma bola sem medo de ser escrachado ou zuado por não ser o melhor do time. E dentro dessa linha existem muitos outros, só encontrar o que você tiver mais afinidade.

Para fazer parte e saber mais sobre o Catadão basta clicar AQUI. E para não ocupar o espaço de todos, recomendo também o vídeo “Grafite SSA”, que relata um pouco do grafite em Salvador, contando um pouco da história, da cultura e como chegou por lá, tirando toda centralização de SP e mostrando que há trampos de arte bons em outros lugares também. Para assistir clique AQUI.

Diego: Gosto bastante de documentários, então recomendo alguns: Pixo, Um Lugar ao Sol, Lixo Extraordinário, Ilha das Flores e Punk in África. Também recomendo o livro ilustrado do Will Eisner que fala muito das características das pessoas no geral. E também segue a recomendação do Léo: vai pra rua ver o que tem, vai pro rolê!


Felipe: Eu gosto bastante do Afonso Schmidt (um escritor libertário do começo do século XX), o João Antônio, Lima Barreto, Roberto Bolaño, Glauco Mattoso. De cinema eu recomendo o cinema marginal (a parte audiovisual do DIY! – Rogério Sganzerla, Julio Bressane, etc.) e o cinema latino-americano. Curto também artistas plásticos de rua que desprezam as galerias de arte, os afagos de madames e intelectuais pedantes! Fora as escritas de autores com tendências libertárias e antiautoritárias que quando era mais novo eu falava que lia pra fazer pose, mas comecei a ler só agora de fato (haha).

Rude: Como eu disse tenho procurado muita coisa de países que nem sempre costumamos ter muito acesso como Turquia, China, Irã, países da África, etc. Tem uma banda de ska muito boa da África do Sul chamada 340ml, tem o documentário, eu acho que de 2012, chamado “Punk in Africa” que recomendo bastante. A ideia é sair da mesmice, então na linha do que o Léo falou, saia pra rua, vá pro rolê ver o que acontece, monte sua banda, faça seu zine, escreva um artigo, ou sei lá o que, mas faça! Não fique parado porque tem muita coisa rolando e qualquer um pode contribuir e fazer sua parte, basta querer e ter disposição.

Em nome do Nada Pop gostaria de agradecer a vocês pelo bate-papo e, para encerrar, deixo aqui o espaço aberto para vocês informarem como localizar o Desacato Civil pela web e entrar em contato com a banda.
Valeu ao pessoal do Nada Pop, estamos juntos no que precisar! Quem quiser conhecer a banda segue os links:

Soundcloud 
https://soundcloud.com/desacatocivil

Bandcamp
http://desacatocivil.bandcamp.com/

Download do EP “Humano Mercadoria”
http://www.mediafire.com/?63637z1kk36ksek

YouTube
http://www.youtube.com/desacatocivilhc

Contato
desacatocivil@gmail.com

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Até a próxima!

Texto por Maurício Martins

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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