terça-feira, 13 de novembro de 2018
Nada Pop

O Rock É Um Gênero Pro Negro!

Ludovic na Superloft e Garage Fuzz na chopperia do Sesc Pompeia. Estes foram os últimos shows bombados que colei e, pode ser que isso não tenha relevância nenhuma para quaquer habitué de gigs, mas arrisco dizer que pra cada 100 pessoas presentes haviam uma negra. E o mais curioso é que a grande maioria eram lobos solitários. Lembrando que 53% da população dessa invasão é negra.

“Pô, eu sou brasileiro, nasci no Rio. Sou do subúrbio. O rock não chegou. O rock não é um gênero pro negro, apesar de Jimi Hendrix. Suspeito até que o reggae o negrão aqui não gosta. Quem gosta de reggae mesmo é a galera do surfe, o pessoal da Guarda do Embaú, eles gostam. A negrada na favela não escuta o reggae music. Talvez porque a imagem do reggae ou do Bob Marley ou do dread esteja associada à maconha, que associa à polícia, que associa à repressão, que associa a um monte de coisas. Me lembro de não ter ouvido rock ‘n roll.” Seu Jorge em entrevista ao site da revista “Vice”.

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Banda Radkey

O primeiro disco individual de uma banda punk na América Latina foi o “Crucificados Pelo Sistema”, do Ratos em 1984. Eles não moravam no Higienópolis. O que nos leva à crer que o rock – ao menos em São Paulo – se não chegava aos pretos, ao menos chegava na favela com uma dose cavalar de contravenção.

Eu cresci nos anos 90. Época que o rádio, a TV e fitas k-7 em revistas de skate davam um norte fodido sobre música. A favela do Jardim Elba abrigava fãs do Raça Negra, Racionais MC’s e Nirvana. Podemos associar essa tríade à repressão, que “associa a um monte de coisas” e mesmo assim não deixávamos de ouvir nenhuma sonoridade em razão de um Estado Policial.

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E no olho do furacão haviam os rolês de skate que lapidavam estes aspectos antes mesmo de termos qualquer consciência sobre política. Anos depois essa consciência viria de algum modo subliminar em audiências de discos clássicos do hardcore e rap tanto nacional como internacional.

E sem a necessidade de nenhum estudo socio-ecônomico, é evidente que o rock “embranqueceu” (fez com que plateias brancas mais endinheiradas consumissem aquela sonoridade) assim como um dos gêneros mais marginais da Black Music que surgiu por Nova Orleans em meados do século XX: o Jazz. Todavia, isso não é de hoje!

“Se eu conseguir achar um rapaz branco que cante como um negro, farei um milhão de dólares”. Sam Philips, dono da gravadora Sun. E assim surgiu Elvis Presley.

Anos depois temos quase zero de presença negra em shows de rock – mesmo os shows independentes e contra-culturais. E nós, pretos, nesse dia da consciência negra temos que entender que nossa presença em qualquer espaço é resistência. Todos os tentáculos que foram criados para embranquecer o rock, o jazz, o rap, o funk carioca, a porra que for – nossa resposta deve ser a mesma que os estudantes secundaristas estão dando e o Dead Fish enfatiza em uma de suas canções: ocupar e resistir!

Malcolm Brickhouse da banda de metal Unlocking the Truth

Malcolm Brickhouse da banda de metal Unlocking the Truth

Os judeus sobreviventes do Holocausto não perderam algo que faz uma tremenda falta para nossa comunidade negra hoje: o senso de comunidade. Temos dificuldade de nos reconhecer como negros. Temos dificuldade de reconhecer um sistema de opressão que nos atinge. E até mesmo quando falamos sobre representatividade.

“Estadão: Já foi vítima de racismo?”
Neymar: Nunca. Nem dentro e nem fora de campo. Até porque eu não sou preto, né?”

Há algum tempo atrás, eu estava num show no finado Espaço Impróprio conversando sobre música com uma pessoa. Falávamos sobre discos alguns discos que estávamos ouvindo. Eu perguntei:”Eu acabei de descobrir o Death e o Pure Hell. Ambos me lembram muito o Bad Brains. Cê manja?”

E essa pessoa respondeu assim bem na lata:” Não escuto bandas onde negros são vocalistas!”.

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Boogarins – Foto por Ninja Franz

Se acostumaram a achar normal não ver negro em bandas ou shows de rock. O rock é sim um gênero pro negro assim como é pro branco, amarelo e pro indígena. Não é exclusivo, mas sim combativo! É como se essas pixações em banheiros do Mackenzie dizendo que faculdade não é pra preto tivesse como resposta o cancelamento da matrícula de pretas e pretos. Tem que revidar e colar com o bonde enegrecendo a porra num levante negro!

É fácil esquecer quem somos e quem fomos, mas nossa luta e resistência é pra recuperar a história que apagaram e que nos acompanha como grilhões até mesmo em nossos sobrenomes.

Que nosso pulso esquerdo siga em riste cortando o ar em todas as formas de manifestações artísticas! Feliz dia da consciência negra à todos e todas!

Trilha recomendada “A Ponte” do Plastic Fire: https://goo.gl/a5Wt7f

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Sobre o autor

Boqa

Eduardo Santana, mais conhecido como Boqa, é colaborador do Nada Pop.

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