sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Nada Pop

O postcore lo-fi do Enema Noise nos melhores moldes independentes

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No Tarot, a carta 9 de espadas está associado ao nosso “pior pesadelo”.

É no bastante rico cenário musical do underground brasiliense que a banda Enema Noise vem atuando desde 2009. O som? Um postcore lo-fi nos melhores moldes independentes brasileiros, temperado com angústia raivosa de uma juventude que cresceu influenciada pelo movimento DIY e o som cru do punk e do hardocore de Washington, e que tem muito o que expressar em suas músicas. Lançado em janeiro deste ano, o EP autoentitulado é fruto do trabalho de três selos independentes, Bichanos Records, Share This Breath e Transtorninho Records.

O registro é curto e apresenta uma nova fase da banda. Com cinco faixas em português, todas com letras breves, sem enrolação, porém recheadas de significados e possíveis interpretações, faz com que esse trabalho seja um pouco mais indireto do que o trabalho anterior, de 2014 (manual pouco prático do desapego). O som, por sua vez, equilibra dissonância e melodia. Traz mais passagens instrumentais e se tornou mais ousado e mais abstrato. Antes, o hardcore aparecia com uma cara, digamos, mais tradicional e direta, e agora a Enema Noise mostra uma nova faceta em sua produção, claramente madura musicalmente.

A capa do EP é uma releitura da carta do Tarot chamada Nove de Espadas. Para quem não está familiarizado com o baralho, esse arcano recebe a alcunha de “Nosso Pior Pesadelo”. Está associado ao desespero, depressão, insônia, angústias que nos arrastam e parecem não ter fim. A carta pode ser interpretada também como a falta de coragem para enxergar aquilo que não está muito claro diante de nós, empecilhos não solucionados devido à falta de foco ou luz.

Essa imagem resume bem alguns momentos do EP, como no trecho de Curta – Corda: “eu já perco o foco e também perco o sono. desperto toda noite. emendo um dia ao outro. minuto após minuto aflito”; e no trecho de Azarnoazar: “gasto a chance abrindo a porta errada/ um nove de espadas que persegue, e o zero que me alcança,/ se acommodam, lentamente, outra vez”, criando assim uma concisão conceitual que mostra a seriedade do trabalho da banda.

Em resumo, o EP autoentitulado é, com certeza, um interessante cartão de visita para os próximos trabalhos que estão por vir. Recomendo principalmente as faixas “Fogo Amigo” e “Azarnoazar”.

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Sobre o autor

Paulistana, ex-radialista e DJ da Rádio UFSCar, apaixonada pelo cenário cultural indie (e por gatos), aprendeu quase tudo na base do DIY. Espera ansiosa o apocalipse nuclear. Enquanto isso, escreve sobre música e, nas horas livres, trabalha como técnica de som na Reptilia Produções, produtora que tem com os amigos.

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