quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Nada Pop

O independente e seus novos produtores

Imagine que você tenha uma banda independente (se você já tem uma banda, nem precisa imaginar). Agora, pense nos ensaios, na dedicação que você precisa dispor para compor e, em seguida, na busca por um espaço para tocar, no público para se conectar com a sua arte, na realização de um bom show e, consequentemente, na divulgação do seu trabalho pela web e por meio de formas físicas (CDs, flyers, cartazes).

Imaginou?

Agora se imagine como proprietário ou sócio de uma produtora independente, sendo responsável por produzir artistas, divulgar seus trabalhos e ainda realizar eventos que possam conectar pessoas com a arte dessas bandas/artistas.

Achou fácil?

Eron Falbo - Capa

O independente não é fácil, mesmo assim o sonho e a vontade de algumas pessoas é mais forte, não só das bandas, mas de produtoras que se dedicam a contribuir com o cenário musical alternativo (seja ele de qualquer canto do país).

Por isso vamos conversar com o agitador cultural Eron Falbo, idealizador da produtora Plectro, em atividade desde o início do ano em São Paulo e que pretende desenvolver várias frentes, descobrindo e produzindo novos artistas, orientando suas carreiras, gravando seus trabalhos musicais, divulgando-os junto à mídia e realizando eventos em bares e casas noturnas onde o público possa tomar contato ao vivo com a obra desses novos artistas.

Leia nossa entrevista abaixo.

NADA POP – Eron, antes de conversar sobre a produtora Plectro, gostaria que você dissesse um pouco da sua experiência com o cenário independente. Você morou um bom tempo nos Estados Unidos e na Europa, gravou até um álbum produzido pelo Bob Johnston (que produziu algumas das principais obras lançadas por Bob Dylan nos anos 60’). Mas afinal, como tudo começou?

ERON FALBO – Na real comecei como agitador cultural, só virei músico por que queria organizar festas com bandas que tocam um certo tipo de som e não existiam em Brasilia, onde morava. Daí comecei a ensaiar eu mesmo com uns amigos e aprender a cantar. A primeira vez que organizei alguma coisa foi no Primeiro Festival Senhor F em Brasília, que tocou Faichecleres, Bide ou Balde e Forgotten Boys (dos que eu lembro).

Participei da organização, eu meio que era office boy, mas também fui um ‘artist liaison’ por acidente, pois levei os astros pra sair e curti umas festinhas com eles no hotel (hehe). Aprendi muito com o mestre Fernando Rosa. Ele foi responsável pelo meu primeiro contato intensivo com a fonte da música que é os anos 60. Até eu conhecer a coleção de CDs e Vinis dele eu parava nos Beatles e no Velvet Underground. Depois disso comecei a organizar as minhas próprias coisas com o selo ‘Capital Mods’.

Organizei várias festinhas desde meus 17 anos até os 23. Finalmente minha banda foi tendo cada vez mais sucesso e não valia a pena mais organizar festas pois ganhava bem menos do que com os cachês da banda. Resolvi me mudar para Londres para tentar carreira internacional. Daí aconteceu o que se pode ler em outras entrevistas. A razão que voltei é que o que gosto mesmo de fazer é produzir. É claro que agora eu sei bem mais né, cresci muito na Inglaterra. Foram cinco anos lá trabalhando como produtor, editor de revista, assessor de imprensa e diretor de eventos na New Untouchables.

Eron Falbo

Eron Falbo, da produtora Plectro

NADA POP – Em uma outra entrevista, você considerou satisfatória a divulgação do seu álbum “73”, calcado em blues e folk sessentista, lançado fora do país. Mas houve um certo problema envolvendo seu trabalho com a Pisces Records. O que houve e como isso contribuiu para o início da produtora Plectro?

ERON FALBO – Eu não sou o único que reclamou do Ulysses Christianini, auto-entitulado CEO da Pisces Records. É só colocar o nome dele no Google que é fácil achar como ele já passou muita gente pra trás, sem contar se mencionar o nome dele na cena.

Infelizmente, eu morava na Inglaterra quando o conheci e optei por trabalhar com ele porque tive uma experiência negativa com a Universal Music e queria ter mais controle trabalhando com uma independente. Por morar fora não sabia da total falta de credibilidade dele. Fui vítima de uma doença muito grave que rola na industria fonográfica e que tento com todas as minhas forças combater, isto é, trambiqueiros com alma de contrabandeador barato que se aproveitam de jovens com sonhos para ganhar um trocado furado. Além de ser ilegal o que ele faz, é de muita baixa classe e é burrice. Pois mais cedo ou mais tarde as pessoas descobrem e te boicotam.

De qualquer forma, eu desejo o melhor pra Pisces e espero que aprendam com os erros. Mas, antes que fique bem claro que a onça mudou totalmente as manchas, encorajo todos a continuarem o boicote e ajudarem a divulgar as trapaças que já ocorreram. A minha foi só um exemplo. Vim com um disco lendário produzido pelo Bob Johnston e que saiu em vários jornais e revistas e até hoje não ví um centavo das vendas e nunca saiu nas lojas, apesar de ter pagado 50% da prensagem adiantado. Perdi milhares de reais em assessoria de imprensa, ingressos de shows, venda de discos e outras coisas que não posso nem calcular. Como isso contribuiu pela Plectro? Bom, podem saber que a Plectro jamais vai se aproveitar de artistas. Pelo contrário, vamos dar as ferramentas para que esse tipo de coisa nunca aconteça com os nossos. A Pisces serviu como incentivo para sermos muito firmes, profissionais e éticos.

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Festa Momento 60 – A gig acontece neste sábado, confira mais detalhes clicando AQUI.

NADA POP – Sobre a Plectro, qual será o trabalho principal da produtora e quais os seus objetivos em relação ao futuro? Sendo direto, como a Plectro poderá fomentar o cenário independente e até se tornar referência para os artistas e o público?

ERON FALBO – Nosso trabalho principal é de respiração boca-a-boca do rock paulistano. Estamos produzindo bandas e eventos novos. Nosso diferencial é que a nossa equipe é composta de especialistas do rock e e quase ativistas do underground. Somos muito sérios e profissionais. O que eu trago é o que estudei e aprendi na prática na Inglaterra. Como todos sabem lá o rock é tipo axé music aqui. Então, queremos fazer o rock tão grande quanto, tão glamuroso quanto aos olhos do povo brasileiro. Para isso vamos tratar a cena alternativa como um tesouro e vamos levar a sério como um negócio milionário. Torçam por nós!

NADA POP – Como é a estrutura da Plectro, você é único proprietário, existem sócios ou colaboradores, onde está localizada a produtora e onde serão realizados os eventos de vocês?

ERON FALBO – Temos um escritório na Santa Cecília, em São Paulo. Somos três sócios no momento, e temos uns 20 colaboradores. Estamos investindo, todos acreditamos que o que fazemos ninguém mais faz e por isso é só uma questão de persistência, resiliência e perseverança. Mas, umas mensagens de apoio no Facebook não atrapalham em nada. A força dos ilustres consumidores da música revolucionária nos alimenta diariamente.

NADA POP – Sobre os shows que vocês estão organizando, nos descreva como serão as festas, as datas e como as bandas podem entrar em contato para participar dos próximos eventos de vocês ou até mandar material.

ERON FALBO – Nos consideramos classicistas do mundo pop, uma versão pós moderna da renascença. Preferimos shows com identidade clara. Pretendemos organizar shows e festas Mod, Rockabilly, Glam e Hard Rock, Tropicália, Jazz e Blues Tradicional e quaisquer arquétipos esquecidos que possam passar pelo nosso radar. Além disso tudo o que for pelo bem da expansão cultural do mundo alternativo, open-mics, competições, processos seletivos – isso através do nosso programa de incentivo socio-cultural que se chama ‘Gênesis de Gênios’. Sábado agora (09/05), temos a Festa Momento 60, um evento super autêntico curado pelo DJ Mauro Lima. Na quarta-feira (13/05), o Palco Aberto da “Gênesis de Gênios”, que dá espaço para talentos de São Paulo mostrarem seus trabalhos.

O que mais aconselho é VIREM NOSSOS AMIGOS. Venham falar com a gente, não custa nada respondermos as suas perguntas. Não somos arrogantes e não fingimos ter o que não temos. Se pudermos ajudar ajudaremos, se não pudermos no mínimo apontaremos a direção certa. Para isso, entre no radar, venha para os eventos, ENCHA O SACO. Uma hora alguém vai prestar atenção se você falar alto o bastante. Posso dar nosso e-mail que é facilmente encontrado no nosso site, mas isso é muito passivo, mandar um e-mail. Tomem as rédeas de sua voz única, profunda e misteriosa. Montem no corcel do destino que não respeita freios.

“80% do sucesso é comparecer” – Woody Allen

Anne Caufield

Anne Caufield & Sua Banda, no último palco aberto do evento Gênesis de Gênios, na Sensorial Discos, que rolou no dia 15/4. Foto por Bruna Ruiz.

NADA POP – Vamos disponibilizar os endereços virtuais de vocês logo abaixo da entrevista, mas gostaria que você deixasse uma mensagem para todas as pessoas que pensam nas dificuldades e muitas vezes não segue os seus sonhos (momento autoajuda do Nada Pop – rs).

ERON FALBO – Poxa, essa é a melhor parte da entrevista e agora não estou mais com tempo para me prolongar o tanto que a pergunta merece. Vou tentar ser sucinto. Dificuldades servem para certificarem que aqueles que não são artistas verdadeiros não percam o tempo do público com suas indecisões medíocres.

Os que são artistas verdadeiros não vêem dificuldades, vêem oportunidades de aperfeiçoamento. Pois eles não tem escolha a não ser ser artista. Lembrem-se que um poema nunca é completo, mas uma hora tem que ser abandonado. O que o Paul Valery quis dizer com isso é que para lançar alguma coisa não precisamos chegar ao ideal impossível. Temos que abandonar nossas inseguranças, abrir mão da vaidade e entregar aquela fase de nossa vida criativa pro público, passar pra frente – nunca foi sua. Até por que a próxima obra será ainda melhor.

Lembrem-se que estamos sempre nos tornando, e nunca somos nada. Não se identifique com produtos limitados, não se leve a sério. Leve a Arte a sério, leve a Humanidade a sério. É melhor ser digno do que ser artista, então não seja artista se significa se vender à seu próprio limitado senso de sucesso financeiro. Sirva o eixo intocável da genialidade eterna, o caminho onde é carregado a tocha que vai educar seus bisnetos. Pense daqui a mil anos, se o que você está fazendo agora ainda será relevante. Se não for, assuma isso, rebole e tente ganhar um trocado enquanto ainda é jovem. Tem público pra tudo.

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Visite o site da produtora Plectro: http://www.plectro.com.br/.

Curta a página da Plectro no Facebook: http://www.fb/produtoraplectro/.

Entrevista do Eron Falbo para o blog Zap’n’roll: http://www.zapnroll.com.br/?p=4566

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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