terça-feira, 14 de agosto de 2018
Nada Pop

O cenário punk/ hardcore sempre viveu uma crise. Hoje parece pior

Uma coisa precisa ser dita, o Brasil é praticamente o mesmo desde que foi descoberto em 1500. A história da América Latina é muito complicada para explicar com poucas palavras, melhor começar com o medo do comunismo após a Segunda Guerra, quando a Alemanha foi dividida em dois países e sobre a influência americana instaurando ditadores como presidentes por todo o continente.

Após anos de lavagem cerebral, as pessoas começaram a votar, isso em 1986 quando o regime militar não existia mais, porém, as eleições não valiam de nada porque eles colocaram quem eles queriam mais uma vez no poder.

Através dos anos nosso governo fez o de melhor ao chupar as bolas dos americanos, nosso governo fodeu com as escolas, sistema de saúde, calou a boca da livre imprensa e deu de presente todo o controle da informação a apenas um homem, Sr. Roberto Marinho, da Globo.

Você pode perceber o quão fodido pode ser quando apenas um conglomerado controla toda a informação, eles têm o poder de colocar quem eles querem no comando, do jeito que querem e quando querem. Se você passar a vida toda com apenas uma fonte lhe dizendo apenas uma verdade, em quem você irá acreditar?

Massiva parte da população foi votar pela primeira vez, e pela segunda…

Muitos políticos vão a público dizer que eles são a nova geração contra a corrupção e toda aquela baboseira política de sempre, na manhã seguinte você pode ver os mesmos ganhando uma bolada em grana de grandes corporações.

Quando Lula entrou no poder e seus programas sociais realmente deram algum resultado para pessoas que não tinham água potável, comida ou eletricidade, os conservadores e também a classe média começaram a reclamar e espalhar aos prantos “nós somos o povo que pagam as taxas e estamos dando nosso suado dinheiro para vagabundos” eu infelizmente percebi o quão racistas e fodidos nós nos tornamos.

Preciso dizer que o pobre virou classe média e começou a odiar pessoas pobres.

Não é fácil dizer de onde eu venho, porque eu sinto muita vergonha disso.

Creio que vocês acompanharam as notícias sobre o golpe contra a presidenta Dilma, que não possui até então nada provado em sua carreira como corrupta, sendo deposta por uma corja de políticos que tem o nome mais sujo que pau de galinheiro.

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O artigo do André Alves foi publicado originalmente na revista Ox Fanzine, da Alemanha. Capa da revista e foto da matéria pelo próprio André.

No poder, agora, temos um novo presidente, que não passa de um saco amarrado de merda, um corrupto filho da puta e declarado bem como o presidente do congresso envolvido em mais de 10 casos de corrupção, favorecimento e lavagem de dinheiro, etc. etc. etc. No congresso, temos também centenas de evangélicos (igrejas milionárias que não pagam um centavo de impostos), bem como um cara chamado Jair Bolsonaro, que é pro militarismo e com predileções nazistas e tem milhares de pessoas aplaudindo ele.

EUA, bem, não disseram nada, TV Globo irá continuar no poder da informação por anos ainda desde que nosso novo governo dê o nosso recém-petróleo descoberto, uma das maiores reservas do mundo, de mão beijada para os yankees.

Bem, claro que há uma crise aqui econômica e política.

Punk rock não foi afetado por essa crise, creio que sempre foi uma cena falida de qualquer forma, basicamente igual desde que começou sem muitos lugares para se tocar, sem muita grana em volta.

Punk, metal, hardcore não é a música mais difundida aqui, é bem underground. Não estamos nas TVs ou nas rádios, brasileiros em suma, preferem o samba, funk carioca ou sertanejo.

Desde que a internet se transformou na maior ferramenta para novas e antigas bandas, ela também criou um mundo novo do entretenimento em casa, pessoas não vão mais aos shows como antigamente. Muitas pessoas dizem que não tem grana para entrar em um show, porém tem grana pra dar uma chapada na frente do pico e nunca tem grana pra pagar o ingresso (?). Muitas pessoas pagam R$ 500 para ver bandas como Black Sabbath (sendo que um salário mínimo é de 800 pilas, então R$ 500 é bem fora da realidade).

A cena basicamente não existe mais, anos atrás tivemos a praga do Emo no qual fechou as portas para quase todas as vertentes de punk rock, no hardcore agora temos uma situação bem diferente para lidar.

Muitas bandas aqui que foram bem grandes no passado, e custeavam os gastos de suas famílias com o dinheiro feito na musica, começaram a se separar e seus membros com suas tatuagens no pescoço começaram a procurar empregos formais para pagar as contas.

Na outra vertente, a MPB também passa por uma crise, não existem muitas casas de shows com a estrutura necessária, sendo que 70% do dinheiro vêm de fundos de cultura ou da indústria e nosso querido novo presidente teve a brilhante ideia de fechar o Ministério da Cultura. Eu trabalho com um artista desse tipo, costumávamos ter 10 shows por mês, agora quando tem um já estamos celebrando.

Eu convidei algumas pessoas para dar um depoimento sobre isso, uma delas é a Erica, empresária do Ratos de Porão, a maior banda por aqui, 35 anos detonando pelo mundo afora.

Erica diz: “O Mercado independente aqui é conectado com a economia do país, temos um grande nível de desempregados, preços altos de comida, eletricidade, água, salários baixos, primeira coisa que você corta é a grana para entretenimento. Se você paga R$ 30 por uma entrada, você também tem que pagar por gasolina, estacionamento, dirigir ate o local, faz com que as pessoas fiquem mais em casa, também o alto preço do transporte para levar o artista e equipe, tem que esperar por promoções aéreas, temos que voar aqui, o país é muito grande. Muitas casas de shows estão quebradas, poucas pessoas nos shows, altos custos para fazer tudo funcionar, esperamos pelo melhor agora ou achamos uma forma de mudar tudo isso”.

Marco Badin, mais conhecido como Alemão, é o dono de uma das mais tradicionais casas DIY em São Paulo (Hangar 110). “Sempre vivemos em crise aqui, tivemos alguma luz no fim do túnel anos atrás, porém sempre estamos em crise, sem ninguém para nos proteger, sem nenhuma ajuda do governo, estamos sempre em alerta para lutar”, diz.

Rock não é a musica principal do país, sempre foi difícil mesmo nos anos bons. O numero de shows caiu consideravelmente, bandas e público, é a consequência de mais de 11 milhões de desempregados, a cena e o Hangar 110 vivem em tempos obscuros.

Phil, do CPM22, diz que “infelizmente, a cultura é considerada supérfluo, hoje as pessoas guardam dinheiro pra pagar as contas, shows tem poucos pessoas e a agenda tem caído consideravelmente”.

Eu penso que de alguma forma estamos fazendo e encontrando novos caminhos para manter a cena, bandas tocam em lugares menores com preços mais baratos de ingresso, negociando cachês, fazendo acontecer.

Statue on Fire, por exemplo, tínhamos o nome Nitrominds por trás, poderia ter sido uma boa coisa, porém as pessoas cagam pra isso, tocamos menos por aqui, porem procuramos outros mercados como Europa e EUA para espalhar nossa música.

Só nos resta esperar pelo melhor.

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Publicado originalmente na revista Ox Fanzine, da Alemanha, em outubro de 2016.

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Sobre o autor

Andre Alves

Andre Alves é guitarrista e vocalista da Statues on Fire e ex-integrante da lendária banda Nitrominds.

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