terça-feira, 14 de agosto de 2018
Nada Pop

NTE apresenta um pacote turístico censurado de Natal com “Anatomia da Cidade”

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Capa do álbum “Anatomia da Cidade”, da banda N.T.E.

Necessário. Essa é a palavra mais adequada para descrever ‘Anatomia da Cidade’, segundo trabalho oficial dos potiguares do N.T.E.

Desde a época das capitanias hereditárias que não se vê por essas terras um conjunto de letras desse calibre e dessa precisão. Acredite, você precisa ouvir!

É simplesmente impressionante. Nas 20 faixas, quase todas com nomes imensos e que não deixam espaço para dúvidas quanto ao seu teor, não existe uma só palavra vagando à toa. Se pudesse traduzir em imagem, seria algo como a sociedade e os seres humanos que a compõe, assim como suas angustias, comportamentos, crenças e estupidez, tudo espalhado sob uma grande lente, com suas vísceras expostas, seus pensamentos salpicados em notas ensanguentadas e sua verdade escancarada.

Ainda quer conhecer a história não contada da cidade do Natal? Esqueça os pacotes turísticos, as paisagens e praias, ‘all included’ resorts, hotéis luxuosos e passeios de buggy pelas dunas. Esqueça a versão censurada e meio Matrix, engula sua pílula vermelha e mergulhe de cabeça na realidade. Através das letras dos caras você vai conhecer a Natal dos moradores, de quem enfrenta as dificuldades que todo centro urbano apresenta. Que conhece a injustiça e o sofrimento de perto. Tão de perto que fechar os olhos já não basta pra não enxergar.

O som é um punk/hardcore cheio de influências e sabores. Competente, agressivo, portador mais que perfeito pra todo o estrago que esse conjunto de canções fará ao cruzar as tênues linhas entre seu ouvido e sua mente. Difícil destacar uma única faixa em uma sequencia que parece escolhida a dedo, tal qual um roteiro turístico. ‘Sempre haverá’ acorda o gigante furioso dentro de ti, enquanto ‘A tristeza por trás do meu sorriso’ hipnotiza com um flanger maroto. Dá até uma saudade de álbuns clássicos dos Titãs em ‘Me diga quem é você daqui a dez anos’. Mas não vai ter jeito, na segunda audição você já vai estar cantando todas as músicas.

Clipe da música “O Poder do Dinheiro”, do álbum anterior ao “Anatomia da Cidade”.

Ora diretos e sem a menor frescura, em outras de uma elegância surpreendente, os arranjos tornam ainda mais saborosa a degustação da bolachinha. A excelente gravação e a ótima dicção dos vocais colaboram de forma fundamental com a proposta da banda, que é levar a mensagem e garantir que ela seja compreendida. Se será entendida já não é responsabilidade dos caras.

‘Frontier’ surpreende e traz nos vocais o baixista Eduardo. Um agrado a mais para ouvidos que não se importam em sangrar mais um pouco por algo que valha a pena.

A produção é um show à parte. Da ilustração da capa, feita pelo artista Jansen Baracho ao design e arte final de Nem Todo Tosco, o que se vê é um trabalho muito inspirado e cuidadoso, característica constante nos lançamentos do selo Microfonia, em uma embalagem digipack classuda.

Não perca mais tempo. Corra atrás da ‘Anatomia da cidade’ e veja se algo lhe soa familiar. Se aquelas situações e personagens lhe são reais ou apenas um sonho. E principalmente, se você prefere acordar ou continuar sonhando. Nem Todos Esquecem.

N.T.E.(Nem Todos Esquecem) é: Alexandre (vocal), Eduardo (baixo), Marquinhos (guitarra) e Tadeu (bateria).

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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