quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Miscelânea: sobre a vontade original de ter uma banda

Quem é músico independente deve se lembrar do exato momento em que a ideia irreversível de montar uma banda lhe tomou a cabeça. Esse estopim geralmente é causado por uma música, um disco, um show. É uma vontade inexplicável de querer ser como aquele artista que acabara de explodir a sua cabeça com um riff, uma frase ou uma postura que você nunca tinha visto antes. Um comportamento normal para adolescentes que enxergavam na música – em nosso caso, no rock e suas vertentes – o grande exemplo de subversão, agressividade e afirmação das nossas frágeis personalidades juvenis. Depois do estalo inicial vem a sede por novas descobertas musicais, o aprendizado dos instrumentos, a interação com amigos e, após algum tempo, a banda.

Com 16 anos a sua banda é só vontade. Você não sabe o que quer dizer, onde quer chegar. Você quer é ouvir e tocar o dia inteiro, todos os dias. Afinal, você tem uma banda, cara! Você se mete em botecos, motoclubes, casetas de show exploradoras, chama primo, amigo, tio, mãe. Ninguém vai, mas você continua lá, achando aquilo um máximo. E é!

Seus instrumentos são um porcaria, você não tem dinheiro pra pegar o ônibus; maria mole, bomberinho e pinga com limão são seus maiores luxos. Resumindo: nada parece ser vantajoso, nada é legal como você tinha visto na emetivi quando teve a grande ideia de ter uma banda. Mas você continua amando aquilo.

Há um tom biográfico nessa minha tentativa de explicar o momento pré-banda. Mas tenho o álibi de já ter ouvido histórias muito parecidas de diversas pessoas. Tenho a sorte de andar com verdadeiros apaixonados por música e a origem dessa relação acaba sendo bem parecida. É a música como causa pra gerar mais música como efeito.

Me acusam de ser romântico. Levo como um elogio. Hoje, mais velho, vejo a música com tanto ou maior paixão com que a descobri. Seu poder de transformação é tão incrível que me faz pensar ser ela algo quase autônomo. Que intercede em nossos humores só pelo fato de existir. Sim, sou romântico porque concordo com a valorização das motivações poéticas do ideário romântico.

Acredito que para fazer música é preciso amá-la. Essa deve ser a principal motivação de qualquer músico independente. Porque aqui embaixo essa é a única recompensa garantida. Dinheiro, fama e reconhecimento podem até rolar. Mas são distribuídos para um ou outro sortudo e uma pequena parcela de insistentes, merecedores e inveterados.

Por isso vejo com desconfiança e uma ponta de tristeza quando bandas colocam qualquer coisa na frente da música. Figurinos, superproduções, redes sociais, resenhas, performances, tudo isso precisa trabalhar para a música e não apesar dela. Acho incrível ter todas essas possibilidades hoje. Já que era difícil pensar em gravar um mísero videoclipe há 15 anos atrás. Agora temos acesso a conhecimentos, repertório e equipamentos que nos permitem apresentar a música de um jeito muito mais sério e atrativo. Por outro lado também há um público com muito mais opções, e por isso, mais criterioso. Podemos e devemos explorar essas possibilidades. Contudo, não se pode perder aquela motivação inicial de ter uma banda para simplesmente tocar. É essa vontade que eu espero ver num show, captar num disco, numa letra. E creio que o público do cenário independente também anseie por isso. Do contrário ele buscaria pelo mainstream, onde há opções plastificadas, porém competentes para acompanhar.

Se a música é a principal motivação, o resto é consequência. É através da sinceridade do artista que o público enxerga a originalidade, a aura da música. A eterna briga entre aparência e essência, claro, tem seu lugar no universo subterrâneo. Resta aos produtores e consumidores do material artístico identificar o que se quer valorizar. A escolha é livre, mas como dizem e eu confirmo, sou romântico. À música tudo, aos seus inimigos o ostracismo!

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Sobre o autor

Diogo Dias

Músico, agitador cultural, leitor e escriba. É guitarrista e vocalista da banda Vapor, um dos organizadores do projeto Rock Ex Machina e colaborador do selo Howlin’ Records. Por enquanto.