quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Miscelânea: hoje, a rebeldia é pensar

A música sempre acompanhou as jovens gerações em seus dilemas existenciais. Seja como forma de exorcizar seus demônios, seja como uma tentativa de autoafirmação na sociedade ou como questionamento e transgressão. Muitas vezes as sete notas se encarregam de tudo isso junto e ao mesmo tempo. No rock, especificamente, é possível traçar um paralelo muito claro entre as diversas culturas criadas por ele em forma de subgêneros e o contexto social e político de cada uma de suas fases e lugares.

A gente poderia falar disso durante anos. Analisar o conteúdo das letras, o comportamento, o discurso, o lugar e a época do rock inteiro é impossível para uma vida só. Tem gente que estuda o surgimento do Blues em Nova Orleans no início da década de 40, tem gente que estuda o punk paulistano da década de 80, tem gente que estuda a obra de uma única banda… E assim vai. Rotular o rock todo como uma unidade é além de impossível, uma irresponsabilidade. A história é muito rica e com incontáveis registros. Mas! Há traços em comum entre as cenas de cada subgênero que não podemos ignorar.

Um em especial me chama a atenção.

O rock surge como uma válvula de escape rebelde em uma sociedade extremamente conservadora. Nos Estados Unidos dos anos 50, Chuck Berry foi um dos primeiro a juntar plateias pretas e brancas irrompendo uma linha divisória que não é fácil de ser superada por lá até hoje. Nos anos 60, Jimi Hendrix, Janis Joplin e companhia rasgaram a cartilha do falso moralismo com a onda hippie que pregava a liberdade sexual e o pacifismo em plena guerra fria. Nos 70 vieram Sex Pistols, The Clash e Dead Kennedys cuspindo com suas músicas nas figuras até então intocáveis das autoridades. E assim por diante, o rock e suas vertentes são sempre uma alternativa para denunciar a hipocrisia da sociedade.

Porém, em algum momento misterioso da história algo começa a se perder. O engajamento com as grandes questões que a sociedade impõe diminui e vai dando lugar a algo mais raso, mais superficial. De repente o mais importante não é o que os caras estão dizendo. É como eu devo me comportar, me vestir, me expressar para participar de determinada tribo. A rebeldia tornou-se apenas uma questão de aparência. “Se você não parece rebelde, você não é dos nossos” – por mais rebelde que você possa ser.

Com isso, regras e mais regras começaram a surgir em várias cenas com a única função de se fechar em si mesma. Alguns subgêneros desenvolveram verdadeiros sistemas opressivos onde determinados temas são proibidos e criando terreno fértil para o aparecimento de preconceitos de toda espécie: como a misoginia, o machismo, a homofobia e o racismo. Não que tudo isso não existisse antes, mas ora, o rock não nascera exatamente para ir contra esses valores reacionários?

Como música ele jamais morreu. Mas como expressão cultural creio que está doente. É preciso medicá-lo com doses cavalares de consciência. Precisamos nos questionar diariamente se não estamos reproduzindo discursos ultrapassados com a desculpa de que o “rock é assim”, “o hardcore é assado”, “no metal é assim que funciona”. Hoje, precisamos incluir mais gente, derrubar as regras, chutar as convenções. A rebeldia não é mais sexo, drogas e rock’n’roll. Rebeldia agora é pensar.

E eu não me surpreenderia, se alguém depois de ler esse texto dissesse: “Mas quem é esse moleque falando de rock?”.

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Sobre o autor

Diogo Dias

Músico, agitador cultural, leitor e escriba. É guitarrista e vocalista da banda Vapor, um dos organizadores do projeto Rock Ex Machina e colaborador do selo Howlin’ Records. Por enquanto.