quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Nada Pop

Miscelânea: afinal, contra quem estamos?

As ruas do país estão em uma efervecência política impossível de ser ignorada. Ou pelo menos as ruas das capitais. Após um longo processo que culminou no golpe aplicado pelos parlamentares com a ajuda descarada da imprensa hegemônica e apoio massivo da parcela mais abastada da sociedade, nos vemos em um momento chave. Em um embate que, ao contrário do que pensam uns, é constante e interminável.

E o que nós, produtores culturais, músicos, escritores, poetas, artistas e público consumidor de cultura temos a ver com isso? Ora, tudo!

A disputa política é algo muito além do que uma disputa institucionalizada pelo poder. Ela invade quase todos os campos da vida pós-moderna, essa em que nós vivemos. Um dos fatores mais importantes em jogo é o discursivo. Dominar o discurso é essencial para o sucesso da implementação de um projeto, de uma ação política ou de um sistema de governo. As pessoas precisam acreditar naquilo que ouvem, e acreditando repetem e espalham o discurso comprado. O poder discursivo serve para legitimar os atos, mas também para distorcer os fatos.

O que vemos ultimamente é uma crença cega no discurso. Um desprendimento irracional da realidade. Isso se deve muito pela inflamação provocada pela situação toda. No calor das discussões, às vezes, caímos na ilusão de que vencer o adversário é mais importante do que debater com honestidade. E ao reproduzir discursos sem antes avaliá-los adotamos a mesma prática do mais raso dos bolsominion – se é que é possível haver algum que sequer atinja o nível da mediocridade. Avaliar o discurso é pensar se aquilo que ouvimos e dizemos está minimamente de acordo com os fatos. Para isso precisamos buscar diferentes fontes, ouvir diferentes opiniões, ruminar as informações.

Dentro do meio cultural é mais comum que ideologias libertárias e progressistas tenham maior trânsito. Mas, como quaisquer ideologias, elas possuem diferenças. Há pontos que não convergem e isso faz com que suas estratégias e táticas discursivas e de ação política também não sejam as mesmas. Contudo, muitos valores e causas são compartilhadas entre as diferentes correntes. Nada de novo, nada de errado. Até o ponto em que essas diferenças passam a não ser aceitas. Ou pior, ridicularizadas. Acho que todo mundo já viu algo que ilustre essas provocações nas timelines da vida. O problema é que muitas dessas correntes têm falhas graves de interpretação, dados distorcidos, informações desencontradas, fora de contexto. Muitos memes “políticos” acabam servindo apenas para massagear nosso ego com uma falsa certeza de que estamos certos e que outro é um completo imbecil. Agora eu pergunto: Se nós que temos acesso à produção e consumo de cultura, conhecimento e educação, somos agentes transformadores, não conseguimos respirar fundo e debater com qualidade e honestidade, o que poderemos cobrar dos outros?

A diversidade é uma das maiores bandeiras de quem faz e ama arte. É nela que a criatividade tem o seu espaço para se desenvolver. No momento em que corremos o enorme risco de um regime cada vez mais repressivo e autoritário re-introduzir a censura, a perseguição política e o ódio, precisamos aproximar discurso e realidade para que possamos identificar os nossos reais inimigos. No fundo a gente sabe onde eles estão. Avante!

Passeata – Cólera

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Sobre o autor

Diogo Dias

Músico, agitador cultural, leitor e escriba. É guitarrista e vocalista da banda Vapor, um dos organizadores do projeto Rock Ex Machina e colaborador do selo Howlin’ Records. Por enquanto.