sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Nada Pop

May Dantas: “punk rock não é só pro seu namorado”

Sem meio termo e nenhuma preocupação em mandar todo o público de seu show para onde bem entende, constatei que May Dantas é a personificação do que ela acredita: a atitude genuína do rock, a esculhambação dos rótulos e a contraposição à postura feminina omissa e contida que a sociedade privilegia. Assim, não foi por acaso que escolhi o título acima para introduzir esta entrevista. O refrão da música do Bulimia – extinta banda ícone do movimento Riot Grrrl – é um hino da luta contra o conformismo perante o machismo e tem papel fundamental na formação da May, como ela conta AQUI.

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May Dantas – Foto por Fernanda Gamarano

É com esse tipo de bagagem musical, presença intrigante e vocal rasgado que ela “lidera” o The Fingerprints, banda nascida em 2014, no ABC Paulista, influenciada pelo punk clássico e pelo grunge sujo dos anos 90, evidentes na sonoridade, na atmosfera das apresentações e na atitude do grupo. Mesmo em hiato de tempo indefinido, o álbum ao vivo permite ter uma noção dessa energia única, disponível no Bandcamp.

Por fim, eu poderia discorrer muito mais sobre essa pessoa – sem puxa-saquismo nenhum, porque não preciso disso – ou contar como fiquei aliviada quando soube que as entrevistas seriam publicadas na íntegra. Porém, deixo a May falar por si só e mandar alguns socos no estômago em forma de entrevista logo abaixo:

NADA POP – Como é a sua história com a música? E com o rock?

MAY DANTAS – Eu comecei relativamente cedo, por volta dos 4 ou 5 anos. Meu pai, que não era roqueiro assumido nem nada, sempre que ia ouvir música, colocava uma banda com vocal feminino. O que mais tocava no carro era Suzi Quatro. Acho que isso acabou me influenciando de uma forma ou de outra (mesmo eu só descobrindo anos depois! Haha). Me lembro em 99, quando lançou o álbum “Só no forevis”, do Raimundos, que teve aquele “BUM!” na escola. Todas as crianças de todas as séries só cantavam “Mulher de Fases” ou “Me lambe” em toda excursão ou toda vez que alguém tinha acesso a um violão (a próxima canção era sempre o expurgo de “Eduardo e Monica”. Se fudê, porra!). Tenho esse momento como aquele em que descobri que tinha um gosto musical.

Nessa mesma época também, ouvi pela primeira vez o Nevermind, do Nirvana. Aí já era, fiquei doente! Criei um fanatismo doentio, tipo fã de Backstreet Boys, e tudo que eu queria era ser o Kurt Cobain! Haha. Eu tinha 10 anos quando comecei a tocar guitarra (a fim de copiar meu maior ídolo). Alguns amigos meus ouviam muito Holly Tree e Garotos Podres. Com 12 anos, eu fui na onda e comecei a ir em shows no Volkana, conheci a Livia e a Thaisa e montei minha primeira banda chamada “Punkats” (GARGALHADA FATAL!). Raspei meu moicano e virei do mal. A banda não deu tão certo, mas pouco tempo depois, em 2004, eu e a Livia (pessoa que melhor toca bateria de todo mundo que eu conheço) montamos uma nova banda, agora chamada Dirty Cats, que contava com a Thelma Cleto no baixo. Fizemos uns shows bem legais, mas gravar na época era bem difícil, então o máximo que eu tenho de memórias dessa doce adolescência é um vídeo de 30 segundos no YouTube (assista abaixo).

NADA POP – Qual é, quais são ou quais foram suas bandas? Há algum projeto paralelo, mesmo que não seja referente à música, que você gostaria de destacar?

MAY DANTAS – A banda da minha vida é o The Fingerprints. É a mais legal, com os meus melhores amigos, com os sons que eu mais tive prazer de criar. Eu e o Guilherme, do Troublemaker, estamos com um projeto duo, no qual saio da guitarra e vou pra bateria. Não tem nome ainda, mas a gente já tá trabalhando em alguns sons, vai ficar uma merda! E essa pra mim é a arte.

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May Dantas – Foto por Fernanda Gamarano

NADA POP – Como você enxerga o cenário underground de forma geral? Como ele funciona?

MAY DANTAS – Na real?! O cenário underground tá uma merda progressiva. Todo mundo tá voltando a ter banda, só que em vez de se unir e realmente se ajudar, tudo virou só uma puta lambança de saco! São poucas as bandas que eu não vejo fazer isso. É FEIO GENTE, PAREM! Um querendo subir em cima do outro, tudo com um interesse por trás e não por que realmente parou pra ouvir a banda do amiguinho e achou boa. É como se a música não fosse mais importante e sim o status que ela vai te trazer. Quem se dá melhor é quem tem mais contatos. Todo mundo quer ser da “turma legal” e se a sua banda não é da “turma legal” ninguém tá nem aí para o que você toca. É assim que funciona.

NADA POP – Falando nisso, o que vale pra conquistar um lugar no mainstream, ter sua banda reconhecida?

MAY DANTAS – Querer ser mainstream, querer tocar no Superstar, fazer tudo que é possível pra se aparecer e ficar puxando o saco desses pseudos rockstar falidos pra mim não é rock hahahahaha… E, sim, ser “artista”! Pra mim, tocar é aquele momento em que você pode mandar tudo o que te incomoda se foder mesmo… Mesmo que sua música seja ruim, mesmo que ninguém vá no seu show… E tudo o que você conquistar com isso será natural, porque as pessoas genuinamente irão gostar do que você faz, e não porque você paga de ser algo que não é.

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May Dantas – Foto por Marcelo Shina

NADA POP – E como você enxerga a cena como mulher? É diferente para a mulher tocar/cantar/se expressar? Você já sentiu alguma resistência? Já vivenciou ou já viu algum caso de abuso, preconceito, discriminação? Quais são suas impressões sobre o rock ser um meio dominado pelos homens? É natural? Falta mulher com talento? Há resistência?

MAY DANTAS – Eu me aproveito ao máximo do fato de ser mulher, isso abre um puta espaço! Não existe resistência, todo mundo quer ver uma banda que tem mulher. Querendo ou não, ainda é exótico, é atrativo! Nunca sofri nenhum problema com isso. Primeiro, porque eu não sou vítima! Já teve situações de o cara me chamar pra tocar com segundas intenções, mas ao contrário de me ofender, eu aproveitei o espaço pra tocar e promover minha banda. Quem fez papel de otário foi o cara! Haha. Segundo, porque o rock só é dominado pelos homens por que eles são um número maior. Quando adolescentes os moleques vão querer tocar ou andar de skate, enquanto muita menina prefere ficar fazendo teste da Capricho e falar do “crush”. Sei bem por que essa foi a minha adolescência. Se mais meninas tocassem, o rock seria nosso! Acabou!

NADA POP – Quais mulheres te inspiraram e te inspiram na música?

MAY DANTAS – Todas aquelas que tiveram uma atitude real e não montada! Aquelas que peitaram essa porra toda e, em vez de colocarem a imagem de boa moça, mandaram todo mundo pra puta que pariu! Runaways, Blondie, L7, Bikini Kill são todas minhas musas, deusas inspiradoras! Odeio assumir isso, mas minha maior inspiração mesmo é a Courtney Love. Sei que ela é uma escrota, mas é como se meu amor por ela perdoasse tudo sempre, nem eu consigo entender! Pra mim ela é incrível, toca mal pra caralho e tem uma voz podre, mas no meu coração ela sempre vai ser a maior.

The Spazzys, banda australiana só de minas, é uma das inspirações da May

NADA POP – Você pretende viver de música? Isso é possível ou é uma grande utopia?

MAY DANTAS – Eu vivo aquela fase na qual fui obrigada a virar adulta e deixar os meus grandes sonhos de lado. É possível?! É! Dá trabalho, leva tempo e dedicação. Dá grana?! Nem espere por isso se você tem banda no Brasil. Não espere que você, porque conhece o cara que trabalha na 89, o cara que trabalha no Terra, o cara que trabalha na Globo, vai conseguir viver disso com seis meses de banda. Ninguém quer pagar R$5 no seu EP ou R$20 na sua camiseta, ninguém quer nem pagar R$10 pelo seu show! Mas pagar a hora do ensaio, a corda que quebra, o aluguel de equipamento, camisetas e os caralho a quatro, vai ser você e sua banda! Quando os gastos são muito maiores que os lucros, acho que fica bem difícil fazer da música seu ganha pão, a não ser, claro, que você seja dono de estúdio ou de casa de show.

NADA POP – The Fingerprints volta?

MAY DANTAS – The Fingerprints nunca se separou! (O EP um dia sai! Sinto estar próximo, pra 2035).

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Sobre o autor

Bruna Neto

Jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo, feminista, orgulhosa por residir na cidade de Santo André e admiradora de toda a cena independente do ABC.

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