quarta-feira, 18 de julho de 2018
Nada Pop

Lucros da Tour da Pomplamoose em 2014

(ou a falta dele)

Explicação

No dia 24/11 foi publicado na internet um texto de Jack Conte, membro da banda Pomplamoose, dos EUA. Nele, ele explica e detalha os custos e receitas da última turnê que a banda realizou, além disso, apresenta argumentos interessantes sobre a vida de uma banda independente como a deles, levando em consideração toda a questão cultural que o país possui, claro. Leia com atenção e com certeza falaremos mais sobre alguns destes argumentos em novas matérias, aqui no Nada Pop. Sabemos que as comparações – econômicas, culturais, sociais, etc – são diferenças grandes, mas esperamos que o texto inspire você, da mesma forma que nos inspirou. Você poderá acessar a postagem original aqui: http://migre.me/n6R8w – Tradução do texto por  Tércio Testa, da Lomba Raivosa.

*Os valores são em dólares americanos. Se quiser ter uma ideia dos valores em reais, multiplique pela taxa de câmbio do dia.

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A Pomplamoose finalizou uma turnê de 28 dias. Fizemos 24 shows em 23 cidades pelos EUA. Foi sensacional: A Nataly surfou na plateia pela primeira vez, vedemos pouco menos de $100.000 em ingressos de shows e pudemos curtir com várias pessoas que amamos por um mês inteiro. Vendemos 1.129 ingressos no Fillmore, em San Francisco. Vou lembrar desta noite pelo resto de minha vida.

Uma pergunta que nossos fãs nos faziam com frequência era “como vocês se sentem por terem ‘chegado lá’ como uma banda”? Embora seja uma pergunta justa a se fazer para uma banda com centenas de milhares de visualizações no YouTube, o pensamento da Pomplamoose ter “chegado lá” é, para mim, ridículo.

Antes de escrever mais alguma coisa, é importante expressar que a Nataly e eu nos sentimos muito sortudos por podermos viver da música. Ter a oportunidade de sermos músicos de carreira é um sonho tornado realidade. Mas, a expressão “chegado lá” não descreve, necessariamente, a Pomplamoose. A Pomplamoose está “chegando lá.” E todos os dias, ralamos e ralamos para continuar “chegando lá”, mas com a mais absoluta certeza, ainda não “chegamos lá”.

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Nossa van e nosso trailer em frente ao nosso estúdio em North Bay.

Estar em uma banda independente é como gerenciar um pequeno negócio com uma minúscula margem de lucro e que, ao mesmo tempo, é recompensador e assustador. A fim de organizar e executar nossa turnê de Outono, nos preparamos por meses, analisando criteriosamente os riscos e os débitos antes de vendermos um ingresso sequer. Tivemos que alugar o set de luzes. E reservar os quartos em hotéis. E alugar uma van. E organizar a crew para a estrada. E comprar cases para nossos instrumentos. E alugar um trailer. E…

Tudo isto só foi possível através de um investimento de antemão feito por mim e pela Nataly. Não temos um “selo” nos emprestando um valor para “apoio na turnê”. Colocamos todo este investimento em nossos próprios cartões de crédito. Foram $17,000 em um cartão de crédito e $7,000 no outro, para ser mais específico. E então planejávamos (ou pelo menos esperávamos) conseguir este valor de volta com as vendas dos ingressos.

Sabíamos, também, que assim que puséssemos nossos pés na estrada, pagaríamos nossa banda e nossa crew diariamente. Uma semana de salário para quatro músicos e dois membros da crew (engenheiro de som e nosso tour manager) nos custaram $8,794. Ao final da tour, o valor foi de $43,974.

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A banda e a equipe que viajou conosco em nossa turnê Fall 2014.

Criamos o budget da turnê por nós mesmos e modelamos a receita projetada versus os gastos. Nós não temos experiência alguma com modelos financeiros, então fizemos o melhor possível. Com uma receita projetada de 6 dígitos, “o melhor possível” não era dos mais confortáveis.

A turnê acabou nos custando $147,802 desde sua produção até a execução. E de onde vieram todos estes gastos? Que bom que você perguntou:

GASTOS

$26,450
Despesas de produção: aluguel de equipamento, luzes, mesa de luz, aluguel da van, aluguel do trailer, cases para os instrumentos e backline.

$17,589
Hotéis e alimentação. Duas pessoas por quarto, 4 quartos por noite.
Hotéis do nivel Best Western, nada muito chique. 28 noites durante a turnê, mais uma semana de ensaios.

$11,816
Combustível, passagens de avião, estacionamento. Puta que pariu, estacionar uma van de 13 metros é muto caro.

$5,445
Seguro. Caso quebrássemos a cara de alguém ao pular na plateia.

$48,094
Salários e “per diems”. Os per diems são valores diários pagos para cada membro da banda e da crew para alimentação, enquanto estivermos fora. Pense em uma quantia pequena.

$21,945
Fabricação de merchandise, publicidade (um anúncio em uma rádio de San Francisco, anúncios no Facebook, anúncios em casas de shows específicas), acessórios e fretes.

$16,463
Comissões. Nossa fantástica agência de shows, a High Road Touring, leva uma comissão por agendar nossas turnês. Eles merecem cada centavo e mais: agendar uma turnê de quatro semanas é um trabalho enorme. A gerência da banda também leva uma comissão para sua folha de pagamento, manter nossas finanças em ordem e produzir o fantástico relatório que nos leva à esta análise. Nosso advogado, Kia Kamran, se recusou a receber sua comissão porque sabia o quanto os estava custando esta turnê. Kia é o cara.

Felizmente, a Pomplamoose acabou fazendo uma grana para cobrir alguns destes custos. Vamos dar uma olhada na receita advinda da turnê:

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The Aladdin Theater, em Portland. O primeiro show da turnê.

RECEITA

$97,519
Nossa porcentagem das vendas de ingressos. Queridos fãs, vocês são espetaculares. Amamos cada centímetro de seus corpos. Vocês são a razão pela qual podemos fazer turnês. Literalmente, 72% da receita da nossa turnê veio dos ingressos que vocês compraram. OBRIGADO.

$29,714
Venda de merchandise. Bonés, camisetas, CDs, posters. 22% da nossa receita da turnê.

$8,750
Patrocínio da Lenovo. Graças a Deus pela Lenovo! Eles nos deram 3 laptops (para que nossas luzes pudessem funcionar) e uma boa bolada em grana. Nós os agradecemos no palco por salvarem nossas peles e por apoiarem a música independente. Algumas pessoas pensam que acordos com marcas significam que você “se vendeu”. Acho que a maioria destas pessoas leva a música como um hobby, não fazem da música sua carreira ou já são músicos ricos e famosos que não precisam de uma renda. Se você está ganhando a vida como uma banda independente, um patrocinador para sua turnê é como um farol luminoso de luz financeira no final do túnel escuro da falência certeira.

Conclusão

Some tudo e você terá um total de $135,983 de receita da nossa turnê.
E tivemos $147,802 em gastos.

Ainda perdemos $11,819.

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Poplamoose no Fillmore, em San Francisco. 11 de Outubro de 2014. Foto por Kassie Borreson.

Mas, esta não é uma história triste. Sabíamos que seria uma jornada cara, mas ainda assim decidimos realizar o investimento. Podíamos ter feito o show com duas pessoas ao invés de contratar seis pessoas para viajarem conosco. Isto nos teria feito economizar mais de $50,000, mas era importante que a esta altura de nossa carreira, fizéssemos o show de rock mais louco e selvagem possível. Queríamos ser convidados novamente para tocar em cada uma das casas de shows e queríamos que nossos fãs convidassem seus amigos para a próxima turnê. A perda de grana foi um investimento em turnês futuras.

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Surfando a plateia em algum lugar do país (EUA).

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Rock and roll

No final do dia, a Pomplamoose está indo bem: nossos patronos nos dão $6,326 por vídeo em nossa página na Patreon. Vendemos cerca de $5,000 de músicas por mês através do iTunes e do Loudr. Após cobrirmos todos os nossos gastos (sim, fazer clipes profissionais custa caro), a Nataly e eu tiramos, cada um, um salário mensal de mais ou menos $2500, por meio da banda. O que sobra, reinvestimos na banda ou guardamos para que não tenhamos que acumular um débito de $24,000 em nossos cartões de crédito para agendar uma nova turnê.

Em 2014, nós não tiramos um final de semana sequer de folga. Lançar dois vídeos por mês é mais do que um trabalho em tempo integral. Pois, a Pomplamoose não tem um manager e a Nataly coordenou a logística da tour sozinha. Além disso, gravamos e lançamos um novo álbum. As filmagens dos nossos clipes começavam às 9h da manhã e acabava às 2h da madrugada. Esta era a regra e não a exceção.

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Nos bastidores de nosso vídeo para “Puttin’ on the Ritz”.

O motivo de publicar todas estas estatísticas assustadoras não é para dissuadir as pessoas de se tornarem músicos profissionais. É apenas uma tentativa de levar à luz um novo paradigma de arte profissional.

Estamos entrando em uma nova era na história: o espaço entre o “artista que passa fome” e o “rico e famoso” está começando a entrar em colapso. O YouTube assinou com milhões de parceiros (pessoas que concordaram em transmitir anúncios em seus vídeos para ganhar dinheiro com o seu conteúdo). A “classe criativa” não está mais emergindo: ela está aqui, agora.

Nós, a classe criativa, estamos encontrando maneiras de ganhar a vida fazendo música, desenhando quadrinhos virtuais, escrevendo artigos, criando jogos e gravando podcasts. Muitas pessoas não sabem nossos nomes e nem conhecem nossas caras. Não estamos em capas de revistas no sacolão. Não somos ricos e não somos famosos.

Nós somos a versão pobre do “sonho”. Se a Lady Gaga é o McDonald’s, nós somos o Betty’s Diner (restaurante de beira de estrada). E estamos abertos 24 horas por dia.

Nós não “chegamos lá”. Estamos chegando lá.

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Pomplamoose no Terminal West em Atlanta, Georgia. 01 de Outubro de 2014.

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Sobre o autor

Tercio Testa

Guitarrista e um dos vocalistas da banda Lomba Raivosa!, além de colaborador do Nada Pop. Toca em bandas independentes desde 1998 e com elas já pisou em diversas cidades do Brasil e do exterior. É obcecado por música e tem absoluta certeza que não seria quem é hoje se não fosse pela ética do DIY e do punk rock.

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